Café Literário Cronópios

H2Horas: Livro + DVD
por da Redação





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
por Amador Ribeiro Neto




A música em 68: os hits e os rapas
por Amador Ribeiro Neto




Poesia Marginal em questão
por Amador Ribeiro Neto




Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
por Amador Ribeiro Neto




Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
por Amador Ribeiro Neto




Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
por Amador Ribeiro Neto




A fera que mora em Chico César
por Amador Ribeiro Neto




Adriana Calcanhoto e a poesia
por Amador Ribeiro Neto







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
14/02/2011 11:11:00 
Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico


Por Amador Ribeiro Neto


        Thomas Mann, Nobel de 1929, é muito conhecido por A montanha mágica (1924), que retrata uma Europa em polvorosa com a Primeira Guerra Mundial. Ou A morte em Veneza, novela de 1912 que inspirou o belo filme homônimo de Visconti. Ou mesmo Dr. Fausto, célebre por imortalizar a lenda do pacto entre o homem, desiludido com a ciência, e Mefistófeles, o demônio todo poderoso.

       
Mas é bom não esquecer outra novela de Mann, As cabeças trocadas – em especial na tradução de Herbert Caro. Aqui há um Thomas Mann diferente do seu romance de estreia, Os Buddenbrook: decadência de uma família (1901). A novela apoia-se em uma lenda hindu e é o retrato de um peculiar triângulo amoroso: a bela e irresistível Sita, os amigos Nanda e Shridaman.

      
Nanda e Shridaman nascem e vivem na mesma aldeia – a Bem-estar das Vacas – e a amizade que os estreita chega às raias das promessas de fidelidade eterna na vida e na morte

      
Nanda é ferreiro e pastor. Schridaman, um comerciante. Nanda conserva-se como filho do povo e pouco lida com as coisas espirituais. Schridaman lê os Vedas e porta-se como um brâmane. Nanda, 18 anos, é forte e dono de um porte atlético. Schridaman é frágil e possui uma leve adiposidade que chega a formar "um pouco de gordura na barriguinha", onde riso e pranto se avizinham nas vibrações.

       
Nanda é rústico. Schridaman domina um linguajar requintado.

       
Tais diferenças os atrai em fortes laços: "Os dois haviam chegado a ser amigos inseparáveis".

       
Um belo dia, em meio ao descanso que ambos empreendiam numa viagem de primavera, surge nua, encantadora e magnética a belezura adorável dos "seios virginais e firmes", das "exuberantes nádegas", do "fino e gracioso dorso", das "adoráveis espátulas", da "tez de bronze dourado", das "belas cadeiras", dos olhos grandes e "oblíquos como uma pétala de loto" de Sita, a jovem que cumpria o ritual do banho purificante, antes de adentrar o templo sagrado.

       
Configura-se o triângulo. Mas, tal como em Tristão e Isolda, em D. Casmurro de Machado, ou em Madame Bovary de Flaubert, o triângulo gira e desenha no espaço uma circunferência. Nela, todos os pontos são equidistantes do centro, o diâmetro é sempre o dobro do raio, mas o círculo que deveria abarcar a totalidade levando à harmonia, finda por desintegrá-la em casos e verdade, vontade, desejo. Nada é uno.

       
Por quê? Ora, embora o narrador advogue uma terceira pessoa pretensamente impessoal, perfura a narrativa com intromissões oblíquas e irônicas que, na observação de Anatol Rosenfeld acerca de outro romance de Mann, As confissões de Felix Krull, o tom irônico da obra potencializa e reflete a dubiedade do personagem repetindo no jogo formal a temática".

       
Se tal afirmação é plenamente válida para Felix Krull, pensar em três personagens refletidos e refratados num jogo mais que o corpo/alma, cabeça/coração envolve a dialética da própria civilização e cultura.

       
Em As cabeças trocadas a Decadência (com D maiúsculo, pois trata-se da decadência em amplos aspectos) é o eixo central de um trio que vive o lirismo e o sofrimento como quem sempre está à beira. Como quem chega ao pote quase vazio levando a esperança em enormes baldes.

       
Angustiados face ao amor e à arte, à desilusão e à vida, os três personagens têm seu destino traçado nas linhas iniciais do livro quando o narrador nos alerta para "a firmeza necessária ante uma história de natureza sangrenta e perturbadora".

       
O que vem a seguir cabe ao leitor deliciosamente fruir. A nós cabe-nos uma breve observação: ante a linearidade da trama há um perseverante e irônico pacto (diríamos: um puxar de orelhas) do narrador com o ouvinte. Para o narrador, o ouvinte (leitor) é quase sempre displicente, ou ao menos desatento, tomando muitas palavras pelo seu sentido contaminado socialmente. Ou melhor: aceita os clichês sem questionar o signo ideológico que ali adormece.

       
Aproveitando o caráter do texto enquanto lenda "que se ouve de alguém", o narrador, nas delícias das palavras, se apresenta entre cerimonioso e poético. Nas descrições de pessoas e sentimentos nos transporta para a leveza das telas de Klint.

       
Mas isto dura apenas instantes pois lado a lado com a descontração do discurso oral, o texto constrói-se nas malhas de um arguto narrador. Ora assume o ponto de vista de um personagem (Schridaman, por ex.), ora se refugia numa longínqua terceira pessoa do singular e ora se acoberta entre as obliquidades de uma primeira ou terceira pessoa provocando a cumplicidade irônica do leitor (ouvinte).

       
Camaleônico, ele tece com a linguagem uma túnica falsamente inconsútil.

       
Não é por acaso que Otto Maria Carpeaux em seu A cinza do Purgatório afirma: "É impossível não admirar Thomas Mann (...). Todos o leem, e todos o admiram, do crítico mais exigente até a girl mais engraçada". E conclui categórico: "Ele é irresistível".

     
As cabeças trocadas, escrito em 1940, é uma ponte oriental na linha de reflexão acerca da incapacidade de viver ante a arrogância das certezas burguesas, totalitárias, ascéticas ou materialistas.

       
Irônico, Mann nos remete ao conto "As academias de Sião", de Machado de Assis, onde nosso grande bruxo processa uma metamorfose nos corpos de dois personagens, mas movido por uma causa bem diversa: a sexualidade das almas (!).

       
Dialético, Mann dialoga com Nietzsche, Freud, Schopenhauer – e o homem é mais uma vez alçado à condição de pergunta solta no ar.

       
Desafiante, Mann nos apresenta, por fim, o jovem Samadhi/Andhaka. Samadhi significa "compostura" e Andhaka – que é seu apelido – quer dizer "ceguinho". Uma compostura cega. Eis a síntese que o narrador nos oferece.

       
Com o tempo Andhaka vem a ser preletor do rei. A "compostura cega" é a mãe da vida, da arte, do amor, do poder? Entre questionamentos profundos da vida do homem sobre a terra, As cabeças cortadas são, indubitavelmente, um banho sagrado de lição de literatura. Que o leitor não tema este mergulho de dor, prazer e gozo.



                                                  * * *



Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.) e organizador e co-autor de Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (ensaios - Orobó Edições). E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Amador Ribeiro Neto no Cronópios.