Café Literário Cronópios

O homem visível
por José Aloise Bahia





 
CONTRAPONTO


LITERATURA 00 (Começa agora o resto deste século)
por Italo Moriconi




Rui Barbosa pós-moderno? (Elogio a um elogio)
por Italo Moriconi




Silviano Santiago, 70 anos: homenagem, evocação [1]
por Italo Moriconi




Urgência, orgia, escrita da Aids
por Italo Moriconi




O blog da procrastinação
por Italo Moriconi




erotica, a expo
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Blog de viagem (“Leaves of weed”)
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O professor pobretão
por Italo Moriconi




Lá em Brokeback Mountain, ou: dez anos sem Caio Fernando Abreu
por Italo Moriconi







 


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Artur Matuck
22/05/2007 23:02:00 
LITERATURA 00 (Começa agora o resto deste século)


Por Italo Moriconi

 

         Pode a literatura exercer ainda um papel catalisador na cultura e no espaço público?

         Esta foi a pergunta proposta pelo curador José Castello, o notável crítico literário e autor do belo romance Fantasma, no recente colóquio Rumos, promovido em Curitiba pelo Itaú Cultural, em parceria com a Fundação Cultural da cidade e com o jornal Rascunho. Pois é, o jornal Rascunho. Que tanta polêmica causou há tempos atrás no circuito literário, pela agressividade irônica com que alguns de seus jovens articulistas andaram criticando livros lançados por nomes respeitáveis da nossa ficção e poesia. Na época, por amizade e convivência, compartilhei dos sentimentos de pessoas queridas, intelectuais-artistas do porte de um Sebastião Uchoa Leite, um João Gilberto Noll. Mas lá no fundo do meu coração espiritual, eterno adolescente, batia também, em surdina minoritária no conclave de meu ser, a solidariedade com um tipo de atitude sem a qual julgo que o debate público perde metade da graça e relevância: a iconoclastia. Principalmente a inconoclastia do jovem, pois a iconoclastia do velho usualmente levanta suspeitas de estar tingida por ressentimentos inaceitáveis.

Claro, existem iconoclastias de velho profundamente educativas - bom exemplo recente em escala global seriam as invectivas de Harold Pinter contra o finado Blair e sua nada finada guerra no Iraque. O Noll sempre foi e sempre será um escritor do iconoclasmo, por isso na época o Rascunho se auto-escanteou para uma posição canhestra, paradoxalmente conservadora. Ao mesmo tempo, não se pode esperar de novas gerações de críticos que manifestem fidelidade a grandes autores de uma geração imediatamente anterior, cujas trajetórias não acompanharam passo a passo, livro a livro. Quem vem dos anos 70/80, ainda está no sereno, muitas vezes bem longe da palavra final quanto ao valor de sua obra. Mas já é visto pelos de 90 ou 00 como canônico, como vaca sagrada a ser desconstruída.

No entanto, o buraco vai bem mais longe. Já dizia Brecht, na teoria do teatro crítico: o objetivo número um de toda e qualquer arte é divertir, entreter, distrair. A arte é uma brincadeira séria. Seriedade necessária, resultante fatal da inevitável captura da arte pelo pensamento teórico-político-pedagógico. No meu modo de ver, a seriedade pode até querer predominar, mas não pode ser usada para excluir o lugar da brincadeira, do riso desabusado, que constituem quem sabe a contribuição mais vital do coração adolescente e pós-adolescente à sobrevivência social. Entre os gregos, assim como em outras culturas arquetípicas, ocidentais ou não-ocidentais, poesia e teatro eram ligadas a espetáculos esportivos. O exercício da crítica pode e deve ser ferino e competitivo, mas isso deve trazer em contrapartida a presença de espírito esportivo por parte de criticados e de críticos.

