Café Literário Cronópios

Um cão morrendo de fome
por Bráulio Tavares





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
15/05/2011 01:34:00 
[26] Valentia assistida


Por Glauco Mattoso





Si recordar é viver, relembrar impulsos suicidas frustrados é reviver, no sentido mais litteral. Mas, antes de proseguir, revisito dois sonetos autobiographicos:


SONETO INFERIOR [360]

Mudei-me para o Rio desolado.
Perdi minha nisei. Nem vi o diploma.
Temendo o aggravamento do glaucoma,
queria me atirar do Corcovado.

Pensei no Assis Valente, outro coitado
que de autocompaixão fatal se toma.
A calma da visão, porem, me embroma,
e a tragica opção fica de lado.

Ao pé do Pão de Assucar, pelo Aterro,
caminho, sob o effeito azul do clima,
tentando achar as causas de algum erro.

A luz do sol me aquece e reanima.
Farei um bom proveito do desterro.
Fiquei por baixo. Agora estou por cyma.



SONETO DO ALTO DO PÃO DE ASSUCAR [1368]

Sahindo do bondinho, ja me espanto
que caiba, la no topo, um bosque, até,
com trilhas que conduzem a um recantho
tão calmo... Mas o risco sei qual é...

Parece, para quem percorre a pé,
que tudo aquillo é plano. Si, no entanto,
o matto ultrapassar e marcha à ré
não der a tempo, peça a mão do sancto!

O abysmo abre-se a um passo, em rocha pura,
e quem precipitar-se dessa altura
até morrer bom tempo levará...

Emquanto despencar, estará vendo,
ainda que presinta o fim horrendo,
que o Rio de Janeiro lindo está!



O primeiro soneto allude às desillusões da minha mocidade paulistana, inclusive a fracassados namoros heterosexuaes, mas a principal motivação suicida era mesmo a molestia que me cegou, thema do texto abaixo, que publiquei no caderno ILLUSTRISSIMA da FOLHA:

66Fallei ja deste assumpto, em prosa e verso, mas só de passagem, envergonhado da covardia, ou na duvida entre duas covardias: a fuga da vida pelo suicidio e a opção pela vida por medo de mactar-me antes de ficar cego. Desarchivar a confissão das successivas tentativas suicidas é um exorcismo que vem a calhar, no momento em que desmonto minha bibliotheca, prestes a completar sessenta annos e recem completando os quattro mil sonetos: tudo tem cheiro de pagina virada. Os livros foram para o sebo, excepto alguns presenteados aos amigos. Nas mãos de Lourenço Mutarelli deixei, dias atraz, dois volumes sobre suicidio, um delles o manual intitulado "Modo de usar", que nunca me serviu. Talvez sirva a algum personagem do Lourax Mutarax...

Deschartadas, de prompto, as soluções chimicas, e sendo a ponctuda faca, na gaveta do creado mudo, a garantia implicita de que jamais seria usada, minha fixação se voltou para uma precipitação que, contradictoriamente, não podia ser precipitada: influenciado por Assis Valente, pensei em me jogar do Pão de Assucar ou do Corcovado, mas só quando me mudasse para o Rio. Antes, considerei um salto do edificio Italia ou do Martinelli. Um viaducto seria arriscado, poderia não ser fatal. Verifiquei que, no Terraço Italia (como no Empire State constatei mais tarde), o parapeito estava mais para paraqueixo, era muito alto; mas, da Casa do Commendador, na cobertura do Martinelli, a mureta era facilmente transponivel. Nos morros cariocas, o paredão de pedra se
verticaliza a poucos passos do limite turistico. Faltava o impulso psychologico para consummar o gesto physico.

Ray Charles perdeu a visão ainda creança, mas eu, padecendo do mesmo mal congenito, consegui adiar a perda total até os quarenta annos. Entre uma cirurgia e outra, a expectativa da cegueira me levava à extrema decisão, que a possessão poetica (ou demoniaca) sempre abortava. Finalmente, em
1995, a pressão intraocular (que ja cegara um olho em 1972, anno em que me graduava em bibliotheconomia) venceu o olho que ainda tinha residuo visual. A essa altura, eu morava à altura dum nono andar, nem precisaria sahir de casa para encerrar o caso: bastava pullar da janella. Mas não o fiz. Do contrario, estaria aqui em espirito, é claro.

Quem me assistiu, em espirito, foi um Jorge, o Borges, que tambem perdeu a visão progressivamente, tambem foi bibliothecario e tambem bruxo, alem de accompanhado por uma inseparavel presença nipponica, como eu: feminina a delle, Maria Kodama, masculina a minha, Akira. Graças a outro amigo, Jorge Schwartz, que em 1997 me convidou a traduzirmos "Fervor de
Buenos Aires" para a edição brasileira das obras completas de Borges, paguei meu primeiro computador fallante com a grana do premio Jabuty que ganhamos. A informatica me trouxe de volta à vida creativa e, compulsivamente, passei a compor sonetos, me dissuadindo de vez da excappatoria suicida, que a ninguem suggiro. Em tempos de revival kardecista, nada mais edificante, não?

Falta a metaphora politica, mas esta é obvia: emquanto muitos da minha geração fugiram do obscurantismo dictatorial pelo exilio ou o enfrentaram sob tortura, alguns até à morte, eu tentei fugir isoladamente e acabei resistindo às trevas, espiritualmente guiado por outro escriptor cego, sem que tenhamos ambos cahido no abysmo. Faz algum sentido, não faz?99


                                                  * * *

[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]

Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br


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