Café Literário Cronópios

Uma noite com João Silvério Trevisan
por TV Cronópios





 
Coluna:
O RAIO DA SILIBRINA
Bráulio Tavares


Literatura Conceitual e O gênio não-original
por Bráulio Tavares




Marte vs. Maranhão
por Bráulio Tavares




O que é mainstream
por Bráulio Tavares




Por que escrevemos
por Bráulio Tavares




A Presidência segundo Asimov
por Bráulio Tavares




O Jornal do Brasil
por Bráulio Tavares




As tartarugas telepáticas
por Bráulio Tavares




Welles e Wells
por Bráulio Tavares




Maiakóvski e a Ficção Científica
por Bráulio Tavares




Poe e o efeito
por Bráulio Tavares




Jesse Dylan e a Internet
por Bráulio Tavares




Tuitando com a mente
por Bráulio Tavares




O texto do encarte
por Bráulio Tavares




Os livros impublicáveis
por Bráulio Tavares




Os gêneros literários
por Bráulio Tavares







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
19/05/2011 21:45:00 
O que é mainstream


Por Bráulio Tavares




O conceito de “mainstream” literário é tipicamente um conceito da mentalidade norte-americana. O primeiro indício disto é que até hoje não temos um termo brasileiro que o exprima. Há quem use “corrente principal” (que parece jargão de engenharia elétrica), “tronco literário” (idem da engenharia florestal). Eu uso geralmente um circunlóquio como “a literatura propriamente dita”, que me parece horrivelmente vago. “Mainstream” é usado em inglês para exprimir um modo como os norte-americanos visualizam a literatura: um enorme rio que tem uma correnteza principal, como o Nilo, e que como o Nilo se subdivide eventualmente num delta de correntezas menores, que seriam os gêneros (policial, terror, amor, faroeste, etc.), as quais, contudo só existem porque são um mero desvio de uma parte das águas dessa correnteza maior, que é o rio propriamente dito.

Quando os norte-americanos falam “mainstream” eles estão querendo dizer algo como: “o moderno romance realista urbano, que descreve a vida de tipos humanos reconhecíveis em ambientes humanos reconhecíveis, e que nos faz revelações sobre a estrutura sócio-histórica-econômica do ambiente, e sobre o perfil psicológico dos personagens”. Este é o modelo literário dominante no mundo ocidental, desde a crítica literária da imprensa e dos jornais aos estudos universitários. O fato de corresponder a uma fatia muito estreita da produção literária não tem importância. A “corrente principal” não é principal por causa da quantidade, mas por causa do seu mero poder de se impor como modelo. Esse tipo de livro tem credibilidade e poder político, um poder meramente espiritual, mas nem por isto menos poderoso. Tem a maioria dos críticos, dos professores e dos acadêmicos ao seu lado. E é um modelo que vem sendo aperfeiçoado há pelo menos duzentos anos.

No Brasil, esse mainstream se divide no realismo social-histórico e no realismo psicológico. Quando um autor pertencente a uma destas tendências começa a exagerar certos traços, começa a se desprender do mainstream. Rubem Fonseca, por exemplo, volta e meia parece estar sendo empurrado para o gueto da literatura policial, mas sempre retorna à corrente principal. (Entre outras coisas, porque a crítica não quer abrir mão dele.) Como o brasileiro culto tem obsessão por História, o romance histórico é entre nós parte do mainstream, e não da literatura de gênero.

Quando é que um conjunto de textos sai do mainstream e constitui um gênero? Eu diria que é quando ele cria um público próprio, um mercado próprio, um sistema de feedback (críticas, resenhas, publicações) próprio e passa a não precisar do sistema do mainstream. Ocorreu isso com a ficção científica dos EUA, e é irônico que ela, depois de se tornar independente do sistema maior, sofra hoje a nostalgia de não ser aceita por ele. Isso se dá provavelmente porque o mercado (apesar de imenso, comparado ao brasileiro) é pequeno, comparado ao mercado mainstream norte-americano. 


                                                 * * *

Bráulio Tavares é escritor, roteirista e compositor. Compilou a primeira bibliografia do gênero: o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional). Autor de “A Espinha Dorsal da Memória”, “A Máquina Voadora” e “Anjo Exterminador” (todos pela Rocco). Organizou as antologias "Contos obscuros de Edgar Allan Poe", “Freud e o Estranho”, “Contos Fantásticos no Labirinto de Borges” e “Páginas de Sombra” (todos pela editora Casa da Palavra). E-mail: btavares13@terra.com.br





Nota da Redação: aproveite para assistir palestra de Bráulio Tavares sobre Edgar Alan Poe na TV Cronópios. Esta palestra, transmitida ao vivo e gravada pela TV Cronópios, já foi vista por mais de 1.400 pessoas, um sucesso de público. Para acessar a palestra “Histórias desconhecidas de Edgar Allan Poe”, clique no link:
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