Fui convidada para participar de uma mesa-redonda, no Instituto Pensarte, em São Paulo, para falar da atividade literária como economia caseira. Mais ainda: prevendo como ela estará daqui a cinco anos.
Achei o tema tão inusitado que aceitei. E como gosto de pensar caminhando, tal qual Chico Buarque, fui passear pela Av. Paulista.
Como de outras vezes, passei por um rapaz que me entregou o folheto da vidente: “Dona Natália – vidência nas águas e borra de café.”
Pensando no tema que me haviam proposto, resolvi subir até seu assim chamado consultório, num prédio próximo: uma salinha fechada, com luzes alaranjadas e uma mesinha de fórmica amarela no centro de duas cadeiras. Dona Natália tinha o rosto enrugado, cabelos brancos, lisos, presos num coque. Olhos espertos e jovens. Simpática e acolhedora, a velhinha. E como sou de Peixes, lhe pedi que, entre outras coisas, visse nas águas se minhas ideias estavam num bom caminho. Ela me garantiu que sim. O que me fez ficar mais animada para colocar aqui meus prognósticos sobre o tema.
De volta a meu prédio, e para reforçar ainda mais o que vou dizer aqui, encontrei o porteiro na guarita lendo “1822”, do Laurentino Gomes. Surpresa com a cena pouco comum, perguntei se estava gostando do livro, e ele me disse que sim, muito. E me contou que o tomara emprestado de um morador que, às vezes, lhe empresta livros.
Nunca vi o Laurentino Gomes mais gordo mas sou amiga dele no Facebook, uma ferramenta muito interessante de divulgação. Como sabia que ele iria gostar, postei uma mensagem contando que meu porteiro era seu fã, e ele me respondeu que ficava feliz pois seu objetivo era esse mesmo, “levar a História do Brasil para um público que não se interessava pelo assunto.”
Nessa mesma semana, li também uma longa entrevista com ele, o Laurentino, no “Outlook”, o caderno de cultura do jornal “Brasil Econômico”. Ele dizia que havia planejado seu futuro como escritor e, para isso, se aposentou da Abril – onde durante anos ocupou cargos importantes – e fez um curso de marketing para se dedicar a trabalhar no nicho de bons livros de divulgação de História, tema do qual sempre gostou. E como estamos vendo, essa sua estratégia está dando super certo.
Carreiras planejadas com todo esse profissionalismo eram quase inexistentes até pouco tempo atrás. A consciência de que o livro é um produto comercial, e existe para ser vendido, não era generalizada entre os escritores que apostavam suas fichas mais no prestígio de crítica, e torciam o nariz para os que obtinham sucesso de vendas (por inveja, talvez, porque no mundo da literatura, como no mundo de qualquer profissão, é muito raro encontrar um santo). Hoje, isso mudou – essa ideia de que livro bom não vende - e tem se tornado uma preocupação de boa parte dos escritores conseguir um bom desempenho de vendas para seus livros. Infelizmente, casos como o do Laurentino Gomes, Paulo Coelho, e outros poucos, ainda são exceções mas hoje, segundo dados de uma pesquisa recente, cerca de 20% dos escritores brasileiros são profissionais que têm a venda de seus livros e atividades ligadas à escrita como parte de sua renda mensal. Eu, por exemplo, e vários amigos escritores, estamos dentro dessa estatística que era quase impensável algumas décadas atrás.
Somos escritores profissionais que trabalhamos em casa, gastamos pouco a não ser com a compra e manutenção de nosso computador e com as pesquisas que fazemos (os que fazem pesquisa, que não são todos), e que significa compra de livros sobre o tema, viagens, entrevistas, esse tipo de gasto. No fundamental, nossa atividade profissional consiste em passar dias, meses, anos, sentados, olhando para o ar à nossa frente, tentando ver se enxergamos o que escrever em nosso computador. O que investimos, a rigor, é sobretudo nosso tempo.
Em torno dessa atividade caseira, em sua aparência muito simples, no entanto, ergue-se uma indústria formidável: editoras, gráficas, parte das indústrias de papel, distribuidoras, livrarias, bibliotecas, e agora e-books, todos com seus profissionais de produção, marketing e comercialização: ou seja, milhares e milhares de pessoas.
O complexo e sofisticado processo de produção, que aquele texto originado na frente de um computador no pequeno escritório de uma casa alimenta, não tem nada de caseiro e movimenta uma parte nada desprezível da economia do país.
