Café Literário Cronópios

Algumas palavras sobre a poesia radioactiva de Camila Vardarac
por Raphael Cinaty





 
Coluna:
FARRA
Amador Ribeiro Neto


Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante
por Amador Ribeiro Neto




Thomas Mann: oriental, oblíquo e irônico
por Amador Ribeiro Neto




Céu inteiro. O céu acima de Ricardo Aleixo
por Amador Ribeiro Neto




Novo volume de Roteiro da Poesia Brasileira
por Amador Ribeiro Neto




O haicaista paraibano Saulo Mendonça
por Amador Ribeiro Neto




Sobre a palavra
por Amador Ribeiro Neto




Ouvindo a terceira margem
por Amador Ribeiro Neto




A música em 68: os hits e os rapas
por Amador Ribeiro Neto




Poesia Marginal em questão
por Amador Ribeiro Neto




Duas ou três coisas sobre poesia e crítica
por Amador Ribeiro Neto




Jorge Mautner e suas canções homoeróticas
por Amador Ribeiro Neto




Contos homoeróticos de um estreante
por Amador Ribeiro Neto




Cazuza, cronista do Brasil
por Amador Ribeiro Neto




A fera que mora em Chico César
por Amador Ribeiro Neto




Adriana Calcanhoto e a poesia
por Amador Ribeiro Neto







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


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Guido Bilharinho


Italo Moriconi


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Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
12/07/2011 00:49:00 
Arte e representação em nossa sociedade pluralista e mutante


Por Amador Ribeiro Neto



                                          Botho Strauss - foto: Ruth Walz


       Botho Strauss é alemão e hoje tem 67 anos de idade. Jornalista, poeta, ensaísta, romancista e dramaturgo, vive em Berlim e sempre usou o teatro como atividade motora de seu processo criativo.

       Pense em alguém que conhece e domina a linguagem teatral. Possui um invejável repertório sobre pintura. Discorre sobre cinema a fundo. Tem olhos críticos para a sociedade contemporânea. E escreve deliciosamente bem, enfeixando todos esses elementos.

       Você está diante de Botho Strauss e de seu romance Um homem jovem, em tradução de Lya Luft. Em tempo: esqueça a escritora água com açúcar: detenha-se na tradutora que sabe adentrar muito bem o universo straussiano.

       Se no mundo atual o cotidiano é vazio, ou preenchido por futilidades, deixando o homem sem chão e sem utopias, a postura do autor é outra. Ele aposta na transformação das relações interpessoais e sociais.

       À visão não-utópica do pós-modernismo, Botho Strauss contrapõe o elogio da crise enquanto princípio reorganizador da vida.

       Em seu romance, Leon Pracht, o jovem diretor teatral, tem um ousado projeto: fundar um movimento da arte de representação. Sai-se bem na montagem de Senhorita Júlia, de Strindberg, mas é vencido com As criadas, de Genet. As atrizes se rebelam contra sua direção. Não enquanto atrizes: como personagens. E, mais uma vez, de Pirandello a Woody – A rosa púrpura do Cairo – Allen, passando pelas inumeráveis histórias em quadrinhos, as personagens enfrentam o seu criador.

       A obra criada grita por sua autonomia.

       Leon reconhece sua incapacidade: "Não tenho doutrina, teoria, visão de uma arte teatral", e quer recuar. Rumo à casa do pai – um porto seguro. Mas, sufocante.

       Resta a rua e seu fascínio.

       Mais que a rua: a floresta que há no final dela.

       Assim como a força das personagens vence a resistência do diretor de teatro, o romance de Botho Strauss desafia a inteligência do leitor. À lógica o autor propõe a fantasia. Ao consciente, os arquétipos insondáveis do inconsciente. Ao raciocínio linear, a reflexão fragmentária.

       Por isso o leitor não deve incomodar-se quando o chão lhe fugir aos pés – à semelhança do que acontece com a vendedora de pedras preciosas, que acorda com a cama a balançar solta no espaço por entre os edifícios.

       Tudo é possível. Da procissão comandada pelo "Rei dos Pedreiros", bêbado, e seguida por cozinheiros, físicos, faxineiros, processadores de dados, motoristas de ônibus, modelos fotográficos ao enterro do "Pior dos Alemães" ao qual acorrem o Capitalismo, o Marxismo, o Mestre Progresso, Orgulho Nacional, os Superinformados, os Idiotas Intelectuais, etc. Sem contar o "Cabeça dos Alemães", ser híbrido de Carpa e Homem (do Homem, apenas a cabeça) movendo-se dentro de um aquário.

       Ou os syks, habitantes de uma reserva ecológica a 25 km de Colônia, livres do trabalho e da luta pela sobrevivência. Amantes das relações lúdicas, para os quais "a combinação valia mais que a inovação" e a lógica do progresso era substituída pela fantasia unificadora.

       Pacíficos, os syks, sem enfrentamentos com o Estado, a Natureza ou qualquer coisa, cultivavam a fábula e incentivavam a fantasia. Para eles todo o saber é feminino e, contrariamente ao princípio judaico-cristão, "o ser humano não é a coroação da Criação, mas o primeiro passo no caminho infinito do Universo".

       Não é por menos que o narrador passa dias e noites entre os syks. Com eles está a morada do ser e da palavra. Das personagens e do narrador.

       Quando é obrigado a deixar esta comunidade e está entre amigos da cidade (como Reppenfries, Almut, Yossica, Paula Dagmar), Leon sabe que "quem jamais amou direito a mulher certa quererá amar a todas". Segue-se um belíssimo diálogo sobre o Amor. O Banquete, de Platão, é revisitado sob o olhar da contemporaneidade.

       Por fim, se a angústia de Almut avança com a tesoura contra uma tela de Morris Louis danificando-a e se Alfred Weigert se transforma em Ossia, um personagem que ele próprio criou para o cinema, é que a vida e a arte, embora distintas, possuem molduras flexíveis. Tão flexíveis, que para Ossia o nome do velho amigo Leon Pracht, 15 anos depois, "soa como um personagem de Julien Green" (!).

       Ator/personagem. Personagem/ator. Personagem/personagem. A arte assume a função de instrumento decodificador da vida.

       Um homem jovem. O romance é uma aula da arte de representar. E passa a ser uma aula da arte de re(vi)ver.

       Com Botho Strauss estão atadas as duas pontas da vida: arte e representação numa sociedade pluralista e mutante.



                                                * * *


Amador Ribeiro Neto é professor de Teoria da Poesia e Literatura Comparada na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre pela USP e Doutor pela PUC-SP. Autor de Barrocidade (poesia - Landy edit.) e organizador e co-autor de Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (ensaios - Orobó Edições). E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br

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