Si recordar é viver, relembrar impulsos suicidas frustrados é reviver, no sentido mais litteral. Mas, antes de proseguir, revisito dois sonetos autobiographicos:
SONETO INFERIOR [360]
Mudei-me para o Rio desolado. Perdi minha nisei. Nem vi o diploma. Temendo o aggravamento do glaucoma, queria me atirar do Corcovado.
Pensei no Assis Valente, outro coitado que de autocompaixão fatal se toma. A calma da visão, porem, me embroma, e a tragica opção fica de lado.
Ao pé do Pão de Assucar, pelo Aterro, caminho, sob o effeito azul do clima, tentando achar as causas de algum erro.
A luz do sol me aquece e reanima. Farei um bom proveito do desterro. Fiquei por baixo. Agora estou por cyma.
SONETO DO ALTO DO PÃO DE ASSUCAR [1368]
Sahindo do bondinho, ja me espanto que caiba, la no topo, um bosque, até, com trilhas que conduzem a um recantho tão calmo... Mas o risco sei qual é...
Parece, para quem percorre a pé, que tudo aquillo é plano. Si, no entanto, o matto ultrapassar e marcha à ré não der a tempo, peça a mão do sancto!
O abysmo abre-se a um passo, em rocha pura, e quem precipitar-se dessa altura até morrer bom tempo levará...
Emquanto despencar, estará vendo, ainda que presinta o fim horrendo, que o Rio de Janeiro lindo está!
O primeiro soneto allude às desillusões da minha mocidade paulistana, inclusive a fracassados namoros heterosexuaes, mas a principal motivação suicida era mesmo a molestia que me cegou, thema do texto abaixo, que publiquei no caderno ILLUSTRISSIMA da FOLHA:
66Fallei ja deste assumpto, em prosa e verso, mas só de passagem, envergonhado da covardia, ou na duvida entre duas covardias: a fuga da vida pelo suicidio e a opção pela vida por medo de mactar-me antes de ficar cego. Desarchivar a confissão das successivas tentativas suicidas é um exorcismo que vem a calhar, no momento em que desmonto minha bibliotheca, prestes a completar sessenta annos e recem completando os quattro mil sonetos: tudo tem cheiro de pagina virada. Os livros foram para o sebo, excepto alguns presenteados aos amigos. Nas mãos de Lourenço Mutarelli deixei, dias atraz, dois volumes sobre suicidio, um delles o manual intitulado "Modo de usar", que nunca me serviu. Talvez sirva a algum personagem do Lourax Mutarax...
Deschartadas, de prompto, as soluções chimicas, e sendo a ponctuda faca, na gaveta do creado mudo, a garantia implicita de que jamais seria usada, minha fixação se voltou para uma precipitação que, contradictoriamente, não podia ser precipitada: influenciado por Assis Valente, pensei em me jogar do Pão de Assucar ou do Corcovado, mas só quando me mudasse para o Rio. Antes, considerei um salto do edificio Italia ou do Martinelli. Um viaducto seria arriscado, poderia não ser fatal. Verifiquei que, no Terraço Italia (como no Empire State constatei mais tarde), o parapeito estava mais para paraqueixo, era muito alto; mas, da Casa do Commendador, na cobertura do Martinelli, a mureta era facilmente transponivel. Nos morros cariocas, o paredão de pedra se verticaliza a poucos passos do limite turistico. Faltava o impulso psychologico para consummar o gesto physico.
Ray Charles perdeu a visão ainda creança, mas eu, padecendo do mesmo mal congenito, consegui adiar a perda total até os quarenta annos. Entre uma cirurgia e outra, a expectativa da cegueira me levava à extrema decisão, que a possessão poetica (ou demoniaca) sempre abortava. Finalmente, em 1995, a pressão intraocular (que ja cegara um olho em 1972, anno em que me graduava em bibliotheconomia) venceu o olho que ainda tinha residuo visual. A essa altura, eu morava à altura dum nono andar, nem precisaria sahir de casa para encerrar o caso: bastava pullar da janella. Mas não o fiz. Do contrario, estaria aqui em espirito, é claro.
Quem me assistiu, em espirito, foi um Jorge, o Borges, que tambem perdeu a visão progressivamente, tambem foi bibliothecario e tambem bruxo, alem de accompanhado por uma inseparavel presença nipponica, como eu: feminina a delle, Maria Kodama, masculina a minha, Akira. Graças a outro amigo, Jorge Schwartz, que em 1997 me convidou a traduzirmos "Fervor de Buenos Aires" para a edição brasileira das obras completas de Borges, paguei meu primeiro computador fallante com a grana do premio Jabuty que ganhamos. A informatica me trouxe de volta à vida creativa e, compulsivamente, passei a compor sonetos, me dissuadindo de vez da excappatoria suicida, que a ninguem suggiro. Em tempos de revival kardecista, nada mais edificante, não?
Falta a metaphora politica, mas esta é obvia: emquanto muitos da minha geração fugiram do obscurantismo dictatorial pelo exilio ou o enfrentaram sob tortura, alguns até à morte, eu tentei fugir isoladamente e acabei resistindo às trevas, espiritualmente guiado por outro escriptor cego, sem que tenhamos ambos cahido no abysmo. Faz algum sentido, não faz?99
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[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]
Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br