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Première Tea for Two em fotos
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Coluna:
VIDA DE QUEM ESCREVE
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A atividade literária como economia caseira nos próximos 5 anos
por Maria José Silveira




A ordem dos fatores
por Maria José Silveira




Duas irmãs
por Maria José Silveira




En el centenario de José María Arguedas
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Um romance começa a viver
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O esforço da simpatia
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Filho e pai
por Maria José Silveira




A autora e seu alter ego
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Dona Maria Mioko
por Maria José Silveira




O olhar que guarda o tempo (anotações sobre fotos de Nair Benedicto)
por Maria José Silveira




Um novo mar (sem cor)
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Murros na porta
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Conversa
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As horas cordiais
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A menina do Teatro Municipal
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Maria José Silveira


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Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
30/04/2010 00:29:00 
O olhar que guarda o tempo (anotações sobre fotos de Nair Benedicto)


Por Maria José Silveira





 

        Nair Benedicto, fotógrafa reconhecida e premiada, está expondo, no Centro Cultural Vergueiro, São Paulo, algumas fotos especialmente escolhidas para compor um apanhado de nossa época: a década de 70 aos dias de hoje.


                                                   ~


       
Quando falamos de uma época, estamos falando da passagem do tempo.
       
No caso das fotos de Nair Benedicto, a época dela é a nossa. Esse tempo que está passando. Esse que estamos vivendo.
       
Com suas imagens, ela nos dá uma síntese de muitas das questões que tem sido cruciais nesses anos: mulheres, crianças, trabalhadores, trabalhadoras, índios, política na rua, família, sexo, menores, cidades, cidadãos.
       
Olhando aquelas fotos, aquela beleza toda, aquela tristeza, aquela alegria, aquele vigor, pensei: como é generoso o ofício do fotógrafo. Sem suas fotos como faríamos para guardar as imagens do tempo?





        Para Nair, “o ser humano é o ponto da questão”.
       
É ele que se ilumina em suas fotos, com toda sua complexa diversidade.


                                                   ~


       
No vídeo – também exibido na exposição – sua fala complementa as fotos, nos mostra de quem é o olhar vital que estamos compartilhando.
       
Nele, ela fala um pouco de suas relações familiares. De suas preocupações. Sua vida. Fala também com os olhos, as mãos, os cabelos brancos repicados bem curtos.
        Ali está a mulher que ela é. Sem subterfúgios.
       
Uma pessoa tão incomum quanto suas fotos.
       
Uma pessoa capaz de fazer sua uma frase de Clarice Lispector que acompanha a exposição: “Liberdade para mim é muito pouco. O que eu quero ainda não tem nome.” 


                                                   ~


       
Nair diz no vídeo:
       
A fotografia é um passaporte para relacionamentos – através dela você quase chega à alma humana.”
       
Como todo passaporte, ele é de ida e volta: o fotógrafo entra em um lugar – uma casa, uma festa, uma alma - e traz registrado o que encontrou, para mostrar a quem ficou de fora.
       
Então, pergunto a ela:
       
- Sua relação, como fotógrafa, é apenas com o momento que fotografa? Ou é também uma relação com o observador (nós aqui de fora) cujo olhar cairá sobre a foto que você tirou?
       
Resposta:
       
Para mim, compartilhar é inerente a fotografar, portanto, o observador faz parte do ato. Aquilo que você está “selecionando” no meio de tantas informações e decodificações possíveis você deseja dividir esse olhar com o outro.... envolvê-lo.“





       
Com seu recorte de fotógrafa, ela interrompe o tempo que flui, e registra um momento possível entre vários outros momentos também possíveis. Imagino que essa escolha é quase instintiva, e deve ser quase a marca de um fotógrafo. Ver o instante que deve ficar guardado.
       
- Você já sabe disso ao dar o clique ou isso só é percebido quando a foto é revelada? Ou seja: em que momento você fica mais feliz? – pergunto.
       
- Quando descubro uma imagem especial, já sei na hora do clique – ela responde. - Às vezes é melhor ainda quando “revelada”. Outras, é pior.... Mas banal ela não é nunca. Sempre que posso, gosto de deixar um pouco de espaço entre o clique e a “revelação”, pois esse descompasso entre os dois atos me incomoda. Quando a foto pode “descansar” um pouco ela volta com toda sua carga de emoções, sonoridade, ela volta incorporada.


                                                   ~


        Nair conta a história de uma das fotos: a de um travesti visto pela janela de um carro. Está ali o movimento da sedução maliciosa e sorridente que se oferece mostrando a calcinha na noite.
       
No final de um trabalho para uma reportagem sobre travestis, já de volta ao carro, exausta, Nair olha para fora e “vê” a foto que deveria ter tirado: como o travesti é visto, pela janela do carro, por quem passa por ali para contratá-lo.
       
Essa foi a imagem especial que ficou no clique.
       
Não perguntei, mas com certeza essa foto deve ser uma das suas muitas fotos que hoje estão espalhadas por vários museus do mundo.
       
Como no MoMA onde, entre outras, está a foto com o título “Tesão”, um dos seus primeiros trabalhos solo, um casal dançando num forró. O momento de volúpia dos dois: o homem que beija o pescoço oferecido da mulher.





        É curioso o poder de uma foto: sua imagem é apenas um instante mas o instante de uma história complexa e verdadeira da qual ela nos oferece ali apenas uma parte. A melhor parte, talvez, a mais rica – mas de qualquer maneira apenas uma parte. Daí o mundo de coisas que uma foto pode nos oferecer. Daí porque nos faz pensar tanto.


                                                   ~


       
O olhar do fotógrafo está ali para ser olhado também por nós.
       
Olhar pode significar apenas ver – o que, a rigor, já é muito. Mas pode significar também compreender. E compreender é saber do que aquele instante faz parte.





       
Dá vontade de falar de cada uma das fotos da exposição.
       
Ou perguntar a Nair a história por trás de cada uma delas.



                                                   ~


       
Só mais uma:
       
Crianças com rostos cobertos por rústicas máscaras de papelão. Estão em volta de uma mesinha com cocaína, no centro de São Paulo em 1991.
       
A máscara que cobre o rosto do pequeno no primeiro plano deixa ver seus olhos de bichinho acuado.
       
Tem muita tristeza nos olhos dos menores fotografados por Nair.
       
Tem muita tristeza nos olhos das crianças de nossa época.





       
Claro, tem também crianças de olhos felizes. Lindas crianças de todo feitio e cores e classes sociais.
       
Crianças que começam a viver sua época na nossa. E tem o tempo à sua frente. Crianças que tiveram o sonho em seus olhos guardados pelas lentes de Nair. Uma das grandes entre os fotógrafos brasileiros contemporâneos.




 

     A exposição da Nair Benedicto estará no Centro Cultural Vergueiro
     até o dia 13 de junho.





                                                * * *



Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. E-mail:
mariajosesilveira@terra.com.br

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