13/04/2011 15:21:00
[25] Quem dorme no bonde perde o poncto
Por Glauco Mattoso

Professor Aquaplay e MC Carvão - foto: Danzero (http://udr666.blogspot.com)
Emquanto ainda repercute aquillo que occorreu com a deputada Mara Gabrilli no aeroporto e que, sem repercutir, vem occorrendo com muitos deficientes physicos em quaesquer locaes (inclusive commigo), vale revisitar um de meus ultimos commentarios na revista CAROS AMIGOS para addicionar mais lenha na fogueira:
66Pela internet, um funkeiro dos mais sarristas me suggeriu: "Cego, tu tem que ouvir o som da UDR 666, tu vae goshtá!" De facto, me amarrei no sadismo desses mineiros, authenticos poetas da contracultura "prohibidona", mas não consegui me communicar com o Aquaplay nem com o Carvão, cujos endereços estavam desactivados. A lettra de seu "Bonde do aleijado" me fez imaginar como seria um "Bonde do cego"... Mas, ao mesmo tempo, reflecti que o proprio sadomasochismo tem seu componente carnavalizado. Sem fallar no simulacro que envolve um pacto consensual privado ou uma scena clubistica, o facto é que o brasileiro é capaz de encarar as maiores barbaridades pelo lado anecdotico... E lettristas como os da UDR 666 captam toda a violencia do quotidiano com aquella impiedosa veia satirica da melhor poesia fescennina. Tudo, por signal, é passivel de carnavalização neste paiz. A thematica das marchinhas mais famosas é um verdadeiro theatro de revista, criticando episodios e personagens da nossa historia. Até sadismo explicito achamos nellas, como naquella do Lamartine Babo, "Boa bola", ou naquella do Noel Rosa com o Hervê Cordovil, "O que é que você fazia?", cantada pela Carmen Miranda.99
Antes de proseguir nos commentarios, copio abaixo a citada lettra do grupo funkeiro mineiro, disponivel na rede:
BONDE DO ALEIJADO [UDR 666]
Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado UDR 666, esse é o bonde do aleijado
Quando vejo um aleijado, não consigo sentir dó Roubo logo sua charteira p`ra poder comprar meu pó Ô aleijado, cê tá correndo risco Vou raspar sua cabeça na muralha de chapisco
Aleijado, commigo, não tem voz e não tem vez Troquei o Barrerito num Gordini 73 Meu amigo aleijado não aguenta brincadeira Dei p`ra elle um patinete e elle chorou a noite inteira
Minha irman é aleijada e é só uma menina P`ra fugir da depressão eu a drogo com benzina Comprei um aleijado numa feira em Contagem Moi seus membros toscos p`ra poder fazer serragem
Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado UDR 666, esse é o bonde do aleijado
Suruba de aleijado, com sexo anal Cadeira de roda é descanso pro meu pau Quando vejo um aleijado, corro p`ra pintar o 7 O amarro num banquinho e faço um filme de scat
Tenho um primo aleijado que tambem é meio mongol Para rir de seus defeitos, dei a elle um Pogobol Estrupo de aleijado é uma coisa bem legal Não precisa abrir as pernas p`ra fazer sexo anal
Fui pego pela ROTA e por pouco não fui preso Escondi minha cocaina no joelho do Cerezo Caçoar de aleijados é a minha diversão Inscrevi o Gerson Brenner numa aula de baião
Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado UDR 666, esse é o bonde do aleijado
Mostrei a lettra acyma a alguns amigos, que, depois de checar o respectivo video pelo computador, criticaram: "Ora, Glauco, a lettra pode até valer como humor negro, mas a performance delles é muito mambembe, parece coisa caseira, de fundo de quintal!" Ao que respondi: "Ora, as bandas de garagem sempre fizeram seu rock mambembe, mas, sem ellas, o punk nem existiria! Alem do mais, tanto o rap quanto o funk, quando teem lettras creativas, compensam a monotonia sonora com o conteudo lyrico-rhythmico..."
Ja tive opportunidade de analysar a requinctada ultraviolencia nas lettras de grupos rapeiros como os Racionaes MCs, o Cambio Negro ou a Facção Central, mas, no caso do funk, demorei a achar versos do mesmo nivel de composição. Estes moleques de Minas me fizeram prestar mais attenção ao genero. Os patrulheiros politicamente correctos, naturalmente, diriam que zoar assim dum cadeirante é o cumulo do desrespeito, mas eu lembraria que tambem os cegos, que nos States são muito organizados e repudiaram publicamente a versão filmada do "Ensaio sobre a cegueira", nada fazem para contestar as centenas de pegadinhas extremamente sadicas que pullulam no Youtube a quem digitar no buscador, por exemplo, "Pranks on blind people" (titulo, por signal, dum de meus cyclos de sonetos)...
Emfim, como não podia deixar de ser, adeantei-me à minha própria suggestão e compuz o soneto que poderia ser assignado pela UDR 666. Com elle me despeço, até o mez que vem:
BONDE DO CEGUINHO [4022]
Funkeiro de verdade não tem dó! Um cego me diverte e eu tiro sarro! Si está no meu caminho, eu logo esbarro! Empurro, dou rasteira, e não é só!
A grana eu lhe roubei p`ra comprar pó! Da cara delle rindo, eu nella escarro! O faço escorregar, cahir no barro! Lhe piso na cabeça e no gogó!
Estupro de ceguinho é divertido! Zombar delle é legal, fazer de gatto! Montar nelle, enrabar, eu que decido!
Não posso ver um cego, que eu maltracto! Está no escuro, e eu vejo colorido! Que chore! Eu dou risada emquanto batto!
* * *
[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]
Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br
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