Café Literário Cronópios

A poesia telegráfica de Zeca de Magalhães
por Miguel Carneiro



 
Coluna:
CONSTELAÇÃO DE SALIVA
Carlos Emílio C. Lima


A foca
por Carlos Emílio C. Lima




Interregno
por Carlos Emílio C. Lima




Inquisição
por Carlos Emílio C. Lima




Solário
por Carlos Emílio C. Lima




Viagem
por Carlos Emílio C. Lima




Ciclo
por Carlos Emílio C. Lima




Os cadernos das devorações felinas
por Carlos Emílio C. Lima




Silencioso como o paraíso, o livro-mente de Vicente Cecim
por Carlos Emílio C. Lima




No Antigo Egito
por Carlos Emílio C. Lima




Cabeças decapitadas
por Carlos Emílio C. Lima




Róia!
por Carlos Emílio C. Lima




Orbitação
por Carlos Emílio C. Lima




Jagarananda
por Carlos Emílio C. Lima




O que aconteceu antes
por Carlos Emílio C. Lima




Sempre ao redor de Wuêé
por Carlos Emílio C. Lima







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
28/10/2010 02:10:00 
Ciclo


Por Carlos Emílio C. Lima


Nota: este conto foi escrito por mim antes dos 14 anos, em 1969, e pertence ao meu livro de contos ainda inédito Solário, o qual pretendo publicar aos poucos no Cronópios em forma de folhetim. “Ciclo” foi escrito aqui em Fortaleza, na rua Carapinima nº 2425, bairro do Benfica, numa máquina de escrever Underwood novinha. Espero que goste desse meu conto literalmente infantil, porque ainda escrito por uma criança.


                                               * * *


        Teus lápis de cor chegaram porque exultas e teus momentos felizes estão em teus desenhos, são resultado das cores do mundo. As cores do mundo como diversas gradações que te levam para purificação, o último desenho, no infinito. O último, além da morte, no centro do nada, no lado oposto das cores. O amarelo da infância é um cubo que sempre jogas no ar porque não há fim nem término para os que vivem e, acima de nossas cabeças há toda uma certeza de eternidade. Há a estrutura do mundo que não compreendemos e que afetas, porque não és uma das peças. Tua inteligência sempre irrita os complexos. Tuas perguntas nem chegam a embaraçar, impulsionam o riso. Sabemos que teus pais são cegos e somente tua mãe concentrou tua forma original em fôrma, na memória. Tens que ajudá-los nas tarefas mais simples, nos problemas mais íntimos. Sabes que eles preferiam matar-se a continuar. E, resolutamente, por obrigação orgânica, ela os guia sobre o solo, evitando-os de abismos, rios e mares revoltos. Ela os salva de automóveis, nada lhes explica das astronaves. Incentiva o procedimento do pai, que, pela audição e olfato molda jardins de música, os quais transmite à esposa. Não há cegueira hereditária mas há consciências hereditárias, casas, parques, rios que trazem o barco , da foz de 1910. Há todo um humor controlável no trato familiar, todo um futuro a moldar-se nos lampejos da ideia de família. Há a apalavra fim no fim do mundo. Há o caixão de madeira levando o corpo cego para o subterrâneo porque ELA não pôde, apesar da sua dedicação, controlar a morte dos próximos, o ciclo primário. Resta o pai a não chorar, mantendo a esposa fluídica, figurada, na cama, pelos cheiros deixados e pela perpetuidade dos sons. Resta então essa outra substância, para cuidar que permaneça. O pai, para que caminhe, que aprenda a levá-la a todos os pontos sem perdê-la de intensidade, e que, inexoravelmente, passe a senti-la na boca, com o tempo a desmedir-se. Ela, a mulher, agora no gosto, destino de todos os cheiros, e semblante de todos os frutos da terra. E por aí as coisas aumentavam, os problemas geravam-se espontâneos. O pai passava a sentir um gosto de terra úmida na boca, altas horas da noite, penetrava no ciclo do choro e do desespero. E assim os parentes chegavam da distância, preocupados com a sorte dos bens. Ela entregou-se aos cuidados dessa gente, passando a andar sozinha pelos campos e currais. Eles acomodaram o pai para a morte. Ela, num erro eterno, deixou-o voltar com a natureza. Quando voltou a si, já nada podia fazer, somente avistou o pai morto ao ar, contido, sobre uma mesa, os parentes e amigos, em torno, a conversar, murmúrios de um universo restante. Ela ainda quis gritar, que
o pusessem ao ar livre,que o deixassem na chuva para que ressuscitasse. Mas lutava contra a morte, a Terra e os seres obedientes. Ainda não era mágica em todos os instantes.
       
