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17/11/2005 02:33:00 
O diabo a quatro


Por Caetano Waldrigues Galindo






Falei dia desses que ia falar do diabo. Do Dianho. Do Capiroto. Do Sem-Nome.

O dicionário Houaiss registra 137 nomes do diabo.

Guimarães Rosa, como todo mundo sabe, divertiu-se compilando sua própria enciclopédia diabólica.

(Inter-S: dizem no mundo editorial que o santo padroeiro da tipografia é o Diabo. Pois bem, hora boa de fazer erratas. No texto passado saiu lá um século XIX onde deveria ser XI. Alguém há de ter estranhado o cantochão em apogeu no romantismo... e no retrasado um leitor bacana apontou que eu escrevi mal jogador ao invés de mau jogador. A explicação para isso é que eu sou bocó mesmo.)

É claro que todos aqueles tabus existentes em relação ao nome de Deus se manifestam ainda mais violentamente no caso do Cujo. Um dos muitos princípios das crenças religiosas/supersticiosas é que nomear é presentificar. Daí as invocações, as palavras mágicas, as rezas-brabas onde o poder do mágico com freqüência é apenas conhecer o nome.

Roma, dizem as lendas, teria um nome secreto que não era divulgado. Guerreiros em diversas culturas se apropriam do nome do inimigo morto, incorporando assim suas qualidades. Canibalismo lingüístico. Em muitos relatos míticos o grande rito-de-passagem já é marcado pela mudança de nome. Israel nasce depois de derrotar o anjo, Pedro surge quando vira fundação.

Os nomes são coisas muito poderosas e muito perigosas.

Eu, que tenho sangue charrua, ainda fico desconfortado quando vendedores, balconistas e congêneres perguntam meu nome e querem usá-lo. “Senhor Você”, meu amigo! Ainda tenho um interesse por aqueles costumes dos índios do Norte de não dizer o nome de fato, apenas oferecer uma “marca de fantasia”.. Minha avó, que morreu de câncer, chamava a doença de ferida-braba. E muita gente ainda hesita em dizer essa palavra em voz alta em um restaurante.

Tabu.

Interdição.

Imagine o Pedro-Botelho!

O sumo mal ninguém quer por perto, e enunciar o verdadeiro nome do Mofino é um poder que nem todo mundo quer ter. O processo foi tão bem desenvolvido que, hoje, o que a gente pode perguntar é “existe um verdadeiro nome do Guedelha?”

Os que tem mais pedigree, afinal, nem sempre estarão mais próximos do Fioto do que uma metáfora está de uma entidade qualquer.

Lúcifer, como muita gente sabe, ou soube, vem do latim “portador da luz”. A designação originalmente pertencia a Vênus, a estrela-d’alva. É com esse sentido, por exemplo, que ela aparece no mais famoso poema romeno: Luceafãr, de Mihai Eminescu. Por uma migração que se beneficia da demonização das divindades pagãs bem como do relato apócrifo da queda do demônio e de seu antigo papel como anjo da predileção de Deus, em torno do século XV a forma passa a se referir, metaforicamente, portanto, ao Fute.

É com base, aparentemente, nessa mesma simetria de ordens celestes e infernais que se pode explicar o inglês Devil, provavelmente proveniente da raiz indo-européia Deva: anjo.

Satanás, bem como seu irmão menor, Satã, provém de uma palavra hebraica, com o sentido original de “trapaceiro, inimigo, aquele que arma ciladas”. Ou seja, mais uma descrição tangencial, da mesma e precisa natureza de, digamos, Coisa-Ruim. Longe de apontar, a palavra novamente descreve um atributo.

Belzebu chegou ao latim via grego, ao grego vindo do hebraico, novamente. Significa literalmente senhor das moscas. A palavra ilustra mais um fato interessante e comum ao progresso de diversas religiões: a demonização de divindades estrangeiras. Belzebu era um deus dos amaldiçoados filisteus.

Assim como Asmodeu, divindade mazdeísta.

