
Isso mesmo, eternamente feliz, porque não há um ator que esteja mal nesse elenco deleitado com papéis imperativos (todos). Estão bem sobretudo porque sustentados pela adaptação que não corrói o romance com veleidades estetizantes.
Isso consente que o talento e a destreza de Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas sustentem a maledicência de Nelson Rodrigues, alastrados ao elenco: Diana Bouth, como convém a uma protagonista, devora com avidez o ar exalado pela própria sacanagem reprimida; Daniel Alvim parece um símio endemoninhado; Uma elegante morfética desfila sua castidades imoral (Vera Bonilha); A secretaria defunta faz rir da própria desgraça (Regina França); contínuos e religiosos miseráveis poetam convicções empregatícias que os levam a cometer e justificar assassinatos passionais (Maurício de Barros).

Há, ainda, o gosto despudorado, ostentado por todos, de proferir e emporcalhar as santas palavras de O Casamento; ou em santifica-lhe o porco e sujo fraseado do romance. A qualidade da adaptação de Johanna Albuquerque faz com que eles não gritem, não banquem os "atchores" e "atchoras" (praga de nosso teatro) e, afinal, não exagerem na medida da dicção rodrigueana.

Como em todo espetáculo, há seus pecados, e não serei mau colega para falar deles publicamente. Disse-os ao elenco. Mas eles não obscurecem nem um pouco a luz indecente que emana do porão do espetáculo. Vale muito a pena ir ao teatro participar de uma festa anti-higiênica. Faz tempo que não via um Nelson Rodrigues digno do espírito louco e iconoclasta do nosso autor maldito, um dos poucos semeadores contemporâneos do lugar certo para reinar a maldição: o palco. Palco com ares de antro moralista de excentricidades existenciais e amorosas, posto que antimoralizante. Palco onde não se comete o único pecado que o teatro de palavra rodrigueana não permite - mas muitos teimam em perpetrar: ser mais Nelson que Nelson.

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Maurício Paroni de Castro é diretor teatral, professor residente na RSAMD (Royal Scottish Academy of Music and Drama) e associado à Companhia Suspect Culture de Glasgow, Escócia. Ensina e dirige regularmente também no Brasil e na Itália. É co-autor do roteiro de Crime Delicado, de Beto Brant. Dedica-se apaixonadamente à culinária histórica e regional italiana.
E-mail: paronidecastro@gmail.com