Quem não tem espírito esportivo, é melhor ficar de fora, procure outra praia. Do lado do criticado, cabe ter consciência do ridículo que é auto-mumificar-se, auto-plastificar-se como monumento intocável, em nome de uma suposta dignidade pessoal. Do lado do crítico ferino, a ingenuidade é probida: ele ou ela devem saber que seu propósito é apenas divertir denegrindo e que não há qualquer verdade substancial no discurso irônico (assim como em nenhum outro). Delenda dogmata. Delenda unilaterália. O mais imediato perigo que cerca os participantes da competição literária é deixarem-se tomar por sentimentos baixos. Repito de memória Caio Fernando Abreu: palavras podem ser mortíferas, sabes?

 

*     *     *

 

Não sei se o atual momento de integração institucional do Rascunho será  bom ou ruim. Será ruim se representar cooptação, algo que, pensando bem, depende menos do jornal e mais do tipo de gestão vigente nos órgãos culturais oficiais paranaenses (liberal ou dirigista? democrática ou excludente? populista ou elitista?). A integração será boa se representar oportunidade de maior profissionalização para o jornalista cultural e para o escritor. Será boa se permitir ainda maior circulação, abertura e disposição de diálogo em nível nacional. Será boa se propiciar cada vez maior firmeza no nível de consciência micro e macro política por parte de quem faz cultura no Paraná, seja como pessoa física, pessoa jurídica, funcionário do Estado ou empregado de empresa privada.

A parceria será boa também, concedo, se representar maior firmeza na rejeição, ela própria muito política, desses valores todos, aqui propugnados. Não aceitam o que digo? Tudo bem. Vou encarar com espírito esportivo. Pelo menos vou tentar. Cuidado que às vezes meu cão raivoso interior salta pela boca afora, língua e dentes de lava, afim de morder uns e outros. Não tenho controle sobre meu cão raivoso, mas nada como as regras formais e informais de um saudável debate público, para manter na paz o pitbull que cada um guarda dentro de si. Achei bacana no colóquio de Curitiba que tivemos ali uma encenação de debate público saudável. Era um colóquio, por isso não comportava maior participação do público, a não ser mediante perguntas por escrito. Tratava-se aí da opção por um formato dentre outros, com suas vantagens e desvantagens. Estas só podem ser avaliadas em função dos objetivos finais da entidade promotora.

Uma coisa é certa: me parece muito bom que a literatura seja incluída como produto cultural marquetável e financiável por instituições privadas, com ou sem Lei Rouanet. Até pouco tempo atrás, a literatura era a enjeitada, a esquecida, se compararmos com o nível de financiamento obtido por cinema, teatro, música popular. Sequer fazia parte da rubrica “cultura”, ficando restrita à rubrica “educação”.  Ou seja, assunto que dizia respeito apenas ao sistema escolar e às universidades. E dali direto para a imprensa, restrita aos suplementos literários, raramente aos cadernos bês (a não ser em caso de megaestrelas). Mas hoje sabemos que cultura, mídia e entretenimento são também educação. A educação não se restringe aos espaços escolar e acadêmico. Ela se processa sobre três suportes institucionais: o da cultura, o da mídia, o do sistema escolar-acadêmico. Talvez por isso o universo de quem investe dinheiro em cultura e educação esteja se ampliando para incorporar a literatura.

Menos mal. Parece-me no entanto que o nível de remuneração do trabalho literário ainda está muito insuficiente em comparação com o das outras áreas mencionadas, com exceção talvez do teatro. Em se tratando de teatro não-comercial, a situação, ao que eu saiba, ainda é de penúria.  Quanto à literatura, ainda tem gente que acha que passar o dia pensando, lendo e escrevendo e sinônimo de dolce farniente. Lembram do caso da empregada do Fernando Sabino? Ela achava que seu patrão era feliz, porque ganhava dinheiro sem precisar trabalhar.

