Café Literário Cronópios

Videocast com o poeta mineiro Jovino Machado
por Portal Cronópios





 
Coluna:
UM OUTRO EXERCÍCIO ESTÉTICO
José Aloise Bahia


Texturas breves
por José Aloise Bahia




Imagem mínima 3
por José Aloise Bahia




Grito singular
por José Aloise Bahia




Para Wislawa Szymborska
por José Aloise Bahia




SÉRIE LABIRINTITE: homenagem ao Chico Alvim
por José Aloise Bahia




Luiz Zerbini: contemporâneo
por José Aloise Bahia




Fruto da revolta
por José Aloise Bahia




O modernismo de J. Carlos
por José Aloise Bahia




Exposição virtual: Hogenério, Universo Pop
por José Aloise Bahia




Fragmentação e Montagem
por José Aloise Bahia




A photo
por José Aloise Bahia




O homem visível
por José Aloise Bahia




Entrevista-Ilustrada: Pedro Maciel
por José Aloise Bahia




Precariedades
por José Aloise Bahia




12 livros de 2009
por José Aloise Bahia







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
04/02/2013 14:25:00 
Texturas breves


Por José Aloise Bahia



Gabriela Rangel | Flor de cedro | Grafite e vinílica sobre tela | 85x76 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2001

Gabriela Rangel segue os passos do pai, o grande artista plástico Nello Nuno (1939-1975), porém noutra direção, na qual forma e conteúdo são rearranjos de um arriscado ritual não geométrico, não esgotado num primeiro olhar. A densidade dos signos contaminados informa à lucidez a necessidade estética, testemunha de um conjunto de ideias narrativas, construindo o espaço com aquilo que falta. E aquilo que falta é a pergunta fundamental sobre a dimensão fértil da relação da figuração redistribuída embaralhando as referências. Um balanço raspando a tela procede, corajosamente, sobre a escolha da expressão e técnica, antípoda de qualquer modelo, componentes essenciais e constituídos na complexa investigação. Trata-se de abrir e fechar os olhos incessantemente, com piscadas distintas por um álbum de aproximações das mãos e pés na fronteira movediça do gesto, juntando pedaços de um inventário de aparições encobertas pelos cortes, sobressaindo-se o lirismo da flor branca no fundo telúrico, em contraponto à outra preta na vertical. Os recortes na tela são traços que remetem à reflexão de Maurice Blanchot: “Além de cada momento da linguagem poder se tornar ambíguo e dizer coisa diversa do que diz, o sentido geral da linguagem é incerto, não sabemos se ela expressa ou se representa, se é uma coisa ou se significa; se ela está ali para ser vista: se é transparente por causa do pouco sentido do que diz ou clara pela exatidão com o que diz, obscura porque diz demais, opaca por que nada diz”. Todavia, a questão da figuração na obra de Gabriela Rangel não se fecha simplesmente na forma, conteúdo, falta, exatidão ou sinais camuflados, representação ou a mera procura de sentidos. Abre-se no caminho da linguagem consistente aquilo que acena aos espectadores, a transfiguração de uma passagem que leva a construção do imaginário...




Fumaça do prisioneiro | Antonio Dias | Óleo e látex sobre madeira | 120,6x93,3x6,8 cm
Coleção MAC/USP | São Paulo | SP | Brasil | 1964


A TARDE

imagem reflete, em trechos
que lembra a vida de volta
com o vermelho desejo, antes da lua
chegar






Orientações (detalhe) | Rafael Perpétuo | Nanquim sobre papel
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2007


REVERSO

um chapéu sem plumas
desmancha no ar

até o revólver tem o seu reverso
sob o compasso da tinta

o que range os dentes são as cores perdidas no horizonte





Deuses e mitos | Inimá de Paula | Xilogravura | Tiragem especial 13/16 | 29x21 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 1983

