Foto: Divulgação - Flip
A festa não vai parar, dizem, logo vem aí o festival da pinga, mais uma esplêndida tradição que como dizem os robustos catalões - diante da recente votação pelo banimento das touradas - deve ser mantida a qualquer custo.
Por isso foi sugerido pelo Zé do Bonde, legítimo representante de nossa cultura, que a muitas penas pega o bonde errado e está sempre na contramão da opinião consagrada pelos mais diversos especialistas, seja tal e qual...
Aí vai, entreouvido nas ruas da capital mundial temporária da literatura, dizer sem dizer, a sugestão magistral para que o festival da pinga continue, não pare nunca de distribuir seus eflúvios, e deve mesmo se integrar a grande cerimonia instituída pela grande Inglesa...
Delirium Tremens, p. ex., seria oferecido como uma oficina prática para conjugar o álcool e a literatura, mais um movimento de integração da cultura e da tradição.
Jovens aprenderiam a cuidadosamente e gradualmente se embebedarem com as melhores marcas da pindaíba, para redigirem melhor seus delírios, ou de outro modo seriam ensinados a beberem apenas até quase caírem pois deveriam permanecer sentados para poderem ler as grandes obras-primas da literatura universal...
Mesmo que os olhos vejam dobrado, estariam, sim, lendo e lendo duplamente, instrução em dobro, num golpe único.
Mas ainda o mesmo ou outro Zé Ligeiro tira o chapéu maltratado pelo uso e pela chuva, equilibra-se nas ruas de pedra, para se dizer contemplado pela satisfação dos contrários, digo pela integração dos contrários, pela utopia realizada por acaso ou planejada que provocou uma festa deliciosa, revigorante, auto-sustentável, na qual não faltou quase nada.
Mesmo que alguns índios tenham tido suas mercadorias apreendidas nas ruas, conforme relatou um advogado, que com um índio pintado de vermelho, chegou para dizer tudo isso, para os jornalistas e afirmar-se perturbado com as ações contra a população depauperada que vende seus objetos de artesanato escondida nas calçadas, no espaço público ainda disponível para os maltratados.
Aqui se reuniu a riqueza e a pobreza, os artistas e os poderosos, a poesia, a política, a religião, o diálogo, o possível e o impossível. Todos chegam de coração aberto para novas experiências que surgem e se repetem nas ruas, pequenos espetáculos que se contrapõem e complementam as grandes entoações, normalmente de consagrados internacionais, as figuras mediáticas, que são trazidas em business class para entrevistas e palestras, viva, estaremos saciados de nossa ansiedade por tocar, cheirar e ouvir celebridades.
E se falou tanto do Brasil e alguns na biquinha leram trechos de Gilberto Freyre. E no templo maior se leu e se elogiou o brasileiro que amava, respeitava, criticava os ingleses; sua melhor forma de história que se debruçava pelas imagens mínimas em mações de cigarros, em rótulos de remédios, em histórias contadas. Tudo por ele era visto como material para a história, o que ele mesmo chamava de bisbilhotice acadêmica; era isso mesmo? De certo modo, algo que o Zé deve se lembrar de escrever em seu velho Mac-Apple.
E neste cenário no qual se fala muito de erotismo conjugado em verbo impresso, vicejam os vários sexos discretamente representados, por um desfile de contra-moda, onde os caipiras se vangloriam e as parisienses se rendem, tudo conjugado por um saudável erotismo de meia-idade, uma disponibilidade para o amor e a sexualidade vestida pela naturalidade. O melhor cenário para uma terapia existencial, para um reencontro no acaso, para se tropeçar e cair em algum ou alguma desconhecida e desentortar o coração como nossas cabeças foram tão bem desentortadas pelas insinuações de outridade que todos os dias aqui ouvimos.
Pois que assim seja consagrado o festival na capital da literatura transformada em festa para grandes, pequenos, ados, e barbados, esquerdistas e esquizoides. Mas que assim não seja, a marvada da pinga não precisa continuar e a próxima festa poderia ser outra.
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Artur Matuck has been teaching Communications, Media Arts and Literature at the University of São Paulo, Brazil, since 1984. He has worked as writer, visual artist, video producer, performer, art historian, media designer and philosopher. He has been delivering conferences and workshops worldwide. He has exhibited in several São Paulo Biennials. In 1990, he completed a history of video art and interactive television published in Brazil as The Dialogical Potential of Television. During 1991, he conceived and produced Reflux, a pioneer worldwide project on netcollaboration. In 1995 he started experimenting with text-reprocessing software. Landscript, his text-reprocessing site was featured at the 25th São Paulo Biennial International in 2002. He has been coordinating, since 2001, the international symposium Acta Media, on media arts and digital culture, at the University of São Paulo. He has also founded the Colabor Center for Digital Languages conceived to integrate student and faculty research through computer-mediated collaboration. His most recent work involves theoretical and philosophical research on media languages as they relate to thought evolution and human rights in a digital age.
Site: http://www.colabor.art.br/arturmatuck/ E-mail: arturmatuck@gmail.com