 

E nem a pasta do indivíduo tem um nome claro!

Afinal, o grego dáimon, donde vem o nosso demônio, significava meramente espírito. O que é nada mais que o supra-sumo do contorno, chamar o diabo de espírito. Convenhamos. Esprito, diria o Chico Bento.

Diabo há de servir.

Mas não, o grego diábolos significava apenas “o que causa medo, o que calunia, o que gera desunião”. Nada necessariamente religioso, muito menos diabólico. É curioso ver como, também no domínio do verbo, quanto mais nos aproximamos das questões centrais religiosas, mais percebemos que elas foram tomadas dos domínios mais prosaicos e imediatos: o medo do escuro, o medo do trovão, o pasmo diante da imensidão; moscas, medo, medo, medo.

(James Joyce morria de medo de trovão. Certa vez um anfitrião riu ao ver o maior escritor do mundo encolhido debaixo da mesa de jantar durante uma tempestade, ao que ele contestou: você não foi criado na Irlanda católica.)

 

Mas a palavra não tem uma história assepticamente desvinculada do que com ela se faz. Ora bolas. Diabo, a princípio, podia ser uma noite escura, um dia de vento, ou um buraco fundo, mas passou a ser a contraparte da divindade, o príncipe das trevas, e mesmo a tal palavra cotidiana e singela, empregada, em alguma medida, precisamente para evitar o valor terrível da esfera religiosa, passa a se ver banhada de medo e, conseqüentemente, de tabu. Daí as deformações fonéticas que objetivam, agora, tocar tangencialmente a mesma forma verbal, ela mesma inspiradora de tanto terror e devoção quanto a entidade que a princípio deveria designar. Estamos de volta lá no começo. A palavra É a coisa.

Poderíamos escolher chamar o Dito de mesa. Em breve Mesa daria medo. O tabu vaza. Contagia.

Daí Diacho, Dianho, Diale... Apelidos. Se antes evitávamos o significado, contornando o medo via metáfora, agora, ainda mais primitivos, desviamos a mera cadeia fonética, a seqüência de sons que concretiza a metáfora ou o eufemismo prévios. Evitamos tocar a tampa do vaso em que encerramos nosso medo.

 

Engraçado ver palavras se revestindo de tanto poder.

E os escritores não poderiam deixar de ver o quanto isso tinha de interesse. John Milton, maluco por ordem tanto quanto Dante, inventou toda uma hierarquia do mundo lá-de-baixo (Nota de-passagem: inferno quer dizer apenas isso em latim: inferior: o contrário de superno.). Apelou portanto para dezenas de nomes de divindades trevosas hebraicas e botou todo mundo no lugar em seu Paraíso perdido. Todos aqueles lá de cima (no texto... no texto...) mais ainda uns como Moloch (um antigo deus dos canaanitas) e Mamon (palavra que provém do hebraico para riqueza, num twist tipicamente neotestamentário e pré-Reforma).

Goethe recebe a fama de ter criado em seu Fausto o nome Mefistófeles, que, contudo, já aparecia como Mefastófilis na peça de Christopher Marlowe, A trágica história do doutor Fausto.

Não se sabe o significado ou a origem do nome. Acredita-se que ele tenha sido cunhado pelo autor da crônica alemã que divulgou os feitos do quase-mítico Georg Faust.

Crônica de autor anônimo que, contudo criou mais um nome para O-De-Muitos-Nomes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Caetano Waldrigues Galindo é professor de lingüística histórica na Universidade Federal do Paraná. Já publicou traduções do romeno (Lucian Blaga) e do inglês (Djuna Barnes. No prelo: Saul Bellow e Charles Darwin). É o pierremenárdico autor de uma tradução inédita do Ulysses, de James Joyce. Com Luís Bueno, seu amigo-quase-irmão-de-mãe-diferente, completou a primeira tradução em versos do Fausto de Marlowe, que ninguém ainda quis publicar. Contato: olapaonahileia@hotmail.com

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