Ela, era seu nome. Com a casa vazia, a pureza atingia os limites. Aumentava sua produção de quadros. Preparava suas refeições coloridas, tinha ímpetos de tornar-se eterna, de sobreviver à casa. Precisava agora de outros seres humanos, precisava retornar os irmãos que morreram todos em diferentes ângulos, na casa. Precisava comunicar-se com eles, criar símbolos para todos eles. Ou, então, como um escritor procurá-los no mundo adiante. Viajar e captá-los do remoto. Há seres anônimos no mundo que não sabem de onde vieram e vão. São eles que podem ser. Geralmente é fácil na Àsia, onde, devido à quantidade humana, o esquecimento torna-se geografia e os seres dos rios se confundem com os de barro. Lá, seus irmãos brotariam, dos arrozais. Lá eles a esperavam, cultivando o lugar do nascimento, o lugar da terra.
       
O mito dos deuses ou as formigas criando canais no subsolo, pondo a casa em perigo. O navio que singrara a superfície polida da infância, no alto da colina, sendo invadido pelos musgos, repleto de goteiras, fixado ao mar sólido e poroso. As camadas coloridas da Terra também levando ao centro da purificação, o fogo central e imaginário, temido durante todos os séculos. Ela trancando a casa e indo para o futuro. Passado é futuro na natureza. E viajando a través dos pássaros e das nuvens a descobrir seus gerados. A desvendar suas gerações no tempo. Ela achando seu marido, vindo das cascatas. Seus filhos repetindo-se simplesmente. Ela em pleno júbilo, reencontrando os mortos em planificado ciclo. Para lá das cores, a purificação completa nas formas, nos estados. Dominada a morte, a vida disseminada e total, a música da fertilidade contínua. Aquilo que almejara na infância, ao amanhecer, a liberdade para todos os seres, famílias, consciências encontrarem a liberdade. A casa em ruínas, tornando-se rocha, sendo coberta de verde a colina mais alta, uma nova camada para a Terra. Uma cor inédita, nunca vista, resultante dos móveis, livros, quadros, tijolos, dos objetos humanos, acrescentada ao sial.
       
Porque tudo é uma orquestração, porque tudo são campos, são rios, são bosques, são cavalos correndo e a independência de tudo. Ele reencontrou nos filhos os irmãos, no marido os pais. Ela, ampla, além da morte, comandando o clima, pronta para as palavras.











Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado em literatura espanhola na Universidade de Yale (não concluido). Editor de inúmeras publicações literárias tais como a revista o Saco Cultural, a revista Cadernos Rioarte, o jornal Letras&Artes (prêmio da APCA para melhor divulgação cultural do país em 1990), a revista triangular Arraia Pajéurbe. Correpondente da revista espanhola El Passeante no Rio de Janeiro. Publicou os romances A Cachoeira das Eras, A Coluna da Clara Sarabanda (editora Moderna, 1979), Além Jericoacoara, o observador do Litoral (Nação Cariri editora,1982), Pedaços da História Mais Longe, 1997, com prefácio de José J.Veiga e apresentação de Braúlio Tavares (editora Impressões do Brasil, 1997), Maria do Monte, O romance inédito de Jorge Amado (Tear da memória editora, 2008). Ver a versão eletrônica aqui no Cronópios nesta mesma coluna Constelação de Saliva do mesmo "livro" com o título O romance inédito de Jorge Amado na voz da velha e negra senhora, os livros de contos Ofos (Nação Cariri,1984), O romance que explodiu (editora da Universidade Federal do Ceará, 2006, com orelha de Uilcon Pereira). O livro ensaístico Virgilio Varzea, os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (cooedição da  Editora da Fundação Cultural de Santa Catarina e da Universidade Federal do Ceará, 2002). Tem ainda inéditos os livros Culinária Venusiava (poesia), Delta do rio suspenso (ensaios), A outra forma da Ilha (contos fantásticos), Teatro submerso (dramaturgia para o fundo do mar), Solário (contos infantis) de onde vem o texto acima. 
E-mail:
carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br 

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Carlos Emílio C. Lima no Cronópios.