Café Literário Cronópios

Encontro com a sabedoria mapuche
por Leonardo Boff





 
Coluna:
ANARCHICO ARCHAICO
Glauco Mattoso


[44] Faxina na lixeira
por Glauco Mattoso




[43] Chicho, um vivo mimo
por Glauco Mattoso




[42] Choro de perdedor
por Glauco Mattoso




[41] O baralho encardido e o 'arame fallado'
por Glauco Mattoso




[40] Uma conclusão sobre a reclusão
por Glauco Mattoso




[39] No tempo em que eu enxergava... se fallava...
por Glauco Mattoso




[38] Um estudo sem escrupulos do estupro
por Glauco Mattoso




[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso




[36] Uma baixinha para os baixinhos
por Glauco Mattoso




[35] De bocca fechada não sae gralha
por Glauco Mattoso




[34] Dia de mentira sem ser dia da mentira
por Glauco Mattoso




[33] Sadismo e sansonismo com lyrismo
por Glauco Mattoso




[32] O melhor vidente é aquele que quer ver
por Glauco Mattoso




[31] Contactos immediatos sem grau e com lente preta
por Glauco Mattoso




[30] Tapando o cu com a peneira
por Glauco Mattoso







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
05/04/2013 17:59:00 
[44] Faxina na lixeira


Por Glauco Mattoso


Este mez completo quarenta e quattro collaborações nesta columna, sem contar as columnas anteriores a 2009, não necessariamente mensaes. Não posso deixar passar em branco a symbologia que tem para mim esse numero, por causa da noção de sapato grande. A expressão "quarenta e quattro, bico largo" dá idéa de pé chato e espalhado, o que aviva ainda mais a minha imaginação...

Mas, como estou sem imaginação para contar alguma historia nova (e os factos recentes nada teem de novo nem de prazeroso), reflecti commigo que muitos leitores podem se interessar pelo que tenho na gaveta, ou naquella pasta de archivos semideschartados do velho computador fallante. Antes que eu acabe trabalhando só no novo laptop e termine sucateando o desktop, vou recuperar alguns aponctamentos pertinentes, não só à lixeira, como à sapateira de despejo e à gaveta das meias furadas...

Vejam só as annotações que achei. Depois procurarei outras:


I - PATRIMONIO DA DESHUMANIDADE


Um amigo que mora na França me contou que, passeando pelo sul do paiz, aproveitou para visitar o castello de Lacoste, do Marquez de Sade. O castello está em ruinas, mas foi comprado por ninguem menos que Pierre Cardin, que pretende restaural-o para abril-o à visitação. Por emquanto a intenção do estylista é organizar alli um festival de musica erudita, mas commenta-se que futuramente o local será destinado a congressos internacionaes de sadomasochismo, para os quaes (segundo o tal amigo) os organizadores pretendem me convidar. Não sei si meu nome estaria mesmo na lista de convidados, mas desde ja saliento, a bem da bruxaria e da kabbala, que a palavra "Lacoste" é anagramma de "castelo", jogo que só funcciona em portuguez, ja que em francez é "château"... [janeiro de 2006]


II - SERIADO POUCO SERIO

Como não accompanho a programmação da TV, fico por fora de alguns lances podolatras escancarados. Por exemplo: só agora me contaram que está passando na Rede 21 (canal 72) um seriado que muitos americanos consideram "de mau gosto", chamado "Um amor de familia" (no original, "Married with children"). Tracta-se daquellas comedias que ja veem ridas (p`ra que o telespectador não tenha o trabalho, ou o sacrificio, de rir), cujo personagem-chave é um pae de familia do typo babaca, que ganha a vida como vendedor de sapatos. Só aqui já teriamos ingrediente prum scenario podolatra, mas a coisa não fica nisso: o cara tem uns pezões que apparecem a todo momento descalços (ao contrario da maioria dos filmes americanos, muito pudicos nessa parte do corpo), e o mais incrivel é que elle tem um chulé do cão! Isso é realmente atypico na TV americana, levando-se em conta a mania que elles teem pela asepsia e pelos productos de limpeza e hygiene pessoal. Então surgem situações absolutamente indisfarsaveis em termos de podolatria declarada, o que explica a rejeição de parte do publico ao programma: uma familia amiga se hospeda na casa do cara e, no improviso, a mulher tem que dormir perto do pé da cama onde os pezões se destaccam fedendo, e ella protesta indignada. Em outro episodio, o cara está com a mulher na cama de casal, mas inverteu a posição p`ra que uma luz da rua que vem pela janella não lhe batta na cara. Sem perceber, a mulher lhe beija o pé p`ra dar boa noite, achando que lhe beijou a face. Em outro episodio, uma vizinha cheira a meia do marido p`ra mostrar que sente saudade, mas, ao perceber que a meia fora usada pelo nosso chulepento, tosse de nojo. Em outro episodio, o cara quer ensinar o cachorro a trazer seus chinelos (que são motivo de reclamação na casa: "Por incrivel que pareça, esse chinelo consegue ser mais fedido que o pé delle!") e, p`ra que o cão apprenda, o cara fica de quattro, se abaixa e pega seu proprio sapato com a bocca, erguendo-o e mantendo-o seguro. Nesse momento alguem entra e pega o cara na posição compromettedora e com aquillo na bocca! É molle? O nome do protagonista é Al. Quero ser um mico de circo (ou um cachorro de família americana) si o productor dessa sit-com não teve a intenção de provocar os podolatras! Em tempo: o programma está indo ao ar às dez e meia da noite, aos sabbados, mas não sei por quanto tempo... [julho de 2006]


