Café Literário Cronópios

Augusto de Campos: “a poesia que faço é a do artesão”
por Ana Lúcia Vasconcelos





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
13/04/2011 15:21:00 
[25] Quem dorme no bonde perde o poncto


Por Glauco Mattoso




        Professor Aquaplay e MC Carvão - foto: Danzero (http://udr666.blogspot.com)


Emquanto ainda repercute aquillo que occorreu com a deputada Mara Gabrilli no aeroporto e que, sem repercutir, vem occorrendo com muitos deficientes physicos em quaesquer locaes (inclusive commigo), vale revisitar um de meus ultimos commentarios na revista CAROS AMIGOS para addicionar mais lenha na fogueira:

66Pela internet, um funkeiro dos mais sarristas me suggeriu: "Cego, tu tem que ouvir o som da UDR 666, tu vae goshtá!" De facto, me amarrei no sadismo desses mineiros, authenticos poetas da contracultura "prohibidona", mas não consegui me communicar com o Aquaplay nem com o Carvão, cujos endereços estavam desactivados. A lettra de seu "Bonde do aleijado" me fez imaginar como seria um "Bonde do cego"... Mas, ao mesmo tempo, reflecti que o proprio sadomasochismo tem seu componente carnavalizado. Sem fallar no simulacro que envolve um pacto consensual privado ou uma scena clubistica, o facto é que o brasileiro é capaz de encarar as maiores barbaridades pelo lado anecdotico... E lettristas como os da UDR 666 captam toda a violencia do quotidiano com aquella impiedosa veia satirica da melhor poesia fescennina. Tudo, por signal, é passivel de carnavalização neste paiz. A thematica das marchinhas mais famosas é um verdadeiro theatro de revista, criticando episodios e personagens da nossa historia. Até sadismo explicito achamos nellas, como naquella do Lamartine Babo, "Boa bola", ou naquella do Noel Rosa com o Hervê Cordovil, "O que é que você fazia?", cantada pela Carmen Miranda.99

Antes de proseguir nos commentarios, copio abaixo a citada lettra do grupo funkeiro mineiro, disponivel na rede:


BONDE DO ALEIJADO [UDR 666]

Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado
UDR 666, esse é o bonde do aleijado

Quando vejo um aleijado, não consigo sentir dó
Roubo logo sua charteira p`ra poder comprar meu pó
Ô aleijado, cê tá correndo risco
Vou raspar sua cabeça na muralha de chapisco

Aleijado, commigo, não tem voz e não tem vez
Troquei o Barrerito num Gordini 73
Meu amigo aleijado não aguenta brincadeira
Dei p`ra elle um patinete e elle chorou a noite inteira

Minha irman é aleijada e é só uma menina
P`ra fugir da depressão eu a drogo com benzina
Comprei um aleijado numa feira em Contagem
Moi seus membros toscos p`ra poder fazer serragem

Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado
UDR 666, esse é o bonde do aleijado

Suruba de aleijado, com sexo anal
Cadeira de roda é descanso pro meu pau
Quando vejo um aleijado, corro p`ra pintar o 7
O amarro num banquinho e faço um filme de scat

Tenho um primo aleijado que tambem é meio mongol
Para rir de seus defeitos, dei a elle um Pogobol
Estrupo de aleijado é uma coisa bem legal
Não precisa abrir as pernas p`ra fazer sexo anal

Fui pego pela ROTA e por pouco não fui preso
Escondi minha cocaina no joelho do Cerezo
Caçoar de aleijados é a minha diversão
Inscrevi o Gerson Brenner numa aula de baião

Cinctura p`ra baixo, tudo paralysado
UDR 666, esse é o bonde do aleijado


Mostrei a lettra acyma a alguns amigos, que, depois de checar o respectivo video pelo computador, criticaram: "Ora, Glauco, a lettra pode até valer como humor negro, mas a performance delles é muito mambembe, parece coisa caseira, de fundo de quintal!" Ao que respondi: "Ora, as bandas de garagem sempre fizeram seu rock mambembe, mas, sem ellas, o punk nem existiria! Alem do mais, tanto o rap quanto o funk, quando teem lettras creativas, compensam a monotonia sonora com o conteudo lyrico-rhythmico..."

Ja tive opportunidade de analysar a requinctada ultraviolencia nas lettras de grupos rapeiros como os Racionaes MCs, o Cambio Negro ou a Facção Central, mas, no caso do funk, demorei a achar versos do mesmo nivel de composição. Estes moleques de Minas me fizeram prestar mais attenção ao genero. Os patrulheiros politicamente correctos, naturalmente, diriam que zoar assim dum cadeirante é o cumulo do desrespeito, mas eu lembraria que tambem os cegos, que nos States são muito organizados e repudiaram publicamente a versão filmada do "Ensaio sobre a cegueira", nada fazem para contestar as centenas de pegadinhas extremamente sadicas que pullulam no Youtube a quem digitar no buscador, por exemplo, "Pranks on blind people" (titulo, por signal, dum de meus cyclos de sonetos)...

Emfim, como não podia deixar de ser, adeantei-me à minha própria suggestão e compuz o soneto que poderia ser assignado pela UDR 666. Com elle me despeço, até o mez que vem:


BONDE DO CEGUINHO [4022]

Funkeiro de verdade não tem dó!
Um cego me diverte e eu tiro sarro!
Si está no meu caminho, eu logo esbarro!
Empurro, dou rasteira, e não é só!

A grana eu lhe roubei p`ra comprar pó!
Da cara delle rindo, eu nella escarro!
O faço escorregar, cahir no barro!
Lhe piso na cabeça e no gogó!

Estupro de ceguinho é divertido!
Zombar delle é legal, fazer de gatto!
Montar nelle, enrabar, eu que decido!

Não posso ver um cego, que eu maltracto!
Está no escuro, e eu vejo colorido!
Que chore! Eu dou risada emquanto batto!




                                               * * *

[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]

Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br


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