Inimá de Paula (1918-1999) não ficou somente naquilo que alguns críticos observam como uma revisita aos mestres fauvistas e suas vibrações de cores, que destravam as paisagens e os motivos dos lugares. Podemos observar na pintura de Inimá de Paula a vitalidade da pincelada não retorcendo e lambuzando em demasia as formas, nem inflamando a contragosto os efeitos das tonalidades. O trabalho meticuloso determina o rigor da consciência, transpassa o abstracionismo lírico, não abandona a estrutura, e sustenta o movimento fluente mesmo na xilogravura. Não rebusca, revaloriza a figuração num desenho vigoroso, intenso e significativo. Prefere, como em seus quadros, os primeiros planos na frontalidade que despe as sutilezas gráficas com linhas aparentemente simplificadas. Transborda o céu com uma flecha afiada a percepção visual do homem na condição que acentua “o traço, qualquer traço inscrito numa folha, denega o corpo importante, o corpo carnudo, o corpo humoral; o traço não dá acesso nem à pele nem às mucosas, o que ele diz, é o corpo na medida em que ele arranha, aflora (pode-se mesmo dizer: faz cócegas); pelo traço, a arte desloca-se; a sua sede já não é o objeto do desejo, mas o sujeito desse objeto: o traço, por mais fino, ligeiro ou incerto que seja, remete sempre para uma força, para uma direção; é um energón, um trabalho que dá a ler o traço da sua pulsão e do seu gasto. O traço é uma ação visível.”, na percepção sutil de Roland Barthes, ao destrinchar a visibilidade. Deuses e mitos são incisões na madeira com uma proposta que perpassa o pensamento soprando pela terra, que olha, para, e repara com ânimo à ressonância de uma possibilidade cortante, transformadora, com luz na transcendência...





Sem título | Fernando Pacheco | Série Animais Domésticos | Óleo e grafite sobre cartão com cortes | 38x56 cm. Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2002


ANIMAL DOMÉSTICO I

o pássaro
o canto
o quarto
o espelho
a máquina de lavar
pra preparar
teu corpo

desce a calcinha preta
vai






Sem título | Fernando Pacheco | Série Animais Domésticos | Óleo e grafite sobre cartão com cortes | 38x56 cm. Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2002


ANIMAL DOMÉSTICO II

Cão de guarda. Sensual.
As pernas de meias de seda. Seu desejo está ali.
Roendo por fora. A mordida na pele estica.

Mona Lisa coberta de suor é o máximo escorrendo pro chão.






Parque teatro capixaba | Rodelnégio | Óleo sobre tela galvanizada | 134x75 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | Brasil | 1999

A lembrança é um par de asas ao vento num gesto pleno de liberdade. Rodelnégio (1915-2009), saudoso e premiadíssimo, manifesta-se essencialmente pela emoção, liberdade e a tonicidade das cores, presentes numa linguagem espontânea e rejuvenescedora. O sentimento de pertencimento de mundo e o seu “religare” junto ao povo são a razão e o reconhecimento, através dos quais articula uma pintura enfatizando a cultural e o folclore. Revela-se através do universo dos acontecimentos, futebol, congadas, colheitas, procissões, danças, navegantes, boiadas e circos: o cotidiano que aflora. Pintura de apelo com forte envolvimento lúdico, reconhecimento temático e público, às vezes persistindo dois ou mais motivos em torno de uma temática, sempre em panorâmica. Não teoriza, leva-se pelo impulso criativo e a memória privilegiada. Com estilo próprio, celebra a identificação simbólica e orgulho civil que dá voz às várias classes sociais representadas. As festas e personagens são exaltadas por uma visão realista, investida de movimentos e significados triunfais, com o acréscimo de letras e breves mensagens nas telas. A repercussão interior está em consonância com a repercussão exterior, que almeja e consegue a projeção estética daquilo que existe de fato e a eficácia da sua inventividade – incorpora os dois extremos e torna fascinante o sentimento verdadeiro de brasilidade. O aceno de identificação contempla o despertar cromático popular: em ação, no ato, na presença e no destaque. Pinta o ser e o jeito brasileiro compartilhado, vivenciado, celebrado e não oficializado por qualquer tipo de interferência engajada. Uma narração fidedigna da tradição que vem do meio das pessoas, do seio da miscigenação: uma fusão de cores e formas cintilando pelo espaço. A grandeza poética de Rodelnégio é a revelação da independência, da esperança, sem preocupações com os falsos modismos e sofisticações desnecessárias; da alma coletiva que constrói a autêntica história do Brasil, fazendo ressoar no alto-falante do parque de diversão à sábia e inesquecível sentença de André Gide: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo.”...





