Café Literário Cronópios

Música e musgos
por Vicente Franz Cecim e Floriano Martins





 
Coluna:
CHAMA NO CRISTAL
Marcelo Tápia


A morte do meu chapéu
por Marcelo Tápia




Novas vozes para Joyce
por Marcelo Tápia




Pranto seco: breve resenha crítica do livro A estrela fria, de José Almino
por Marcelo Tápia




Escada de minha mansarda
por Marcelo Tápia




A um poeta que se foi
por Marcelo Tápia




Ditos mínimos
por Marcelo Tápia




Incursão em
“Arte & música”

por Marcelo Tápia




Nas trilhas de Carpentier e Nabuco
por Marcelo Tápia




Poesia existe?
por Marcelo Tápia




Uma antiga conversa com Hilda Hilst
por Marcelo Tápia




A poesia e o coração
por Marcelo Tápia




A crença na inspiração
por Marcelo Tápia




O prazer e o sofrimento de traduzir poesia
por Marcelo Tápia




Uma imagem e poucas palavras
por Marcelo Tápia




Instâncias da queda
por Marcelo Tápia







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
23/08/2005 01:11:00 
Uma imagem e poucas palavras


Por Marcelo Tápia








                              Luiz Sergio Modesto




        
         Obra do Acaso? Certamente: considere-se este um engendramento de contingências, uma confluência de coincidências, ou mesmo Deus, algo a fez existir. Mas certamente, também, esse algo envolve a multiplicidade de fatores, um autor cuja ação abarcou o mundo. Por isso, esta não poderá ser vista como obra de apenas um mortal, ainda que o realizador da foto tenha um nome: Luiz Sergio Modesto, amante da fotografia e, também – poeta que é –, das palavras. Ele estava naquele lugar naquele dia, naquela hora, naquele minuto, naquele segundo, segundo que lhe deu de presente um duplo, articulado por uma nuvem que ali passava, com a aparência configurada pela interação de seu vapor, mantido assim em sua coesão, com os ventos que o trouxeram para ali, naquele exato instante.

         Digamos o óbvio: a nuvem parece ter sua forma em correspondência quase perfeita (a perfeição existe?) com a copa da árvore, cena presenciada em um parque de Amsterdã (não há montagem ou retoque). Momento, flagrante, gesto, clic: um ready-made naturalmente propiciado por um ensejo breve, contemplação de um eu sujeito à rápida ação do tempo, congelada em imagem perene: o gesto de captura do real aprisiona-o, ao mesmo tempo em que o amplia na dimensão temporal de sua existência, libertando-o de seu caráter efêmero.

Paridade, paronomásia de formas, paradigma de unidade a partir do duplo, feito de naturezas diferentes e contrapostas, pólos avessos e complementares de uma realidade que se move na transitoriedade para consubstanciar-se em representação concreta de um evento que, concreto quando de sua realização, permanece transposto a uma virtualidade intrinsecamente abstrata; mas que conduz ao estado de arte o simples curso da natureza, tomado em um átimo que o presentifica para sempre. Tais entidades opostas, nuvem e árvore, convivem harmonicamente em sua propriedade diversa: uma, gasosa, móvel, celeste; outra, densa, fixa, terrestre. A imagem passa a ser um ideograma – cujo sentido desdobrar-se-ia da associação de contrários afinados em sua forma correspondente –, ou um hexagrama (do I-Ching) composto pelos trigramas terra e céu. 

 

A foto, evidentemente, é um poema. Um poema sem autor, pois este deve conter os desígnios do mundo, e isso não é uma tarefa cabível num autor. Um corpo presente e seu ato não são suficientes para atribuir a alguém tal autoria: parece realizar-se uma forma que faz justificar a visão antiga de que o poeta-cantor era um instrumento das Musas, despojando-o da posse da obra que trouxe ao mundo. Não se trata de uma simples “inspiração”, mas daquilo que permite a um instrumento realizar algo que lhe é oferecido, de alguma forma – um vento benfazejo, um sopro, uma expiração que dá som à flauta –, por um engendramento de contingências, ou uma confluência de coincidências, ou mesmo Deus.







Marcelo Tápia (Tietê, SP, 1954) é poeta, tradutor e editor. Publicou, entre outros, os livros Primitipo (1982), O bagatelista (1985), Rótulo (1990), Livro aberto (1992), Pedra volátil (1996) e o volume de tradução A forja – alguma poesia irlandesa (2003). Dirige a Editora Olavobrás. Vive em São Paulo. 

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Marcelo Tápia no Cronópios.