Aqui vai mais um conto juvenil e antigo, um daqueles, escrito por mim antes dos 14 anos, enfeixado num livro ainda não impresso num volume gráfico chamado de "Solário" e que pretendo publicar na íntegra neste Cronópios. Este A Foca me parece, relido por mim, seu autor, depois de exatos 42 anos,ainda mesmo agora, um brevestranho exercício gráfico narrativo, ainda hoje experimental,um experimento mental. Tem algo de Kafka, que eu lia muito na época, nas traduções de Torrieri Guimarães. E de noveau roman, uma das minhas intensas manias literárias também desse aquele tempo. Mas as praias meio próximas da minha casa, o mar trazendo sempre com suas marés de verdes distantes moventes seres e coisas novas do infinito, que eu desde a infância já fora tocado por suas águas também narrativas, se intromete imenso como um nova mente me trazendo o sol para dentro com suas mensagens sem fim. É por este sol nordestino que também misteriosamente estão tocadas de amarelo branco as páginas datilografadas na minha velha e desmaterializada máquina de escrever Underwood. Dessa vez o que o leitor de Cronópios verá escaneadas serão as páginas em cópias em papel carbono dos originais. Este livro eu todo o escrevi, ou copiei, dos manuscritos expandidos sobre minhas prediletas folhas de papel almaço na Underwood pousada numa pequena mesa de madeira um pouco apenas maior do que um tamborete, que ficava na altura dos meus joelhos. Ouvindo a música invisível da atmosfera daqueles dias que em algum instante do cosmos os encontrarei em sua curva de volta...
A FOCA
O escritor embrenhara-se numa multidão de ideias originais e metafóricas. Coisas como mágoas escondidas no cofre dos dentes. Coisas como sombras morrendo e se contorcendo em lusco-fuscos variáveis no limite do negro e do branco do sol. Sim, porque existem amarelos brancos. O sol é o principal representante dessa tonalidade. Que o sol oculta através de uma parede de ouro seu miolo. Que o branco se amontoa e forma o miolo de espessura variável. Digamos que eu acompanhe o fluxo do vento, imaginava o escritor, e que através de suas articulações-caminhos siga até um ponto pré-fixado. Em mim. Velha estória essa que há anos trazia consigo. Seus parentes e amigos brincavam com ele, que embora ele não contasse nada a ninguém de sua nova e mais velha estória, bom que eles achavam que ele estava com uma fisionomia e um porte meio flutuantes, meio ocos. Dentro de si, preenchendo o corpo nas três dimensões a estória ou sua densidade. Bem que tinham razão. Trazia ideias, as transportava nas ruas, no carro. Durante certo tempo sentiu-as transparentes. Imaginava o trajeto, seu trajeto, o próprio vulto muito claro singrando a aparência lógica da cidade. Suas ideias, que eram ele mesmo, deixando rastos, com a espessura e o movimento do corpo. Seu corpo se desfiando numa tira de cores e imagens. Silêncio e digamos, continuava a imaginar o escritor,que eu fixe residência nesse ponto do ar, e que me congele na brisa e observe uma cena entre as muitas que crio e possuo. Do alto desse ponto aéreo observa-se um mar, ondas, distorcentes e alvas, grande e longa quantidade de espaço disponível para um acontecimento de qualquer cor. Devo não mover os olhos. Cabeça imóvel a escutar... Observa-se, cria-se o azul e a praia, imensa, paralela ao côncavo do céu. Algumas pessoas. Posso imaginar uma família de classe média que saiu de casa para veranear num domingo. Certo, muito lógico. E qual não foi o espanto dessa família quando na praia não encontrou ninguém. O pai marcara encontros. A mãe, masoquistamente espera proteger e cuidar dos filhos no meio de uma floresta de gente. Mas nada. Nada do imaginado se concretiza. Nada do imaginado se concretiza. Frase de efeito, imagina o escritor.