Sem título | Amilcar de castro | Aço, corte e dobra | 54x54x12 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | Década de 1960


PARA AMILCAR

vemos curvas:
a chapa
a dobra
a hora

a rua corta
cheia de sombras

mancha o espelho
salta a janela

a luz da manhã
no centro
marcha






Ruptura (Série A Pedra da Melancolia) | Miguel Gontijo | Acrílica sobre MDF | 100x83 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2004


ULISSES

o velho acorda o cão
que sabe a chave da porta

a língua do velho na língua do cão
e tudo foi breve com pausa no curso das letras






Hélio Oiticica | Penetrável quadrado mágico: invenção da cor | Escultura
Coleção Inhotim, Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico 
Brumadinho | MG | Brasil | 1977


Qual breve comentário pra lá de pertinente sobre Hélio Oiticica (1937-1980), Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, dentre outros, devemos escrever? Não somente sobre o Neoconcretismo e seus desdobramentos, bem como os possíveis diálogos com o Cubismo Sintético dos últimos anos (+-1918/1919, os tableaux objects), até Dadá entra na história, também o Suprematismo, o Tropicalismo, a Land Art, o movimento Fluxus, John Cage, Joseph Beuys, Jasper Johns, Rauschenberg, etc. No meio de tantos nomes e movimentos de vanguardas prevalece, sem soma de dúvidas, o artista fundamental. Duchamp foi importante, porém tem outro expoente seminal. Hélio Oiticica realiza a atitude revolucionária que colocou o Brasil no mapa contemporâneo das artes plásticas (vide exposição no MOMA, Nova Iorque, EUA, 1970; também na Whitechapel, Londres, Inglaterra, 1969; os Parangolés, o penetrável Tropicália, etc.). Eis o principal, até então nada visto: agora o importante é tocar, sentir, vestir, performar e vivenciar, não mais somente admirar os objetos de arte. Um convite à invenção do espectador. O que está por fazer com participantes e não atores? Uma performance espontânea deslocando as possíveis articulações das imagens. Uma fusão e momento/movimento criativo desagregando/agregando os sentidos e as cores; operação e expansão, apontando e sinalizando o artista como o criador/mentor inicial da obra, na qual a temporalidade no espaço se dá pelo encontro e participação do observador/espectador com o objeto, formas, cores, estrutura, redimensionando os sensos estéticos. Pluridimensional, reinventando a cor projetada na espacialidade. Um choque repleto de possibilidades no rastro da imaginação coletiva naquilo que está por vir, por realizar, algo inacabado e verdadeiro, em processo, na intimidade da obra de arte como uma espécie de re-traço/re-montar/re-arranjo/re-sentido/re-significado/per-curso/trans-curso. Vale relembrar Hélio Oiticica: “Primeiríssima tentativa consciente de impor uma imagem `brasileira` no contexto de vanguarda. (...) É importante que os conceitos de ambiente, participação, experiências sensoriais, etc., não se restrinjam a soluções objetais: deverão propor o desenvolvimento de atos vitais e não mais uma representação (a ideia de arte)."...






Sem título | José Alberto Nemer | Aquarela sobre papel | 150x110 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2002


REPOUSO

Em Belo Horizonte
chuva e sol
celebram.

Da profecia.
Bebem os diários.

Ficará em pé no esquecimento:
metade da sombra adormece desacreditada.






Sonho | Roberto Magalhães | Nanquim e ecoline
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 2000


A ROTA

A canção da roda. A canção do remo.
A rota da roda. A rota do remo.