Como mostra Felipe Lindoso, em seu livro “O Brasil pode ser um país de leitores?”, “a indústria editorial brasileira chegou ao final do século XX como a maior da América Latina e [...] é a oitava em volume de produção do planeta.” Com números levantados por diversas pesquisas, Felipe Lindoso analisa as perspectivas estratégicas para o mercado editorial brasileiro e conclui que elas são bem favoráveis, mantido o nível de investimento que, de alguns anos para cá, têm sido feito na educação de maneira constante e positiva. Ainda permanecem vários problemas, é evidente, e entre esses problemas, os principais seriam:
- A capitalização e administração das editoras;
- A distribuição dos livros em um país continental como o nosso;
- A questão da construção de uma rede eficaz de biblioteca públicas, fundamental para que o acesso ao livro se torne uma conquista real para a população;
- E a implantação de políticas públicas de amplo alcance, capazes de garantir a nossa diversidade cultural e o acesso ao conhecimento.
Lindoso escreveu esse livro em 2004. Hoje, sete anos depois, seus prognósticos se confirmam, e esses problemas vêm sendo enfrentados de maneira bem visível. Por exemplo:
- embora ainda completamente insuficientes, “nunca antes nesse país”, foram criadas tantas bibliotecas;
- o movimento de nascimento, expansão e concentração de editoras e livrarias pode ser acompanhado por qualquer um pelos jornais;
- “nunca se viu” tantos escritores jovens no país, tantos cursos e oficinas para escritores, tantos prêmios, tantas feiras literárias – a impressão que se tem é que escrever está entrando na moda.
Ainda outra coisa: as vendas do Harry Potter. Esse fenômeno mundial fez algo que considero de grande importância para nosso mercado. Pôs uma maciça quantidade de jovens brasileiros lendo livros de 400 a 700 páginas, e não só um, mas uma série de vários volumes. E quem lê e gosta de livros “grossos” como os de Harry Potter é porque descobriu o prazer que pode tirar de um livro. Daí porque aposto boas fichas que esse público de jovens continuará lendo e se transformará em adultos leitores.
O número de exemplares vendidos no país nos dá uma ideia desse crescimento do mercado: em 1990 (quando foi produzida a primeira pesquisa da produção editorial, feita pela Fundação João Pinheiro) foram publicados 22.479 títulos e 239.392.000 exemplares, e em 2009, 52.509 títulos e 386.387.000 exemplares. “Ou seja, enquanto a população do Brasil aumentou aproximadamente 21%, a produção dos títulos aumentou 133% e a de exemplares 61%.”
Nada mal.
Nesse mercado em crescimento – ainda que boa parte dos exemplares comprados seja de autores estrangeiros – me parece razoável pensar que nós, autores brasileiros, também participamos com alguma fatia. Não posso dizer em que medida, mas exemplos como o do Laurentino Gomes – e na área infanto-juvenil, de vários outros – indicam que pode ser uma fatia relevante.
Contribuindo para essa profissionalização do escritor, existem também as compras do governo para escolas e bibliotecas, através de vários programas - do Ministério da Cultura e sobretudo do Ministério da Educação. E aqui tem dois tipos de compras.
Primeiro: tem a compra dos livros didáticos, que é bastante relevante. Os autores de livros didáticos formam uma categoria à parte do mercado porque esses, sim, há muito tempo são profissionais que vivem de seus direitos autorais, e vivem bastante bem.
Segundo: tem a compra dos livros chamados, para esse fim específico, de paradidáticos, e que na verdade são os livros de literatura em geral. Os autores que têm seus livros comprados por esses programas não vivem disso, mas ficam bem contentes.
Desse conjunto de fatores, portanto, o que vemos é que esse mercado anda bem. E minha quase certeza – com o aval poderoso da vidente Dona Natália – é que nos próximos anos veremos o livro, em suas variadas formas (papel ou e-books) e seus variados autores, atingir um grau de pujança que há muito estávamos querendo neste país.
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Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Foi jornalista e redatora de publicidade.
É formada em antropologia e mestre em Ciências Políticas. Tem romances, contos e livros infanto-juvenis publicados. Nasceu em Goiás. Blog: www.mariajosesilveira.wordpress.com
E-mail: mariajosesilveira@terra.com.br