 

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Com todas as insuficiências, a nova situação financeira e profissional da literatura associa-se à extraordinária proliferação de prosadores e poetas que vem ocorrendo no Brasil desde os anos 90, intensificada ainda mais nos correntes anos 00. A tal ponto intensificou-se a produção literária de novíssimos na presente década que eu venho preferindo falar da geração 00, já que os principais representantes da de 90 recusam com ênfase o rótulo. Nós dos anos 70/80 não tínhamos esse problema, abraçamos desde sempre, e numa boa, os rótulos de geração que nos foram pespegados. Sérgio Sant’Anna chegou mesmo a escrever um Romance de Geração, que era o que no fundo muitos de nós queríamos e ainda queremos escrever. Vivenciamos de maneira forte o aspecto geracional do existir. A cultura literária jovem naquele tempo era de esquerda e na nossa esquerda de fim de ditadura e começo de democracia prevaleceu a experiência do coletivismo, com sua ética fraternalista, sobre a experiência liberal (ou neoliberal) do espaço público, com sua ética da igualdade civil na irredutível diversidade. Minha geração continua carregando  resíduos de bicho grilo nas costas, feito mochila velha.  

Talvez a minha vontade de redefinir visões da cena cultural contemporânea mediante o uso do conceito de geração tenha a ver com a entrada na meia idade.  Antonio Candido afirma em seu famoso prefácio a Raízes do Brasil que com o passar dos anos somos compelidos a fazer análise cultural menos em termos de divergências de idéias e mais em termos de problemáticas e vivências comuns, geracionais, epocais. É por esse caminho que se pode por exemplo traçar aproximações entre um Sérgio Buarque de Holanda e um Gilberto Freire, apesar disso parecer, à primeira vista, de um ecletismo enlouquecido. É certo que uma noção totalizante de época é pretensiosa, abusiva,  só se salva como matéria-prima de literatura ou ensaísmo livre, nunca como ciência histórica. Isso a gente sabe desde a Escola dos Anais (École des Annales) e, de maneira mais próxima, desde o Foucault da arqueologia e da genealogia e do Barthes de Michelet. Nesse sentido, levantar cenários, interpretar biografias individuais e coletivas, articular momentos de época, é sempre empresa precária, é como um roteiro, um guia para entrar na complexidade, abrindo portas para a perplexidade – esta palavra que tanto marca, não de maneira ingênua, o discurso do nosso José Castello. Perplexidade: atitude fundadora do pensar filosófico. Com Castello comecei, com ele engato agora uma segunda, voltando à pergunta que ele nos propôs, a mim, Bernardo Ajzenberg e Glauco Matoso, na mesa-redonda de que participei em Curitiba.

 

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 Pode a literatura exercer ainda um papel catalisador?

 Minha resposta em Curitiba foi de bate-pronto. SIM – a literatura pode exercer esse papel, embora não mais como discurso central. A literatura catalisa o debate cultural junto com o cinema, a televisão (ou mídia = entretenimento + informação), o jornal, o video, a internet, a música, as artes performáticas. Enquanto a palavra escrita impressa foi a única tecnologia de comunicação à distância, a literatura ocupou o lugar central na pedagogia, na formação social das identidades. À medida que sobreveio a civilização das imagens – da fotografia ao cinema, deste à televisão e daí ao computador – o lugar central da literatura foi deslocado e entrou em crise toda a cultura prévia anterior, toda uma pedagogia centrada, havia séculos, na escrita e no impresso. 

 Agora, porém, neste início de século, plena década 00, ponto de partida, plataforma de lançamento, vivemos um momento que caracterizo como pós-crise. A começar pelo fato de que o mais recente capítulo na história da civilização das imagens nos trouxe de volta a palavra escrita. Refiro-me ao computador pessoal, à internet. Se a crise da literatura fôra causada pela sensação de que a palavra escrita estava ameaçada de desaparecimento por efeito das imagens, o pós-crise se caracteriza pela recuperação de um lugar importante pela escrita no interior do simulacro, entendendo-se por simulacro a imagem tecnicamente produzida. A versão mais atualizada do simulacro é a imagem virtual, é o documento virtual, onde o texto escrito sempre se faz presente. A`palavra escrita é um instrumento imprescindível na comunicação virtual. O grafema virtual é um híbrido de palavra e imagem.

