10/01/2012 00:21:00 [31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
Por Glauco Mattoso
No capitulo anterior fiquei devendo uma fofoca sobre meu pappo com Elza Soares, tendo o Garrincha como foco. Nada a ver com o tamanho do penis do jogador, alludido na materia do UOL a proposito da biographia escripta por Ruy Castro. Meu interesse era saber da Elza algo sobre os pés do "Anjo das Pernas Tortas", titulo do soneto de Vinicius que commentei na columna que mantive no portal FRAUDE, onde collaborei antes do CAPITU e do CRONÓPIOS.
Na verdade, Elza não me contou nada que alguem ja não soubesse, mas o que eu quiz emphatizar foi a inesquecivel opportunidade de estar com ella pessoalmente, em 2001, algo que nunca havia occorrido com Caetano até então. Com este foi só agora, na Ballada Litteraria de 2011, que pude me encontrar. Quando me perguntavam si fazia tempo que eu não fallava com Caetano e eu respondia que nunca havia fallado ao vivo, ninguem acreditava. Foi necessario que Marcellino Freyre propiciasse o momento para um abbraço, a fim de que eu trocasse com Caetano algumas palavras que nos camarins de tantos shows septentistas eu jamais tivera coragem de trocar, siquer de entrar na fila da tietagem. No show do album VELÔ, em 1984, eu estava na platéa do Palace, mas nem depois de ouvir "Lingua" ao vivo ousei acotovellar-me com os tietes. De então para ca, o contacto sempre fora postal, graças à ponte feita por Augusto de Campos. Emfim, nesta Ballada tirei o atrazo do abbraço em ambos. O engraçado foi que conheci Elza ha dez annos, e ella quiz me conhecer por causa da lettra de "Lingua", emquanto eu nem conhecia Caetano. Coisas que acontecem quando um cego vive recluso e raramente cruza com gente illuminada...
Voltando ao Garrincha, o gancho futebolistico deu o thema do texto de outubro de 2002 na FRAUDE, que copio abaixo, devidamente reorthographado e aspeado entre 66 e 99, cuja transcripção acho que vale como registro do impacto em mim causado pelos eventos do anno anterior.
66Geral é o reconhecimento de que o maior merito de Vinicius de Moraes foi approximar a poesia do povo, graças às suas magistraes lettras demusica, numa aurea phase (que se extende até Chico, Caetano e Gil) em que musica popular equivalia a poesia. Hoje nem se pode dizer que a canção tem o nivel da respectiva lettra ou viceversa, mas a poesia de nivel continua existindo, donde a importancia da recuperação do soneto como genero poetico por excellencia, no qual reside justamente o segundo grande merito de Vinicius, um dos pioneiros dessa recuperação apoz o recesso modernista. Vinicius foi tão opportuno em seu momento historico que não lhe excapparam duas percepções definidoras e definitivas: uma objectiva, a do apogeu do futebol-arte; outra talvez intuitiva, da pesquisa lexica e da experimentação graphica que o concretismo levaria às ultimas consequencias. O soneto abaixo é uma obra prima desse typo de percepção: ao mesmo tempo que capta a scena com precisão photographica, revela concretamente o alcance visual da palavra "Gol": um "G" maiusculo, symbolizando o Genio de Garrincha, um "o" minusculo symbolizando a bola dominada e submissa, e um "l" minusculo symbolizando a linha, numa area sempre pequena ante a grandiosidade do craque. Vinicius é um victorioso, pois consegue, com successo, glorificar a gloria. Vejam só:
O ANJO DAS PERNAS TORTAS [composto em 1962]
A um passe de Didi, Garrincha avança Collado o couro aos pés, o olhar attento Dribbla um, dribbla dois, depois descansa Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o presentimento; elle se lança Mais rapido que o proprio pensamento Dribbla mais um, mais dois; a bola trança Feliz, entre seus pés -- um pé-de-vento!
Num só transporte a multidão contrita Em acto de morte se levanta e grita Seu unisono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e attende: -- Goooool! É pura imagem: um G que chuta um o Dentro da meta, um l. É pura dansa!
