01/10/2007 20:33:00
É isso aí, picho!
Por Mathilda Kóvak

Atendendo a milhares de pedidos... o.k. a centenas de pedidos... quer dizer, a algumas dúzias de pedidos... umas duas ou três súplicas, volto a este púlpito para discursar contra, porque, sim, sou do contra, como meu pensador favorito, Groucho Marx, que dizia “whatever it is I´m against it”. Ele também, quando lhe perguntaram por que insultava tanto as pessoas, ele respondeu: “porque elas merecem.” Porém, nestes tempos em que calaram até a boca do Millôr, o homem mais inteligente do Brasil, que, por sua vez, disse que não tinha mais vez, porque, segundo ele, neste paiszinho de merda não se pode falar mal nem de Paulo Coelho, a cultura do mau humor, que brindou o mundo com o wit de Dorothy Parker, Edna Ferber, Edmund Wilson, H.L. Mencken, Alexander Woolcott, Tallullah Bankhead, Pauline Kael, entre outros, abroad, e aqui nos agraciou com a mordacidade de Maria Helena Dutra, Paulo Francis, o próprio Millôr, Patrício Bisso e esta modesta escriba, em pleno climatério, que, para seu azar, coincidiu com o aquecimento global, foi simplesmente dizimada. A ditadura cultural, com seus capatazes da contracultura, conseguiu o que nenhuma censura do regime militar logrou conquistar: calar a boca dos parcos seres pensantes de nossa sociedade e banir de vez toda e qualquer vida inteligente sobre o solo pátrio. E eis-me aqui, na tentativa de reunir os cacos de minha round table e reconstituir meu Algonquin perdido, resumido, reduzido a uma só comensal, que liba a sós, em seu sótão de Anne Frank, à peçonha, com soda cáustica, como diz uma amiga minha, e solicita – para usar um jargão próprio da brurrice arrongante vernacular contemporânea: “falem de mim, mas falem mal!” Sim, porque o insulto é um elogio, e o encômio, um incômodo, nestes tempos de novilíngua, de secretárias cunilíngues, em que eu, sim, eu, pronome pessoal e intransferível, ouso pichar a parede em branco que é a cabeça da intelligentsia nacional, que não é senão um burritzia fenomenal. Sinto engulhos e pontadas no vago simpático, que, no meu caso, não simpatiza com nada, só de pensar que nossa classe ora se vê representada por Fernanda Young. Uma moça que diz “mesopotâNia”, assim com “n”, e acha que é iconoclasta. O único provável item que esta criatura muito tatuada, mas nada ilustrada, é capaz de destruir é um desses hieróglifos de computador, porque apertou um botão errado, na hora de digitar seu texto panos quentes. Parafraseando o líder do Faith No More, que comentou sobre o Sting: “é fácil defender causas com as quais todos mundo concorda”, digo: é fácil atacar instituições que todo mundo abomina. O que irrita esta moça irrita qualquer patricinha da Zona Sul do Rio de Janeiro, cidade que este mesmo rocker considerou de uma beleza brega e óbvia, cartão postal de banca de jornal. Mais uma vez, institui-se o consenso imposto pela ditadura cultural, que tem seu maior representante no Curupira e outros integrantes do folclore nacional, que ocupam a pasta de alguns ministérios do nada galopante, do óbvio ululante e do budget destinado a produções de telenovelas, que agora passam também nas big screens locais. Mas esta é, do mesmo modo, uma denúncia vazia, óbvia e manjada. E não perderei meu tempo imortal com assunto tão sem interesse. Foi apenas um desabafo de onça, numa tarde úmida, de ressaca por ingestão de leite de magnésia on the rocks e minha crônica alergia produzida por monóxido de papel carbono, um elemento tóxico muito comum nas praias cariocas.