Em matéria de literatura, o pós-crise supõe que pragmaticamente partamos do que é e paremos de lamentar aquilo que não é nem será mais. A fragmentação, por exemplo, está aí e nada podemos contra ela e nem ela precisa ser encarada de maneira apocalíptica. É preciso começar a construir uma ou mais pedagogias que funcionem dentro da fragmentação, da dispersão, da aleatoriedade que constituem a cultura hoje, na multiplicidade de suas ramificações e suportes. Réquiens pela morte da chamada alta literatura não fazem mais o menor sentido. Além de recolocar o escrito no centro ou nas margens da tela do computador, o momento atual trouxe de volta o tipo de introspecção, de solidão mentalmente operativa, que é uma condição imprescíndível para que possam acontecer os atos de escrita e/ou de leitura. O típico grilo de computador é a pessoa que passa horas e horas diante da tela, alguém que atravessa noites e madrugadas interagindo com a máquina, exatamente como ocorria antigamente entre os maníacos por leitura e seus livros.

Há um caldo de cultura que favorece a escrita e favorece a arte da escrita. Isso foi consenso não só entre os participantes da minha mesa, como também entre os escritores que estavam na mesa do dia seguinte, três nomes destacados na literatura contemporânea brasileira: Cíntia Moscovich, Michel Laub e o decano egresso do que ele considerou terem sido os deprimentes (para a literatura) anos 80,  Cristóvão Tezza, representando no colóquio a terra paranaense. Eu argumentaria que os 80 não foram tão ruins assim, pois foram os anos que consagraram a geração vinda dos 70 e mesmo os que vinham dos 60. Já com relação ao momento atual, a verdade é que existe bastante otimismo entre os escritores e críticos práticos mais jovens hoje atuando no Brasil quanto ao futuro próximo da criação literária no país. Confiam todos que a massa supostamente medíocre ou mediana de escritos supostamente apenas egóicos surgidos na blogsfera será progressivamente decantada e, como sempre ocorre, no final do processo, teremos os nomes e obras que vão ficar e que vão criar alguma posteridade de leitura. Isso não cheira a emulação geracional? Bem-vinda seja.

 

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Argumentei no colóquio que o que está em questão hoje já não é mais uma suposta crise do literário. O que está em questão hoje é o estatuto da narrativa ficcional escrita, ou, dito de outro modo, separando os termos, os estatutos do narrativo, do ficcional, do escrito.

Como ficam a ficção, a narrativa e a escrita nesse nosso contexto (rigorosamente pós-moderno) de pós-crise?

Particularmente, acredito que está em questão, em primeiro lugar, como novidade até um pouco perturbadora, o estatuto da ficção, que durante alguns séculos consistiu no núcleo definidor de literatura. Do ponto de vista por assim dizer antropológico, a  ficção se encontra hoje em competição com a realidade, tanto no sentido próprio, quanto no de informação midiática ou midiatizada. Sabe-se, claro, que nem sempre o que a informação midiatizada nos traz é documentação daquilo que realmente aconteceu, pode ser mera montagem, armação, armadilha simulacral. Importa destacar que a “realidade” existe hoje na forma da informação, na forma da mensagem (imagem + palavra) sobre o suporte do simulacro. A realidade e a informação, a realidade da informação,  são capazes hoje de exercer sobre os corações e mentes um impacto mais revelador ou intempestivo que a ficção. Basta lembrar da escala assumida pelo atentado de Nova Iorque em 2001 e seus desdobramentos reacionários nos anos que se seguiram, que criaram um parêntese na evolução política da democracia global, por causa da hegemonia fascista na América de Bush e do retrocesso reativo observado em alguns lugares, como no caso do Irã.

O papel revelador, formativo e educativo da imaginação romanesca literária ficou sendo algo muito ligado ao século retrasado, século 19. A ficção romanesca nunca perdeu totalmente seu poder, e talvez venha a recuperá-lo in totum no futuro, mas no atual momento ela está precisando disputar seu espaço encarniçadamente com o relato jornalístico, seja ele propriamente midiático, seja inclusive no sentido apenas de relato jornalístico. É por causa dessa condição que na literatura contemporânea, e isso em escala universal, são tantas as obras que trabalham na fronteira entre o ficcional e o real. O jogo, a alternância, o corpo-a-corpo entre ficção e realidade tornou-se uma espécie de clichê dominante na literatura mundial dos anos 90 e 00, a de virada de século e a do início do restante do novo século. Uso a palavra “clichê” aqui num sentido positivo, no sentido de “moldura”, de suporte previamente disponível para ser usado ou descartado no processo de produção da forma pelo artista. O escritor nada mais é senão artista profissional.  Artista da palavra – eis aí outro clichê útil de gravar.  