Commigo dá-se exactamente o inverso. Não em termos de merito, que estou convicto (e não convencido) de tel-o, mas em termos de percepção da miseria humana, ja que, em vez de convencido, sou vencido, ao contrario de Vinicius. Vencido pela cegueira e victima da humilhação que, desde pequeno, me fez masochista e revoltado, o que faço no soneto abaixo é glorificar o fracasso, focalizando o antiheroe do futebol, desejado por um fetichista recolhido à sua inferioridade, mas, ainda assim, inconformado com a injustiça, seja ella biologica ou social. Talvez por isso Italo Moriconi incluiu o soneto na anthologia OS CEM MELHORES POEMAS BRASILEIROS DO SECULO, como testemunho de brasilidade na catharse do torcedor que somma sua desgraça à de milhões de outros felizes infelizes. Vejam só:
SONETO FUTEBOLISTICO [composto em 1999]
Machismo é futebol e amor aos pés. São machos adorando pés de macho, e nesse mundo magico me acho em meio aos fans de algum camisa dez.
Invejo os massagistas dos Pelés nos ludicos momentos de relaxo, servindo-lhes de chanca e de capacho, levando a lingua alli, do chão no rez.
É logico que um cego como eu não pode convocar o titular dum time brasileiro ou europeu.
Contento-me em chupar o pollegar do pé de quem ainda não venceu siquer a mais local preliminar.
Em 2001, Elza Soares foi convidada a participar da parada do Orgulho Gay e, quando soube que eu era o auctor da lettra do "Hymno à Diversidade" (musicado por Laura Finocchiaro), thema da passeata, topou na hora e quiz me conhecer pessoalmente. Devia ser o contrario, pois era eu quem ficaria honrado em ser apresentado àquella que cantara o refrão de "Lingua", canção de Caetano onde meu nome era citado -- não pela canção em si, mas por todas as canções que Elza interpretou como ninguem e que lhe valeram a inclusão (juncto com Tina Turner) entre as maiores cantoras do seculo, segundo a BBC. O facto é que, um dia antes de desfilar no carro-chefe da parada, Elza quiz jantar commigo. Os organizadores do evento me ligaram e passaram o phone à diva. Refeito da surpresa de ouvil-a me chamando, fomos em grupo a um restaurante, onde aquella mulher maravilhosa até me serviu sopa na boquinha. Claro que rolou muito pappo viajante (typo trazer a Tina p`ra proxima parada), mas o que não perdi foi a chance de saber da propria Elza como eram os pés do Garrincha e o que ella fazia com elles. Claro que a musa me contou tudo, até o formato das unhas que cortava e da sola que beijava antes e depois de lavar, e era ella quem lavava, claro. Affinal, era ella quem cantava, em "Si acaso você chegasse", que a mulher do malandro lavava-lhe a roupa de dia e beijava-lhe a bocca à noite, e assim iam vivendo de amor.
Nem todas as cantoras teem mystica como a de Elza, mas a MPB tem, com certeza, muito mais boas cantoras que bons cantores. Foi pensando nisso que fiz o soneto abaixo, especie de tributo collectivo. A Elza fico devendo, mais que poemas, magicas vibrações que um dia porei em palavras.99
SONETO AMPLIFICADO [composto em 2002]
Chiquinha abriu as alas femininas. As duas Aracys teem cor de Rosa. A Carmen, charme, fama fora goza. A Dalva do adulterio abre as cortinas.
As Elzas e Elizeths são divinas. Cauby soube como Angela é famosa. Izaura é paulistana pela prosa. São Paulo é da Ignezita nas esquinas.
Maysa e Nora Ney bossam a fossa. Dolores dura a dor do amor confesso. Elis diz como a lucta é coisa nossa.
Da Ritta e da Celly samba não peço. Ro Ro, Gal e Bethania teem voz grossa... Mas tu, Maria, calas teu successo.
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[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]
Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br