Por sinal, hoje está um dia lindo aqui no paraíso infernal do Rio de Janeiro. Chove a cântaros, o que melhora muito o meu humor de Lily Munster. A cidade fica deserta, como se durante um ataque nuclear. Seus habitantes, em seus abrigos anti-chuva, com medo de derreter, tão pulverizados se encontram. E assim inicio minhas “Crônicas Anacrônicas”, ou, “Mahatmathilda, a líder espirituosa”, ou, como ostenta o título acima “É isso aí, picho!”, não sem antes dar uma passada no mezanino do café literário, para ver o que meus coleguinhas andam perpetrando. Antes de percorrer meus olhos hipermetrópicos e meus neurotransmissores psicotrópicos e psicotropicalistas sobre as linhas e galinhas deste periódico, lanço a pergunta: por que devemos ler os contemporâneos?! Eu, francamente, não sei. Suponho que uma obra literária só prove sua importância, passados alguns séculos, ou, ao menos, algumas décadas. Eu ainda não consegui ler toda a obra de Shakespeare, por que irei consumir meu exíguo tempo em obras menores que as do bardo de Stratfort-Upon-Avon-Chama?! Podem me acusar de passadismo, mas eu sempre li autores de outra época, porque, não me canso de dizer, detesto a vida contemporânea não importa a época em que ela se passe. Passei minha infância, entre Monteiro Lobato e Kafka. Minha adolescência, entre Thomas Mann e Marquês de Sade. Minha juventude, entre Virginia Woolf e Dorothy Parker. E Clarice Lispector, nas quatro décadas, a despeito de a mídia a ter transformado em pin up. Ela, que detestava popularidade. Minha mãe comentava, outro dia, comigo: “eu vou acabar odiando Clarice Lispector.” Ela, que foi a uma noite de autógrafos do crânio da Ucrânia, grávida deste modesto portento que ora vos fala, e recebeu sobre o ventre a mão divina da diva. Reza a lenda que é por isto que meu semblante guarda alguma semelhança com o da estrela-mor de nossa literatura. E minha paixão por ela, iniciada no útero, sobrevive às tentativas de vender cerveja nas filas que se formaram para ver sua exposição, cuja iluminação me deixou com enxaqueca durante duas semanas. A mostra, que pretendia comemorar os trinta anos do passamento de Clarice, não passou de um exibicionismo oco de artistas que se querem maiores do que a musa. Muito melhor foi a dos 15 anos de sua morte, no CCBB, aqui, pasme!, no Rio. Uma delicadeza. Todas nas cores favoritas de Lis no Peito: preto, vermelho e cinza. Também minhas prediletas. E super intimista, como a própria Clarice. Uma conversa íntima dela com ela mesma. E dos fruidores com ela. Não este holliday on Ice sombrio, povoado por um apiário de crianças, atrás de um game em que nossa escritora maior matasse seus personagens. Porém, seu avatar preferiu se suicidar, antes mesmo de ingressar no labirinto da cretinice digital. Eu digo: se isto um dia acontecer de fato, eu vou virar mass killer, coisa que quase ocorreu na minha excursão ao parque temático lispectoriano. Na primeira mostra, saí em prantos, comovida com a homenagem. Nesta, verti lágrimas de desapontamento. A humanidade está louca. E burra. Pobre Clarice. E feliz de não estar aqui para ver o que fizeram de seus misteriosos olhos oblíquos. Sobrou apenas sua inefável última entrevista, que hipnotizou a todos, a que já assisti tantas vezes que a sei de cor. Mas não me canso de rever, ainda que naquele trem fantasma, onde seu espírito oprimido asfixiou-se numa galeria de tipos humanos, que não dariam um romance sequer. Que mais gente leia Clarice pode ser bom para a Nação. Mas, para mim, que dialogo com ela em minhas madrugadas insones, foi um sacrilégio. Por que erigir igrejas, se os santos as repudiam? Fizeram antes com Jeshua Ben Josef, um judeu como Haia, digo, Clarice. E agora fazem com ela. Talvez a morte prematura dos santos seja uma antecipação voluntária, com vistas a os poupar do dissabor da massificação. Enfim, louvo a existência do museu da língua portuguesa. E acho sintomático que a flor do Lácio tenha mesmo virado peça de museu. Não dá nem pra imaginar o que Clarice faria diante de tudo isto. Ela que escrevia com uma Olivetti ao colo. Cujo coração era uma máquina de escrever. Múltiplo. E não um PC, binário!