 

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Em questão encontram-se hoje também a narrativa, a narratividade, o estatuto do narrativo em geral. Vivemos um momento de explosão das narrativas. Somos acompanhados por narrativas 24 hs por dia. Toda a estrutura da comunicação é formada por narrativas superpostas – as narrativas de rádio, as de TV, as das pessoas nos múltiplos entrecruzamentos da multidão. Sobre estas somam-se as narrativas ficcionais do cinema, das novelas de TV, assim como as narrativas performáticas das gincanas tipo reality show. A fome humana por narrativas é portanto plenamente atendida pela cultura midiátizada, o que reduz o potencial de atração das pessoas pelas narrativas escritas.

Claro, continua existindo a massa minoritária cult que cultiva o hábito cult de ler histórias, os viciados e as viciadas em ler romances – clássicos, modernos ou contemporâneos. O que distingue uma pessoa que lê romances de uma pessoa que satisfaz sua fome de narrativa por outros meios é o apreço da primeira pelo suporte escrito e pelo recolhimento da leitura silenciosa. Toda leitura exige algum grau de esforço de concentração, assim como disponibilidade à introspecção e valorização da solidão criativa. Se essa condição é automaticamente canalizada pelo suporte da comunicação virtual, ela pode também vir em benefício do fetiche da escrita.

O fetiche da escrita. Eis que a grande questão para uma reflexão sobre literatura hoje em dia situa-se na esfera da escrita e do escrever. O elemento narrativo e o elemento ficcional vêm como atributos segundos, inerentemente problemáticos, em relação à necessidade antropológica e existencial primeira que é a necessidade de uma escrita como arte, de uma arte da escrita. Levantei então as questões seguintes: qual o valor de uma narrativa escrita frente à eficácia das narrativas midiatizadas? O que é que a escrita tem que nenhuma outra arte pode ter? Questãões espinhosas. Questões polêmicas.

Avancei uma resposta, de bate-pronto. Estilo brasileiro de scholar improvisador. A mesma resposta que tenho avançado em minhas aulas e foruns de pesquisa universitários. Esboço de resposta. Artefato pra pensar, esperando que outros me venham com as sugestões de nomes de grandes teóricos da atualidade que estejam tratando do mesmo problema.

Minha resposta tal como formulada na mesa-redonda de Curitiba foi que a escrita tem a capacidade única de mimetizar a interioridade da mente. Mimetizar = representar, ou ainda, e melhor, apresentar, re-apresentar. O cinema, a televisão, a performance (inclusive a dança) podem estar projetando cenas que representam a interiodade da mente, mas elas não podem apresentar o processo mesmo do pensamento que é verbal. Quando num filme se quer representar o pensando de alguém, é necessário colocar uma voz em off dizendo o texto que mimetiza esse pensando. Outro dia, revendo Terra em Transe, tive um insight. Um dos maiores valores desse filme do Glaúber, ou seu maior valor, é puramente literário, devido à importância que os monólogos infindáveis do Jardel Filho têm no filme, incluindo-se o destaque assumido pela poesia de Mário Faustino. Tais monólogos apontam para o limite da linguagem cênica e para a irredutível necessidade antropológica, ontológica, epistemológica da presença do verbal na esfera da expressão. A presença da escrita é uma necessidade vinculada a essa do verbal, mas ambas não podem ser fusionadas, pois existe a especificidade do escrito em relação ao verbal-oral, o vocal. O verbal escrito difere do verbal vocal pela presença do aspecto gráfico. As conseqüências estéticas dessa diferenciação disso são vastas. As artes do verbal vocal e escrito tanto podem coincidir, como podem ser duas veredas bem diferenciadas.

