23/08/2005 01:11:00
Uma imagem e poucas palavras
Por Marcelo Tápia
 Luiz Sergio Modesto
Obra do Acaso? Certamente: considere-se este um engendramento de contingências, uma confluência de coincidências, ou mesmo Deus, algo a fez existir. Mas certamente, também, esse algo envolve a multiplicidade de fatores, um autor cuja ação abarcou o mundo. Por isso, esta não poderá ser vista como obra de apenas um mortal, ainda que o realizador da foto tenha um nome: Luiz Sergio Modesto, amante da fotografia e, também – poeta que é –, das palavras. Ele estava naquele lugar naquele dia, naquela hora, naquele minuto, naquele segundo, segundo que lhe deu de presente um duplo, articulado por uma nuvem que ali passava, com a aparência configurada pela interação de seu vapor, mantido assim em sua coesão, com os ventos que o trouxeram para ali, naquele exato instante.
Digamos o óbvio: a nuvem parece ter sua forma em correspondência quase perfeita (a perfeição existe?) com a copa da árvore, cena presenciada em um parque de Amsterdã (não há montagem ou retoque). Momento, flagrante, gesto, clic: um ready-made naturalmente propiciado por um ensejo breve, contemplação de um eu sujeito à rápida ação do tempo, congelada em imagem perene: o gesto de captura do real aprisiona-o, ao mesmo tempo em que o amplia na dimensão temporal de sua existência, libertando-o de seu caráter efêmero.
Paridade, paronomásia de formas, paradigma de unidade a partir do duplo, feito de naturezas diferentes e contrapostas, pólos avessos e complementares de uma realidade que se move na transitoriedade para consubstanciar-se em representação concreta de um evento que, concreto quando de sua realização, permanece transposto a uma virtualidade intrinsecamente abstrata; mas que conduz ao estado de arte o simples curso da natureza, tomado em um átimo que o presentifica para sempre. Tais entidades opostas, nuvem e árvore, convivem harmonicamente em sua propriedade diversa: uma, gasosa, móvel, celeste; outra, densa, fixa, terrestre. A imagem passa a ser um ideograma – cujo sentido desdobrar-se-ia da associação de contrários afinados em sua forma correspondente –, ou um hexagrama (do I-Ching) composto pelos trigramas terra e céu.
A foto, evidentemente, é um poema. Um poema sem autor, pois este deve conter os desígnios do mundo, e isso não é uma tarefa cabível num autor. Um corpo presente e seu ato não são suficientes para atribuir a alguém tal autoria: parece realizar-se uma forma que faz justificar a visão antiga de que o poeta-cantor era um instrumento das Musas, despojando-o da posse da obra que trouxe ao mundo. Não se trata de uma simples “inspiração”, mas daquilo que permite a um instrumento realizar algo que lhe é oferecido, de alguma forma – um vento benfazejo, um sopro, uma expiração que dá som à flauta –, por um engendramento de contingências, ou uma confluência de coincidências, ou mesmo Deus.
Marcelo Tápia (Tietê, SP, 1954) é poeta, tradutor e editor. Publicou, entre outros, os livros Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Livro aberto (1992), Pedra volátil (1996) e o volume de tradução A forja – alguma poesia irlandesa (2003). Dirige a Editora Olavobrás. Vive em São Paulo. |