Agora mesmo tento entrar no site para dar um giro e está fora do ar. O negócio é que o neoliberalismo criou esta slot machine para o terceiro mundo investir seus níqueis e, evidentemente, os perder. O lixo tecnológico é todo derramado aqui. Na Europa e nos EUA, só dá Mac. Ninguém quer saber deste simulacro do simulacro. PC só serve para encher os bolsos de Guilherme Portões, aquele português que se radicou no Vale do Silício, e roubou as idéias de uns nerds que brincavam de geeks nas garagens. Então, a gente fica aqui a mercê de micreiros idiotas, com sua autoridade de porteiro de edifício, que se vingam da classe média, impondo-lhe seus conhecimentos de manual traduzido e impingindo-lhe toda sorte de subprodutos que tomam tempo, dinheiro e paciência. Numa mais valia às avessas. Marx jamais poderia supor que a classe oprimida viria ser a classe média. E que a revolução menchevique é que seria verdadeiramente insurgente e necessária. A moral da classe média é, evidentemente, podre. Porém, a pequena ética, a etiqueta, invenção da burguesia, em oposição aos modos rudes da nobreza e do povão, faz falta nesta sociedade sem a menor educação. E eu mesma me surpreendo de me flagrar defendendo os interesses de uma classe que sempre repudiei, mas a que pertenço. Tanto quanto Woody Allen, meu maior ídolo, e Machado de Assis, que ascendeu a ela e se converteu em seu maior crítico. Temo que um dia eu ainda vá implorar pela volta da vassourinha de Jânio Quadros. Mas lembremos que foi o lumpensinato que elegeu Hitler. E não a pequena burguesia. Creio mesmo que Brecht e seu distanciamento se aproximariam da classe média, agora, solidários. Pode ainda parecer que os Estados Unidos defendem esta classe. Mas ali já não existe classe média. Existe, sim, uma classe altíssima, riquíssima e hegemônica, bem mais próxima da aristocracia do que da burguesia. Mas, infelizmente, dotada da ignorância da segunda. E assim a sociedade global volta a se dividir entre a classe dominante, de milionários, e uma classe de pobres que aspiram a riqueza. E a classe média, fadada ao desaparecimento, nos se afigura como minoria desvalida, ao lado dos miseráveis. E uma revolução burguesa acabará por se impor. E um Napoleão subirá ao poder. E assim ficaremos, a rodar em círculos, até que os recursos de sobrevivência neste planeta se esgotem para nós todos e apenas os abastados possam partir nas circunavegações espaciais, aos milhares. Para, no entanto, chegar às dúzias, talvez, duas ou três. Ou apenas um único ser, que não se saiba mais humano.
Do Mezzanino, pois
Sei que eu mesma me repito em minhas queixas de gueixa burguesa. Aqui mesmo estou convencida de que já apontei todos esses dados e dardos, qual mantra. Conseqüência provável desta onda orientalista, migrada dos hippies anos 70 para o século XXI, em que, nos mares internautas, vem com sabor de coca-cola de máquina. Sintético. E, claro, vazio.
Addam Phillips, psicanlista judeu inglês, freudiano, sustenta que a psicanálise não tem efeito terapêutico algum e que, hoje, deve existir apenas para criticar a si mesma. Creio que estamos, de fato, numa era de revisionismo crítico e o criador, seja de que setor for, deve, do mesmo modo, rever sua criação e ser um crítico rigoroso de si mesmo, da sociedade e dos colegas. Portanto, assumo o mezanino, sem a autoridade de um Harold Bloom, mas com a força imperiosa, imperativa e contundente de um Pedro de Lara. Muitos são os que me criticam. Em minhas quase três décadas de vadiagem, para a qual ora me vejo a pleitear uma aposentadoria, dediquei-me ao pensamento e às compras. Pensam que sou escritora, roterista e compositora. Mas sou, como Clarice, uma amadora. E, como ela, gosto mesmo é de fazer compras. Dos livros e CDs aos vestidinhos. E muitos, muitos fetiches, como brinquedos antigos e relíquias que-tais. Meus críticos me chamam de perua. Eu admiro muito as peruas, mas