A literatura sobrevive assim e renasce assim, neste início do fim do século 21, afirmando seu terreno no campo daquilo que se pode chamar plataforma 00. O 00 é o mínimo definidor do literário. O mínimo definidor do literário se ancora no caráter único da escrita como arte, por ser a única capaz de mimetizar ou re-apresentar a intimidade do pensamento, a reflexividade do pensamento, a auto-reflexividade do sujeito individual. Todas as outras coisas que eram feitas pela literatura canônica do século 19, na esfera do narrativo e do ficcional, são hoje em dia feitas em concorrência ou com vantagem pelas linguagens midiatizadas (aquelas que são perpassadas por imagem técnica) da civilização do simulacro. Para começar, uma narrativa cinematográfica ou televisual traz sobre a literária a vantagem da rapidez.

Resta-nos portanto a escrita, paixão perversa do eu. É por aí que se pode entender também por que o registro da vivência imediata tornou-se um clichê (mais um) na literatura contemporânea, a começar pela proliferação dos blogs, de São Paulo a Bagdá. É por essa redução ao mínimo comum multiplicável –  plataforma 00 – que se pode entender por que o fator autobiográfico (que alguns, corretissimamente, estão chamando de autoficcional) constitui o elemento mais vital na literatura atual. A literatura como fator de subjetivação, criação gráfica de um ponto de vista reflexivo sobre o mundo.

 

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No tópico acima, nisto que considero uma crônica, forneço duas definições em negrito do que se poderia ver como ensaio de uma pragmática da escrita literária em nosso tempo. Devo a segunda formulação aos reparos que me foram feitos no final da mesa-redonda. Fui cercado por pessoas de outras áreas que tinham ido assistir aos trabalhos do colóquio Rumos. Gente de teatro, gente de dança, gente de vídeo. Eles e elas questionavam minha definição do literário como mímese da interioridade da mente. Chamaram minha atenção para o fato de que em suas artes performáticas a interioridade de mente é projetada cênicamente. Tinham razão. A interioridade de nossas mentes possui duas dimensões igualmente importantes. Uma dimensão dramática, cênica (muito trabalhada por Freud) e uma dimensão lingüística (latifúndio do Lacan). A dimensão lingüistica é a dimensão reflexiva e auto-reflexiva. Ao pensar, estamos falando. É esta fala silenciosa da mente que a literatura, e somente a literatura, pode captar. Com base nos questionamentos do público, ao dar aqui forma escrita à minha fala de Curitiba, foi que resolvi propor a segunda formulação acima apresentada.

Haja gente bonita em Curitiba. São belezas caucasianas, de olhos claros, passeando de maneira pacata seus belos corpos formatados pelo trabalho, não por academias. Eu andava pelo centro velho da cidade chamando a atenção do meu amigo para tantos especimens raros que por nós passavam. Os automóveis não eram pacatos. Eram agressivos, contrastando com a calma olímpica dos olhos garços. Olhos que nunca se dirigiam a mim. Visão na rua Tibagi. O operário branco, de chinelas, calvo, carregando duas persianas. Celebração da forma. Grito imperioso. De brancura em mim.

 

 

 

 

 

 

 

Italo Moriconi escritor e professor. Autor de A Provocação Pós-Moderna (ensaio acadêmico, 1994), Ana Cristina César – O Sangue de uma Poeta (perfil biográfico, 1996) e Como e Por Que Ler A Poesia Brasileira do Século XX (ed. Objetiva, 2002). Organizou as antologias Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2000) e Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século (ed. Objetiva, 2001). Editou Cartas de Caio Fernando Abreu (ed. Aeroplano, 2002). Publicou 3 plaquetes de poesia: Léu (1988), Quase Sertão (1996) e História do Peixe (2001). Recentemente teve trabalhos publicados nas revistas Grumo (Rio/Buenos Aires) e Margens (Belo Horizonte/Salvador/Buenos Aires). E-mail: italomori@bighost.com.br

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