Café Literário Cronópios

A alma do ser humano revelada na pintura da Terra de Vera Cruz
por Jorge Sanglard





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
02/03/2012 10:36:00 
[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo


Por Glauco Mattoso


Depois do proprio Homero, considera-se que o maior poeta cego tenha sido John Milton (1608 1674), que ficou cego em 1652, de quem recreei um soneto (meu numero 1059, de 2006), por signal petrarchiano e não shakespeareano (um dos vinte e quattro delle nesse molde, que reflectem a influencia recebida do foco renascentista), allusivo à cegueira como vontade divina. Era de se esperar que thematizasse a perda da visão por essa perspectiva, em tempos de puritanismo christão, e que procurasse na Biblia os modelos a serem retrabalhados, como o de Sansão, trahido por Dalilah e cegado pelos philisteus. Milton retractou-o na tragedia que chamou de "Agonista" (1671), na qual colloca o heroe judeu já prisioneiro e escravizado, portanto fraco e indefeso, à mercê de seus captores.

Ora, um dos paradigmas mythologicos que mais me fascinam é justamente a historia de Sansão, não só pela symbologia do perdedor, cuja força se anniquila simultaneamente à falta da visão, mas principalmente pela imagem do inimigo capturado e exposto ao vingativo sadismo de seus carcereiros. Occorre que a fonte biblica dedica pouquissimas palavras à narração das aggressões e humilhações soffridas por Sansão no captiveiro: para os judeus, elle foi um heroe, cujo martyrio só serve de pretexto à resistencia contra a dominação "extrangeira" na Palestina. Para os pagãos, outrosim, o que costuma interessar é o erotismo que envolve seu romance com a sensual Dalilah. Para mim, ao contrario, interessa o aspecto sadomasochista de seu martyrio.

Compuz sonetos avulsos em torno do sansonismo, mas minha intenção sempre foi emprehender obra mais extensa e detalhada, abordando as scenas de abuso sexual que jamais poderiam ser exhibidas na maior das versões cinematographicas: a de Cecil B. De Mille (1949), que, obviamente, se deteve mais no appello erotico do casal de actores que no tempero morbido da agonia na cegueira. Caberia a mim reinventar pormenorizadamente as scenas abusivas, restando apenas conferir até que poncto Milton teria chegado, ao explicitar a situação do prisioneiro, uma vez que o poeta britannico jamais passaria da agonia à putaria, elle que seria a unica fonte litteraria a priorizar o periodo de "inferioridade" do heroe.

Na versão miltoniana, os versos são brancos e livres (reparem no inglez archaico), com poucas passagens directamente suggestivas do sadismo dos philisteus, a exemplo desta, na qual Sansão lamenta comsigo mesmo a desgraça em que se metteu, a sepultura que cavou para si, e se pergunta que prazer podem ter seus inimigos ao contemplarem a afflicção dum cego
escravizado:

My self, my Sepulcher, a moving Grave,
Buried, yet not exempt
By priviledge of death and burial
From worst of other evils, pains and wrongs,
But made hereby obnoxious more
To all the miseries of life,
Life in captivity
Among inhuman foes.
But who are these? For with joint pace I hear
The tread of many feet stearing this way;
Perhaps my enemies who come to stare
At my affliction, and perhaps to insult,
Thir daily practice to afflict me more.

Ou desta, na qual Sansão se recusa a admittir, frente ao interlocutor, que servirá como palhaço perante o publico philisteu, e que sua cegueira será motivo de diversão collectiva:

Have they not Sword-players, and ev'ry sort
Of Gymnic Artists, Wrestlers, Riders, Runners,
Juglers and Dancers, Antics, Mummers, Mimics,
But they must pick me out with shackles tir'd,
And over-labour'd at thir publick Mill,
To make them sport with blind activity?
Do they not seek occasion of new quarrels
On my refusal to distress me more,
Or make a game of my calamities?

Na minha versão, os sonetos teem estrophação differente da habitual petrarchiana ou shakespeareana: divido cada um em uma decima e um quartetto. Totalizando sessenta, taes sonetos formam o cyclo "São Sansão, Sancta Dalilah", incluido no livro O POETA PECCAMINOSO, que acaba de sahir pelo sello Lumme. Aproveito para fazer meu commercial: o livro pode ser pedido via email (vendas@lummeeditor.com) ou nas "melhores casas do ramo", typo Livraria Cultura, Livraria da Imprensa Official, Susan Bach, Livraria da Travessa, Livraria da Villa, Scriptum e outras.

Emquanto os leitores interessados não verificam a quaes sacanagens submetto o poderoso guerreiro biblico, mostro aqui dois dos sonetos anteriores e deixo registrado o meu respeito pela obra de Milton, que fez o que lhe era possivel e conveniente em seu tempo.


SONETO DA TRADIÇÃO ORAL [#1112]

Sansão, tão forte e heroico, reduzido
a besta de tracção, virou motivo
de riso até às creanças e, captivo,
mostrou que usar um cego é divertido.

Soffrendo o açoite, ouvindo só o ruido
das vozes em redor, seu primitivo
exemplo é como o meu, que hoje me privo
da imagem, soffro, escuto e não revido.

Um macho faz de mim servo e palhaço:
nas pregas do seu cu meus labios grudo;
nas solas de seus pés a lingua passo.

Seu penis me usa a bocca e engulo tudo,
sabendo que elle, sadico e devasso,
vae, para me açoitar, ver-me desnudo.



COLLEGAS ÀS CEGAS [#4525]

Um gancho, um amarrilho, uma presilha;
a mascara, a colleira, a algema, a venda...
É logico suppor que nada entenda
do emprego disso o publico "baunilha".

Dum sadico jamais se desvencilha
quem entre nesse circulo e se prenda
a tudo que machuque, aggrida, offenda
os ethicos conceitos da familia.

A Dona, a Mestra, a Mistress, a Rainha;
A "sub", a gueixa, a escrava, a serva, a ancilla:
nenhuma quer ter sorte egual à minha...

No clube, um cego serve e nem vacilla:
emquanto um macho sadico o espezinha,
Sansão se sente, aos pés duma Dalilah.



                                                * * *

[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]


Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br



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