me falta ainda muito para atingir este ideal. Porém, como sou dona de todo o instrumental necessário à peruagem, as bichas costumam me idolatrar. Há, todavia, algumas, possivelmente misóginas, que me dizem menopausídica, o que, de fato, sou, aos meus 48 anos. Devo esclarecer, entretanto, que minha irritação data da mais tenra infância. E vem numa curva ascendente, posto que a burrice ascende no mesmo passo. E outro fenômeno que abordarei mais adiante em minha coluna de bico de papagaio será este: a ascensão da burrice arrogante. Porque burrice já irrita. Burrice arrogante só mesmo pegando o revólver. Meu Deus, o que recebo de cartas de ignorantes pomposos, que chegam mesmo a me ameaçar de morte, não está no gibi, nem na graphic novel, nem no Second Life, reduto supremo da imbecilidade sideral. Eu me pergunto como, em uma época em que o mundo nunca viu tanto dinheiro, podemos estar mergulhados em oceano tão pobre. Eu adoraria ser pichada por todas os críticos que citei acima. Um insulto de um Paulo Francis seria um elogio para mim. A misoginia de um Millôr, um afago. Mas aturar pedrada de gentinha – sim, nunca pensei, tampouco, que iria usar expressão tão preconceituosa! – é um tédio. Quando uso este diminutivo, contudo, não me refiro a uma ralé de ordem social. Mas a uma ralé de natureza psíquica e intelectual, que, graças a estes instrumentos de produção, que permitem que qualquer mané se arvore em escritor, artista etc. Então, virou uma banalidade escrever. Quando era da ordem do extraordinário. Porém, já denunciava Pedro Nava – meu amigo Pedro Nava em que navio, caravela, desta circunavegação imbecyber, você afundaria? - as pessoas PENSAM que escrevem. Eu, por exemplo, não penso que escrevo. Eu escrevo. A qualidade de minha literatura pode ser discutível, mas, ante o panorama hodierno e odiento, eu me sinto Tolstoi. E, assim como Truffaut foi fazer cinema, porque, nas lides de crítico, não podia mais suportar a produção cinematográfica francesa e resolveu arregaçar as mangas e fazer ele mesmo o que deveria ser feito, eu arregaço as minhas e lavo a roupa suja, com o umbigo colado no tanque, desta minha barriga que, no passado, já foi de tanquinho. Ora, amigos e amigas, escritor não nasce em árvore. Mas, em “Histórias de cronópios e de famas”, nosso amado Cortázar já previa que, no futuro, isto é, agora, todo mundo seria escritor - do mesmo modo com que o famoso Andy Warhol suspeitou que todo mundo seria fama - e que faltaria leitor, do mesmo modo com que falta plebe ignara. Então, escolho a singularidade: sou leitora e sou ignara. E esta é apenas a carta de uma leitora ignara indignada, que exorta, à Nelson Rodrigues: “envelheçam!” E ainda evoca as manjadas palavras de George Bernard Shaw: a juventude é algo maravilhoso. Só é pena desperdiçá-la com os jovens. Falta fio de cabelo branco em nosso cenário cultural. A cultura de exportação inventada pelos marketeiros norte-americanos para consumo do terceiro mundo criou o mais perverso dos monstros: o jovem eterno. O Dorian Gay, digo, Gray, sem gray hair. E, como bem falou um editor autóctone, a classe dominante brasileira investe dinheiro apenas em tintura de cabelo. A sociedade brasileira é, hoje, apenas uma loura burra. E eu sou morena, como Guerra Junqueiro dizia que era Cristo. E, se me querem crucificar, que o façam com estilo, como queria Bukowsky. E se falo e caem aspas é porque sorvi e absorvi palavras dos velhos sábios, ora extintos neste planeta. Estou longe de ser erudita. Mas, com minha meia dúzia de referências, sou rainha louca na corte falida do Rio de Janeiro. E sou decapitada na revolução burguesa dos milionários. E minha cabeça, delirante e farta, milagrosamente, sobrevive, geraldina, no meu samba do crioulo doido universal.
Glauco Mattoso e as mil e uma noites – nota 10.
Pedro Maciel entrevista João Gilberto Noll – nota 10.
Poemas de Dado Amaral – nota 10.