O silêncio do padre. O silêncio do papa.
O padre. A rota. O papa. A rota.

O salto do rato. O salto da bola.
Há salto. Aqui. Há salto. Ali.

Do mar da lua nasce um olhar.




Edward Hopper | Chair Car | OST | 127x101,6 cm
Coleção particular | New York | NY | USA | 1965


Falar sobre Edward Hopper (1882-1967) nos leva a citação de Degas: "É muito bom pintar tudo o que se vê, mas pintar o que ficou na memória é muito melhor,". As transposições de Hopper podem ser descritas (observação do próprio pintor) como a "morte total", que faz lembrar o simulacro total, tão bem descrito, estudado, analisado e refletido no livro América de Jean Baudrillard, na década de 1980. Aguça a matiz da memória aquilo que a solidão impera de maneira explícita: a morte da ideia original. O realismo do artista americano, seus contextos fechados na autonomia do quadro, estimula e reelabora as percepções dos observadores em torno da questão da morte total, pois, observa-se a partir da geometria, na imagem da tela acima, uma aparente calma preenchida de isolamento, nos quais se destacam artifícios e personagens "abonecados", cujos rostos desbotam nas sombras. O trato com a luz, diálogos com a fotografia e o cinema, congelam as figuras, dando uma sensação de retraimento, uma presença ausente, oximoro e simulação encharcadas de verde: um branco encardido bate à porta sem a fechadura, trazendo na bagagem as janelas e o estrondo do Modernismo. Mesmo assim, qualquer observador poderá perguntar que isolamento é este? Um tipo de (in)sensibilidade/(in)diferença que contrasta o motivo em relação às cores; o não intercâmbio do claro-escuro previamente definidos; a intervenção assinalada num palco mudo de um mundo já totalmente sem esperança, asfixiado, e padecendo da falta de comunicação; a morte da ideia original de uma civilização atormentada na sua contraditória tranquilidade. Hopper é o pintor das ilusões perdidas. Além de meras representações com status diferenciados, muito além, seus quadros sempre atuais revelam o entorpecimento e a carência do homem moderno e contemporâneo. Reelabora o real pela força da sua imaginação e memória, atravessando o tempo/espaço com uma visão pictórica tensionada pelas ideias da sociedade de consumo e uma crítica sensível sobre as cenas do cotidiano. Não tem como não concordar com Clemente Greenberg: "Hopper é, muito simplesmente, mau, mas se fosse melhor pintor, não seria provavelmente um artista tão bom."...





Asa 2 | Marcos Venuto | Técnica mista | 20x20 cm
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 1999


PAVIO II

toda cidade escuta
o estrondo: o canhão

rastilho branco
no campinho vermelho

explosiva
vibrante
naquela tarde de verão

sigo o caminho da pólvora



Sem título | Miguel Aun | Fotografia
Coleção particular | Belo Horizonte | MG | Brasil | 1989


DIANTE DENTRO

O espírito do tempo:
- Que o espaço do poema, uma operação.

- Olha para si e para nós.




                                                * * *

José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta, colecionador e crítico de artes plásticas e literatura. Estudou Economia (UFMG). Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios curtos (Belo Horizonte: Anomelivros, 2004). Primeiro lugar na Primeira Mostra de Vídeo-Poema Londrix 2012, 8º. Festival Literário de Londrina, PR, Brasil. Participa, dentre outras, das antologias O achamento de Portugal (Lisboa: Fundação Camões/Belo Horizonte: Anomelivros, 2005) e H2HORAS (São Paulo: Cronópios/Dulcinéia Catadora, 2010), dos livros Pequenos milagres e outras histórias (Belo Horizonte: Grupo Galpão, Editoras Autêntica e PUC-Minas, 2007), Folhas verdes (Belo Horizonte: Edições A Tela e o Texto, FALE/UFMG, 2008), Poemas que latem ao coração! (São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2009), Rodrigo de Souza Leão: tudo vai ficar da cor que você quiser (Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 2011) e Literatura Futebol Clube (Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2012). E-mail: josealoise@gmail.com

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