Chegamos, pai. O filho diz e faz uma pausa.
Tem sido assim a conversa entre os dois. Longa, suave, e pausada. Cada um mergulhando na vastidão de si mesmo, e usando as frases como para respirar.
Chegar... que palavra bonita, pai.
Ah, filho... é que você é poeta.
Tinham acabado de sentar na varanda da fazenda.
Isso não é poesia, pai.
O velho deu um suspiro alto e fundo. Acendeu um cigarro.
A viagem tinha sido exaustiva. Foram forçados a parar demasiadas vezes para atender à doença exigente. Houve, no entanto, os momentos em que puderam, de alguma forma, curtir a viagem, cada um a seu modo.
O filho, 50 e poucos anos, revendo a paisagem que deixara há tantos anos. Pensou reconhecer alguns trechos da mata, intangíveis. Algumas árvores. A ponte e o rio barrento. O cheiro doce da terra úmida.
O pai, 70 e tantos, recordando quando passou por ali pela primeira vez com o filho meninote. Filho com medo de boi, onde já se viu! Deu-lhe um cascudo, é verdade. No menino franzino, filho único, mimado pela avó e pela mãe. Não lhe deu gosto nas terras, mas deu nos estudos. Médico jovem, brilhando longe. Mesmo quando casou, não pensou em voltar. A mulher atriz. Não quiseram filhos. E ele acabou outra vez só. Poderia ter casado de novo, não quis.
Gostava da noite. Esposa, medicina e noite – diagnóstico fácil, pai: impossível dar certo, o filho disse depois que descansaram, comeram alguma coisa e se sentaram outra vez na varanda. Para aguentar, só mesmo a poesia.
Uma benção sua mãe poder ver seu primeiro livro, filho. Lia um poema e chorava. Até mais, eu acho, ou tanto quanto no dia que você recebeu seu anel de médico.
Boa mãe, a minha – disse o filho.
Boa esposa, a minha – disse o pai.
Cada um, a seu modo, lembrando do mesmo passado.
O senhor me deu uns bons cascudos na infância, hein, pai?, o filho riu.
Ah, se dei!, o pai desconversou.
O silêncio envolve o reencontro dos dois, as frases surgindo como borbulhas em um rio manso.
Eu já tinha me esquecido das noites daqui. Essas estrelas. Os ruídos do campo, a brisa, essa fagulha do cigarro.
Foi por isso que você quis voltar?
Não sei, pai. Difícil entender.
Minha vida, afinal, foi toda fora. Meus amigos ficaram lá.
Você não ter feito uma família, isso conta, filho.
Melhor assim, talvez. Médico vê tanta coisa, pai. E quando ela chega, é só você e ela. Ninguém mais.
O friozinho da noite penetra fundo por sua roupa fina, urbana.
Depois de um tempo, ele se levanta e diz, Obrigado, pai.
Descanse, filho, o pai responde, e continua sentado na varanda, enquanto a noite segue. Fechando o que tinha de fechar, deixando que a luz da manhã abrisse o que tinha que abrir.
De manhã, o pai acorda para o remédio do filho.
Não precisava mais.
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Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. Blog: www.mariajosesilveira.wordpress.com
E-mail: mariajosesilveira@terra.com.br