No dia 19 de dezembro de 2009, o sonho de algum tempo foi materializado: o lançamento de Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Editora Terracota, org. de Silvana Guimarães e Florbela de Itamambuca). São trinta escritoras, que há quatro anos estão no ar com seus textos, no site que leva o mesmo nome, Escritoras Suicidas, espaço onde não há questões de gênero, número ou grau, e que para além da mesmice ou do ranço dos grupos fechados, carrega o segredo e a esperteza da escuta e da escrita. Meninas e meninos. Todo mundo fica feliz quando sai uma nova edição, todo mundo vota os temas, a palavra é sempre de todas, e talvez aí esteja o mistério do “território místico e mágico”, segundo a definição de Nelson de Oliveira, que assina a orelha do livro. Repartimos o pão todos os meses, religiosamente profanas, desbocadas ou recatadas, o que vale é escrever, sem limites e com a graça humana de sermos tão literariamente e assumidamente um site de moças de todos os gêneros. Aqui dá pra conferir uma “prova” do livro, em sete poetas, só porque não cabia todo mundo, que também é só ir até www.escritorassuicidas.com.br para conferir que “elas estão vivas!” (como disse Guttemberg Guarabyra na apresentação da antologia). E os textos que o digam.
* * *
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
angélica
o pênis de angélica
era de plástico
passou a vida a esfregar-se no espelho
eis a sina
mulher ou homem
injusto desígnio
para quem precisa-se
inteiro por dentre as coxas
voz rouca sob os lençóis
desejo de iguais
porra
bocetas também são objetos de encaixe
* * *
Florbela de Itamambuca
neblina
tudo ou nada perdi com o tinhoso
vem saudade no canto da saíra
meu caminho trançado com embira
entreguei ao menino curioso
ê meu deus quanto sei do que preciso?
nessa vida aprendi que o mundo gira
negaceio um raspão na ziguizira
quexada de jumento em cão nervoso
adão escurraça deus do paraíso
cobra escorrega o corpo a língua e o guizo
perdição esconde o rosto na neblina
passarinho esvoaça essa cortina
ilumina seu corpo e meu sorriso
me leva na janela da menina
rodamoinho
antes eu conhecesse de você
mesmo sem nem você nem convidar
foi só pousar as vista e ogunhê
é quem chega quem leva quem traz mar
tiro no escuro, aí que a gente vê
se tanto fogo é palha ou tronco ipê
olho dágua na encruza do lugar
borbulha o rodamoinho no luar
se for perder nas onda de quem ama
vira prum lado vira pro outro lado
firma nessa canoa, o fundo chama
entre o mar entre a mata tá encantado
se cruza o pé na brasa não reclama
o que é do meu caminho tá guardado
* * *
Jane Sprenger Bodnar
instalação
não importa
quero aberta a janela
perigo não há
já me assaltaram tantos sonhos
leve tudo
deixe apenas a luz do sol
grudada na parede
grafitando
o nome das horas
casa
nossa casa é o melhor lugar do mundo
e por não estarmos sós no universo, e por estarmos
tão sós no universo, busco o melhor do mundo
em outras histórias.
mesmo no desconcerto, entre o cheiro de lençóis alheios,
um sofá antigo, único habitante de uma enorme sala vazia.
a vida, vem de uma maçã,
que mora há dois dias numa bolsa e logo mais será um beijo.
a insônia aposta com a madrugada
quem ouvirá primeiro o despertador.
* * *
Líria Porto
no muro das lamentações
chorei todos os rios
depois chorei os mares e oceanos
chorei todas as lágrimas das viúvas
todas as chuvas
molhei lenços lençóis
e fronhas
chorei as pitangas
la bella donna
os olhos são noites
o cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
os seios auroras
o tempo advoga
a seu favor
* * *
Márcia Maia
tocata
sob os lençóis azuis
a nudez do corpo expande
a solidão da casa
um cheiro de cio
se desprende das paredes
o silêncio geme
o espelho desfia
kama-sutras em imagens
de amores antigos
o corpo ainda nu e
adormecido num tremor sutil
se contrai e umedece
e então de súbito amanhece
emersão
exíguoespelhoespaço
espiralerguida
entreadoreosalto
feraencravada
entreacórneaearetina
amormorrente
entreapresaeoato
alínguaodenteosangueagarra
eumtigresuspensonoolhar
* * *
Valéria Tarelho
valium
acordo cedo:
neuras indomadas
medos mal dormidos
bocejo um verso avesso
cheio de dedos
não-me-toques
tiques
mal espreguiço
vendo a alma ao vício:
acendo um café preto
requento o cigarro
[lembro que o poema
que ora escrevo
ainda nem foi ao banheiro]
acordo cedo
com o pé esquerdo
pisando nos meus calos
viúva negra
para cada boca
que me sorve
sirvo o mesmo veneno
vario
conforme o beijo
a dose de ar
cênico
* * *
Virna Teixeira
film still # 2
ensaio voyeur da câmera, arranha-céu ao fundo
tailleur, scarpins e colarinho
uma garota em apuros, o boulevard vazio
pressa dos passos ou cerco da presa?
ensaia golpes imaginários — jab, upper, cruzado
de luvas vermelhas, round livre
marilyn na musculação, halteres
polaróides
ao folhear o álbum perdido, olhando para a câmera. stills de um filme antigo
auto-retrato, jogo de aparências: atrevimento, concentração. office killer, nadadora, naïve. de
pernas cruzadas, sentada na janela
já não reconhece mais as perucas, os disfarces
as imagens se desintegram. são apenas paródias, mutilações
corpos de manequins de plástico desmembrados, disformes
*Seleção: Silvana Guimarães e Jussara Salazar
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Dedo de Moça — Uma Antologia
das Escritoras Suicidas
Editora: Terracota, 160 páginas
(consulte usando a ferramenta de busca de livros
da parceria Martins Fontes - Cronópios)
Jussara Salazar, Brasil, é poeta e artista plástica. Publicou de sua autoria os livros: Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004) e Coloraurisonoros (Buenos Aires, 2008). Publicou também sua poesia em várias revistas e antologias brasileiras e internacionais. Em 2009 recebeu a Bolsa Fundação Nacional da Artes de Literatura com o livro Cantigas da Árvore Votiva. Edita a revista eletrônica de arte e literatura Lagioconda7 (http://www.lagioconda.art.br). E-mail: jussara_salazar@yahoo.com.br