Café Literário Cronópios

A menina do Teatro Municipal
por Maria José Silveira





 
Coluna:
A DIFERENÇA É O QUE HÁ
Eliana Pougy


Coisas óbvias e lugares comuns - final
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns XI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns X
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IX
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VIII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VII
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns VI
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns V
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns IV
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - III
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns - II
por Eliana Pougy




Coisas óbvias e lugares comuns
por Eliana Pougy




O menino do meio
por Eliana Pougy




Catadores de dignidade
por Eliana Pougy







 


Carlos Emílio C. Lima


Marcelo Tápia


Bráulio Tavares


José Aloise Bahia


Jussara Salazar


Glauco Mattoso


Solange Rebuzzi


MEZANINO


Gustavo Dourado


Paula Valéria Andrade


Caetano Waldrigues Galindo


Eliana Pougy


Ray Silveira


Maria José Silveira


Maurício Paroni de Castro


Jair Cortés


Guido Bilharinho


Italo Moriconi


Antonio Maura


Abreu Paxe


Gonzalo Aguilar


Amador Ribeiro Neto


Leda Tenório da Motta


Frederico Füllgraf


Mathilda Kóvak


Marcelo Barbão


Alfredo Suppia


Artur Matuck
20/02/2011 21:15:00 
Coisas óbvias e lugares comuns - final


Por Eliana Pougy


        Clara olha pela janela e sorri. A marginal Pinheiros, vista pelo vidro fumê do escritório da mais nova diretora de jornalismo da emissora, pode, sim, transformar-se na mais bela paisagem do mundo.


                                                * * *

        Ana está com uma certa dificuldade para falar. O som de sua própria voz lhe incomoda, ainda. Prefere ficar calada, desde aquele dia... Fecha os olhos e pensa em seu ex-companheiro. Ele deve estar bem, afinal nada dura para sempre. Nem o sofrimento. Pensa no filho vivo e no filho morto. Não tem nenhum dos dois e, na verdade, nunca teve. Um, achou que tinha nascido morto, o outro, ela deu para o ex-companheiro. Ela não era nem nunca tinha sido uma boa mãe. Olha para suas mãos e pensa que realmente não aparenta sua idade. Os milagres da medicina moderna. Suspira. Olha para os lados. Mais uma vez, ela está desterrada, em trânsito. Mais uma vez, seus planos desmancharam-se no ar. Derreteram-se, liquefizeram-se. Pensa na reação de sua equipe ao avisar que não ia mais participar da ONG, que estava indo embora do país. Mas, afinal, o que é um país dentro desse mundo todo? Todos foram muito discretos e não comentaram o assunto. Nem ela comentou nada, apenas pegou suas coisas e foi embora. Ela não sente culpa. O que ela sente não conta agora e nem nunca contou. Ela é uma vítima, tanto quanto aquelas pessoas que ajudava em seus projetos sociais. É uma vítima de um complô social. Uma gota de água no oceano. Ainda tem alguns anos pela frente e é isso que importa agora. Ela não espera nem deseja mais nada. Quer apenas viver. Só isso. Enquanto der.


                                                * * *

        Fábio olha pela janela do avião. As ilhas Cayman estão lá embaixo e dali a pouco aterrissará em Cancun. Dessa vez, ele teve que fugir, afinal seu pai já não tem mais tanto poder. E como ele já tem uma boa quantia em Cayman, foi natural ir para lá se esconder ou mesmo começar uma nova vida fora do país. Afinal, ele precisa esperar a poeira baixar para ver o que fazer. Jeito a gente sempre dá, isso ele tinha aprendido com seu pai.
       
De repente a imagem do travesti morto no meio da rua aparece na sua frente. Ele está ficando maluco ou aquilo lá era parecido com Ana? Ah, não, ele está pirando... ele ri, alto. A aeromoça lhe serve mais whisky. Primeira classe é tudo de bom, é o único jeito de viajar. Bebe um gole e pensa no que vai fazer quando pousar. Será que dá tempo de uma prainha? Se não der, ele vai malhar um pouco antes do jantar. Lembra-se do restaurante cinco estrelas na beira da praia, do visual do pôr-do-sol, da sensação de calma que aquele mar dá. Fábio suspira.
       
Olha para os lados. Não percebe ninguém olhando para ele. Não vê ninguém da imprensa também. Ele foi rápido, mesmo. Tomou todas as providências para fugir de modo tão rápido que quando percebeu, já estava no avião. Desfez-se do compromisso profissional como quem troca de roupa. Mandou e-mails para quem ele achava que deveria avisar, fez as malas e pronto: vida nova. Mesmo que seja uma vida de passagem, de avião em avião, é uma vida nova que tem pela frente. Uma vida globalizada. Uma vida fácil. Seu pai baterá as botas logo, logo. Dinheiro não é problema. Nem nunca foi. O céu está azul e as nuvens formam um chão branco. Fábio tira o fone de ouvido da orelha e fala para a mulher ao seu lado:
       
- Quer que a aeromoça te sirva alguma coisa?
       
Ana sorri.
       
É.



                                                * * *



Eliana Pougy é mulher feita, mãe em andamento, artista em construção e professora em experiência. Já publicou em papel e em pixels, no Brasil e em Portugal. Recebe essa piada que são os direitos autorais brasileiros. É mestranda na FE-USP e professora universitária, além de capacitar professores em arte. Agora está aqui. E-mail: pougy@uol.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Eliana Pougy no Cronópios.