Cria-se a cena, o episódio irradia-se do ponto no ar. O sol é também um ponto, ilumina a cena. É como o elemento que imprime contato e expansão ao movimento. O escritor imagina a foca. Uma bandeja ou uma canoa de gelo surgida do mar,como se saísse da fôrma. A foca empina o nariz. Não está assustada. Imóvel, em silêncio deixa-se levar até uma zona da praia que as águas não molham. O olhar Nº1 atira-se rapidamente, prende com segurança a foca. O olhar Nº2 e o olhar Nº3 ajudam o olhar Nº1 a manter a foca confinada num pequeno círculo. O olhar Nº1, ainda assustado contempla a forma negra que tem entre as mãos. O olhar Nº3 brinca em tôrno da foca. O olhar Nº2 observa tranquilamente a foca. O olhar Nº3 agora permanece imóvel. O olhar Nº3 fixa-se no olhar Nº1. A condescendência recíproca imodifica a cena. A foca é agarrada. Tem-se uma coleira. É arrastada carinhosamente e com uma docilidade misteriosa desliza, rola e mancha-se de areia. De longa distância eu observo e posso criar a cena. De longa distância posso observar as cinco pessoas e seis,se contássemos a foca. Estão impressionados com o achado. Um tesouro imprevisto, surgido do mar. Um tesouro que fornece felicidade e otimismo aos olhares 1,2,3. De longa distância, quando se observa pequenos pontos trafegando em grandes áreas, tem-se noção da importância do insignificante. Daqui do alto eles fazem curvas,contornam-se, saltam mas não saem do chão. O menor ponto que se arrasta, parece o maior, ou senão, o mais pesado. Os outros cinco deslizam sem prejudicar a paisagem,sem turbilhonar as cores ou o ar e assim não modificando a posição do sol, a intensidade do mar e o pré estabelecido. O escritor, de sua janela marítima, microscopicamente observa a cena. Imagina se os pontos fossem maiores ,os distúrbios e as confusões ambientais que iriam ocasionar, o desajuste temático de toda a estrutura mental e figurativa da cena. A foca expõe ruídos guturais e os planta como hastes no meio da cena. O olhar Nº3 reparte-se pulsando ao lado da foca. A foca pouco à pouco está nos braços de um olhar. Descansa. A indiferença da foca para com o mundo, para com os três olhares é incompreensível. Nunca vira seres assim. Nunca tocara em ninguém daquele mundo. Jamais ouvira passos, gestos, movimentos e cores daquele tipo. E não estranhava o percurso até o carro. Absorvia-o com os olhos estúpidos numa sucção invisível. O carro percorre as ruas em grande velocidade. O olhar Nº2 reclama e quer voltar para buscar a bandeja de gelo esquecida na praia. Os outros, ao contrário, desaprovam a ideia. A foca não morre, mas está sonolenta. Não quer olhar para as coisas que passam pelo carro. Nunca movera-se assim tão facilmente. Que o país estranho, de frio, de onde viera e certamente nascera devia ser muito triste. Seus habitantes, e o único era a foca, traziam de lá aquela tristeza e a carregavam na pele e em si. O escritor é obrigado do ponto fixo em que flutua a imaginar o que acontece fora da amplitude de sua onisciência limitada. Imagina a foca cada mais vista com curiosidade. Cada vez mais examinada. Cada vez mais fotografada para sempre. Cada vez mais presenciada.
A foca é um produto das leis francas do acaso. A foca, segundo imaginam os três olhares, por mais que seja sentida continuará subterrânea, glacial. Será vendida a um zoológico? Trabalhará num circo? Tocará piano? Ou permanecerá inútil? A chegada em casa. A foca não está morta mas as aparências enganam. Um grito de ferrugem e angústia sai de dentro da foca. Aquele novo mundo lhe chega aos pedaços, sofregamente. Concluída a estória o escritor fecha os olhos e a contempla.
Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado em literatura espanhola na Universidade de Yale (não concluido). Editor de inúmeras publicações literárias tais como a revista o Saco Cultural, a revista Cadernos Rioarte, o jornal Letras&Artes (prêmio da APCA para melhor divulgação cultural do país em 1990), a revista triangular Arraia Pajéurbe. Correpondente da revista espanhola El Passeante no Rio de Janeiro. Publicou os romances A Cachoeira das Eras, A Coluna da Clara Sarabanda (editora Moderna, 1979), Além Jericoacoara, o observador do Litoral (Nação Cariri editora,1982), Pedaços da História Mais Longe, 1997, com prefácio de José J.Veiga e apresentação de Braúlio Tavares (editora Impressões do Brasil, 1997), Maria do Monte, O romance inédito de Jorge Amado (Tear da memória editora, 2008). Ver a versão eletrônica aqui no Cronópios nesta mesma coluna Constelação de Saliva do mesmo "livro" com o título O romance inédito e esquecido de Jorge Amado na voz da velha e negra senhora, os livros de contos Ofos (Nação Cariri,1984), O romance que explodiu (editora da Universidade Federal do Ceará, 2006, com orelha de Uilcon Pereira). O livro ensaístico Virgilio Varzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (cooedição da Editora da Fundação Cultural de Santa Catarina e da Universidade Federal do Ceará, 2002). Tem ainda inéditos os livros Culinária Venusiana (poesia), Delta do rio suspenso (ensaios), A outra forma da Ilha (contos fantásticos), Teatro submerso (dramaturgia para o fundo do mar), Solário (contos infantis) de onde vem também o texto acima. E-mail: carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br
Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Carlos Emílio C. Lima no Cronópios.