III - SHOW DE JUDIAÇÃO JUVENIL

Ando tão por fora do que rola na TV que, de vez em quando, alguem me pega de surpresa. E não é que o sadomasochismo começa finalmente a chegar à nossa telinha? Não me refiro ao horario politico, mas aos programmas de baixaria, que, depois de annos de atrazo (p`ra variar), janão ficam só nas pegadinhas, barracos conjugaes ou gynkhaninhas de torta na cara: agora o buraco é mais la embaixo. Escutei um monte de palavrão e gargalhada e fui até a sala. Akira zapeava à procura dum filme de monstro, mas só tinha a enesima reprise de "Crocodillo IV". Passando pela MTV, elle parou no "Freak Show" do João Gordo, e me chamou p`ra accompanhar. Só pelo que ouvi ja deu p`ra sentir o drama: "assumidamente ridiculo", como o proprio Gordo proclama, o espectaculo põe a molecada p`ra chafurdar pesado na sujeira, no suffoco e no esculacho. Tem carinha de cueca brigando num ringue regado a linguiça e molho, um tentando enfiar linguiça no cu do outro, e o perdedor leva na marra; outro perdedor de outra disputa suja acaba amarrado e tendo de beber mijo do proprio Gordo; outro fica preso numa canga, tendo que ouvir som alto no phone (bandas que detesta, claro), emquanto sua cueca é baixada e... E por ahi vae: moleque obrigado a se vestir de drag, ou a comer minhoca, ou a ter a bunda excaldada, ou a engolir pimenta, ou a lamber sola, ou a metter a cara no lixo, ou a ter os pellinhos do nariz arrancados com melleca e tudo... tudo na frente duma platéa de outros moleques sadicos e hystericos, debaixo dos palavrões do Gordo e assumindo, antes de participarem, o compromisso de se deixarem abusar e humilhar voluntáriamente. Alguns querem desistir no meio, mas ja é tarde. Simulação a gente sabe que sempre tem, mas pelo menos não é aquelle theatrinho mambembe das pegadinhas: a humilhação é real, ja que ha certa dose de sacrificio em publico e alguns castigos são explicitamente SM, como o "golden shower" sob o mijo do Gordo. Ninguem me confirmou si elle mija de verdade, mas a suggestão ja vale. Entre um quadro e outro, uma banda punk bem podrona detona ao vivo um som condizente com as scenas do palco. Não sei si vou ter paciencia p`ra ficar todo sabbado depois das dez na frente do apparelho, tendo que depender da boa vontade de quem queira assistir commigo p`ra me descrever os jogos e a cara de dor ou de nojo dos garotos zoados. Mas quem sabe o Gordo se aguente no ar por tempo sufficiente p`ra que a producção se anime a crear "brincadeiras" um pouquinho mais crueis e degradantes? Hem? Hem? A esperança é a ultima que morre, aos pouquinhos, lentamente torturada... [septembro de 2006]


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*Aos que se interessam pela orthographia usada por GM e querem entender
as razões para sua adopção, suggere-se visitar o blog do auctor:
http://correctororthographico.blogspot.com.br


Glauco Mattoso
(paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "VÍCIOS PERVERSOS: CONTOS ACONTECIDOS" e "POESIA DIGESTA: 1974-2004", além dos romances "MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR: AVENTURAS & LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS" e "A PLANTA DA DONZELA".
E-mail:
glaucomattoso@uol.com.br

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