Café Literário Cronópios

A Fuga – primeira peça e making of
por Teatro para Alguém





 
Coluna:
VIDA DE QUEM ESCREVE
Maria José Silveira


A atividade literária como economia caseira nos próximos 5 anos
por Maria José Silveira




A ordem dos fatores
por Maria José Silveira




Duas irmãs
por Maria José Silveira




En el centenario de José María Arguedas
por Maria José Silveira




Um romance começa a viver
por Maria José Silveira




O esforço da simpatia
por Maria José Silveira




Filho e pai
por Maria José Silveira




A autora e seu alter ego
por Maria José Silveira




Dona Maria Mioko
por Maria José Silveira




O olhar que guarda o tempo (anotações sobre fotos de Nair Benedicto)
por Maria José Silveira




Um novo mar (sem cor)
por Maria José Silveira




Murros na porta
por Maria José Silveira




Conversa
por Maria José Silveira




As horas cordiais
por Maria José Silveira




A menina do Teatro Municipal
por Maria José Silveira







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
02/09/2010 12:58:00 
O esforço da simpatia


Por Maria José Silveira

 

        “Se alguma coisa cair lá de cima na cabeça de vocês, adeus!!”
       
Quem falava era o cara que olhava para o alto de um prédio da avenida. E o “vocês” eram dois pivetes a seu lado. A voz afetada pelo esforço de transmitir compreensão, querendo que os meninos percebessem sua simpatia, sua grandeza de alma, estão vendo? Não sou desses que passam e fingem que não vêem vocês, eu vejo, e não só vejo, como converso. Estão percebendo?
       
Sorriu.
       
Os dois pivetes, o que percebiam era que ali estava um mané. Um turistão querendo ser simpático. Ricão palhaço.
       
Sorriram de volta.
       
Não tinham a menor ideia de quem era o homem, e não estavam minimamente interessados em saber.
       
Quem era?
       
Não era turista, era de um bairro distante do centro. Tinha reservado o dia para conhecer melhor a cidade onde morava há anos. Dono de um comércio, nunca sobrava tempo. Dia de descanso, aproveitava e dormia mais, ou ia para o bar da esquina. Dessa vez, feriado na cidade, cismou em conhecê-la melhor.
       
Sua ideia era sair com a mulher e o filho, a família passeando junta. Achava que havia alguma beleza nisso, e queria experimentar.
       
Mas a mulher preferiu ficar em casa com suas coisas. Não estava de bom humor. Hás dias, há anos, não estava de bom humor. Ele não reparava muito nisso, mas hoje, com aquela vontade de aproveitar alguma coisa que não sabia o que era, reparou.
       
Mas não esquentaria a cabeça.
       
Esperaria o filho. Que, por fim, ao se levantar para o café, resmungou, Se manca, pai. Passear com o senhor? Nem puxado a guindaste!
       
Ele não soube o que dizer. Nunca sabia. Mulher e filho lhe eram mais estranhos que seus fregueses.
       
Iria com ele mesmo, então, sozinho.
       
Custou para chegar ao centro que mal conhecia. Precisava colocar pra fora aquela vontade tão rara nele. Viu os meninos e fez o comentário besta.
       
Tampouco tinha ideia de quem eram os meninos, e não lhe passava pela cabeça querer saber.
       
Mas quem eram?
       
Eram manos da rua, com a mesma curta história de longas pancadarias, fome e privações. Nunca tiveram pai, apenas arremedo de mãe, além da mãe-miséria, essa sim, mãe presente. Quando dava, dormiam por ali. Agora, o que tinham a fazer era passar aquele dia: primeiro a manhã, depois a tarde, depois quem vai saber!
       
Não era simpatia o que queriam. Era grana.
       
Foram seguindo o cara, mostrando-lhe outros prédios altos. Em algum momento, lucrariam alguma coisa.
       
O cara falava o que lhe vinha à cabeça.
       
Os meninos respondiam, achando graça do mané.
       
Os prédios eram altos, a avenida era bonita, a cidade reluzia. Uma cidade que existia totalmente sem eles. Foi o que o cara percebeu e, de repente, sentiu o amargor: ele não era nada pra ninguém.
       
Só para os dois meninos.
       
Resolveu lhes dar o dinheiro que reservara para o passeio. Puxou duas notas de dez. Vacilou e deu duas de cinco.
       
Os meninos saíram desabalados para a boca de crack.
       
E ele?
       
Ele seguiu na solidão da rua, antes de voltar para a solidão da casa.
       
Arrependeu-se.
       
Devia ter dado uma nota de cinco pros dois, ou um real. Um real seria suficiente.





                                                * * *


Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. Blog: www.mariajosesilveira.wordpress.com

 E-mail:
mariajosesilveira@terra.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Maria José Silveira no Cronópios.