Cronópios nota 2007. Ground control to Major Tom: existe vida inteligente na internet. Não é Fama. É Cronopiana. E somos todos internautas à deriva. Navegar é preciso. Viver não é preciso. Esta é a nossa Escola de Sagres. Precisamos de papel para escrever nosso diário de bordo. Mas um cronópio não corta árvores. Então, aqui nos manifestamos, sem tinta, nem tintura de cabelo. Um botão e esta civilização se extingue. Basta um botão. Um botão deleta a vida. Um botão exintingue o verbo. Um botão desabrocha. E a rosa do asfalto dá o ar de sua suprema graça.
Mathilda Kóvak, Duquesa Burguesa de Márcia de Windsor.
P.S. Corolário - Ao percorrer minha retinas descoladérrimas por este site, confirmo algumas de minhas teses. A primeira versa sobre o papel crítico do intelectual. Noto que as matérias, artigos e congêneres, são superiores, aqui, à ficção. Outro aspecto, que me salta aos olhos oblíquos, aqui e em demais publicações do gênero, ou mesmo na atmosfera em geral, é que a poesia contemporânea dá banhos na prosa ficcional. Isto me leva a supor que este será um século, sim, século, paradoxalmente, se contará nesta progressão, onde a importância literária se dará apenas na crítica e na poesia. Para se destacar, o ficcionista precisará de uma imaginação como a descrita por Jean Baudrillard no célebre “Simulacros e simulações”, isto é, a imaginação no papel de último baluarte da realidade, por que se queria sua reinvenção e não sua reprodução hiper-real. Observo que uma das diferenças mais expressivas entre a qualidade dos cadernos de cultura dos anos 70, anos de muita efervescência literária, sem vapor, entretanto, para os suplementos de agora, pode ser verificada na ausência de colaboradoras mulheres. Toda vez em que houve um boom da litaratura, de um século para cá, as mulheres o capitanearam, com seu sufragismo involuntário, cartazes subjetivos e, claro, indefectível inteligência. Falta mulher nas últimas edições do Cronópios. O que percebo outrossim, e outro não, é que parece que estamos envolvidos num retrocesso tão peremptório que voltamos aos tempos em que os homens faziam papel de mulher no teatro, porque as mulheres eram proibidas de atuar. Então, este site tem sido ocupado, paulatinamente, por eunucos e castrati. E, vocês sabem, bicha quando quer tomar lugar de mulher faz de tudo. Eu adoro bicha. Propugno a volta da bicha louca. Agora essa bicha de armário, que sequer sai dele bem vestida, não dá. Um simulacro atrás do outro. Também identifico uma superpopulação de colaboradores cariocas. Ora, daqui a pouco, isto aqui vai virar TV Globo. Gente! Vinicius, Tom, Sérgio Porto, que nem carioca era, e outros cidadãos ilustres desta cidade, bateram as botas há anos. E, mesmo assim, para agüentar esta pseudo-metrópole, bebiam desesperadamente, o que lhes custou o fígado. Intelectual no Rio vira Prometeu no ato. Os abutres vêm e lhe abocanham o órgão. Bem sei, eu que estou à beira de uma cirrose. Meu AA, graças a Scott Fitzgerald que me protege, é São Paulo. Localizei ainda uma certa limpeza no décor, melhor, design. Pipol é o grande gênio do webdesign, mas tenho que advertir para os perigos do clean. Pipol não pode perder o barroquismo harmonioso que lhe é característico. Entretanto, a TV Cronópios está linda. Aponto, pois, para meus queridíssimos editores esses pecados, já que a função me foi, doutra feita, outorgada. No mais, ainda acredito que haverá um grande apagão de energia elétrica e que ficará apenas a poesia dita, como em Homero e Virgílio, razão pela qual, talvez, a poesia esteja tão vigorosa. É mais fácil contar uma história em versos do que em prosa, do ponto de vista oral e/ou auditivo. A neurociência já provou que nosso cérebro assimila mais letra de música cantada do que texto em prosa escrito. E, sim, letra de música é poesia. Ou vocês nunca ouviram falar em canção? Beijos. I love you all...
Mathilda Kóvak é escritora, compositora, roteirista. Tem seis livros infantis editados e um sétimo no prelo - Rocco, além do livro "Contos da Era do Fax", Ed. Mondrian, e o CD "Mahatmathilda, a evolução de minha espécie". E-mail: madmath@uol.com.br |