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Leda Tenório da Motta


A literatura de Machado não pinta o Brasil, mas a literatura
por Leda Tenório da Motta




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19/07/2008 22:31:00 
A literatura de Machado não pinta o Brasil, mas a literatura


Por Leda Tenório da Motta

 

         Que flanar pela Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, no tempo de Machado de Assis, era sentir-se francês.... é certo. As coisas já eram assim desde o começo do século, como mostraram muitos historiadores brasileiros, inclusive Sergio Buarque de Holanda, ressaltando que há um francesismo em vigor, na capital do país, durante todo o período joanino, quando produtos franceses de luxo começam a afluir para os nossos portos, e franceses em pessoa vêm para cá oferecer seus serviços.

         Isso explica certa abundância de franceses em Machado de Assis. Por exemplo, há um cozinheiro francês chamado Jean fazendo parte da criadagem na casa de Rubião, o mineiro solteirão subitamente enriquecido que é a personagem principal do romance Quincas Borba. Ele também tem um barbeiro, que também é francês e se chama Lucien. Sem falar que esta estranha criatura — talvez a mais estranha de todas as inventadas por Machado, embora continue totalmente eclipsada pela excitação geral em torno de Dom Casmurro — entra em surto, a horas tantas, e começa a se tomar por Napoleão Terceiro. É justamente nesse ponto que intervém Lucien, que é chamado para esculpir na cara de Rubião — já “ermo do espírito”, como escreve Machado, e posando ao lado de uma escultura de bronze que reproduz o busto do imperador, em toda a sua imponência —, um bigode à la Napoleão. Tarefa que ele reluta em executar, por preferir à cópia a criação, mas de que se desincumbe, sendo pago com uma nota de vinte mil réis, de que é convidado a guardar o troco, afinal, além de achar que é Napoleão, o louco é também aquele que joga dinheiro pela janela.

         Aliada à figura do louco, a figura do estrangeiro — o parâmetro do outro — é um prato feito para a sociologia da literatura machadiana. O caráter afrancesado do delírio de grandeza de Rubião é paródia do país atrasado e escravagista que quer pertencer ao mundo civilizado, lemos aqui. Isso nos alegoriza, lemos ali. Trata-se de uma sátira social extremamente aguda, encontramos acolá. A denúncia da nossa eterna alienação e do caráter eternamente postiço da nossa vida cultural, como diz o adágio.

         Tudo isso é interessante... repetitivo e... extra-literário. Se os grandes clássicos, mais que aqueles que são ensinados nas classes, são os que refazem, o tempo todo, sentido, por que não aproveitarmos o centenário da morte de Machado, quando todas as atenções se voltam para os sentidos possíveis de sua obra magistral, para ousar desatrelar os franceses e os loucos machadianos da tarefa de pintar o país mal-acabado? E por que não deixar de lado, por um momento, a história do Brasil e entrar na história da literatura?

         Temos bons motivos para falar de uma loucura pura e dura na obra do nosso maior escritor de todos os tempos. De uma loucura irredutível à doença do corpo social e, mesmo, a uma ironização dos cientismos oitocentistas — darwinismo, evolucionismo, positivismo —, ainda que saibamos o quanto Machado desconfiava deles.

         Se é certo que a boa literatura não é o remédio mas a doença, como pensam alguns, há loucos suficientes em Machado para nos mostrar o quanto o tema se acha aí investido à part entière, e para nos aconselhar a levá-lo, finalmente, a sério. Não se trata só da novela O alienista, onde Simão Bacamarte os persegue com “volúpia científica”, até que passe de perseguidor a perseguido, lançando a suspeita salutar de que, de perto, ninguém é normal. Na verdade, se Rubião é louco de pedra, seu mestre Quincas Borba é, no mínimo, fronteiriço. Já que é sujeito a alucinações, como vemos naquele capítulo das Memórias póstumas de Brás Cubas em que ele se transforma em barbeiro chinês e — espanto — na Suma Teológica de Santo Agostinho. É a razão pela qual é trazido um especialista para vê-lo — mais um alienista de plantão, mais um sujeito em estado de dissociação, — que sai dizendo que mais louco é quem o mandou chamar.

         Por outro lado, Machado é contemporâneo não apenas das primeiras nosografias psiquiátricas, mas de Freud. Ele escreve, assim, num tempo em que a suspeita do inconsciente e de seus processos está no ar. Além disso, definindo a psicose como um furo ou um branco que fica no lugar do não-reconhecimento da castração, com tudo que isso tem a ver com a diferença sexual, a psicanálise estabelece relações bastante diretas entre o desmoronamento psicótico e a homossexualidade.

         E temos tudo para suspeitar da homossexualidade de Rubião. Não só por conta de sua amizade com Quincas Borba, que ele trata com carinho, o agasalhando, lhe calçando nos pés os chinelos e o chamando de “querido”, enquanto, em troca, o amigo lhe deixa de herança todo o seu dinheiro, o seu cachorro e a sua filosofia humanitista (aquela cujo lema é “ao vencedor as batatas”). Nem só porque, logo que deixa Minas e se instala no Rio de Janeiro, este viúvo de Quincas Borba se apaixona perdidamente pela mulher do seu melhor amigo, o Palha, no meio de uma triangulação que fala por si só da confusão objetal que está em jogo. Mas porque é o próprio Machado quem se incumbe de nos pôr a pulga atrás da orelha, ao escrever que, em Minas, as pessoas estranhavam as maneiras de Rubião jogar com os braços e a cabeça, quando caminhava, o que faz sua comadre Angélica lhe dizer estas palavras, para ouvidos espertos e expertos sibilinas:“Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre!”. Palavras tão bem colocadas que parece que podemos ver daqui os trejeitos da criatura!

         E se estão igualmente certos os que pensam que o que há de transcendente na boa literatura é o nexo que ela estabelece com a tradição, até para poder continuar, também não nos faltam motivos para ver em Machado, mais que o observador do país afrancesado, um pensador da literatura francesa.

         A cem anos do desaparecimento do escritor, tudo está para ser feito neste terreno. O fato é tão mais surpreendente quanto, fora todo o séqüito dos humoristas ingleses que Machado reprocessa, e que tanto incomodaram os nossos críticos naturalistas do século XIX, para os quais a sua literatura não exprimia o Brasil tropical, vibra na letra do texto machadiano uma presença de Flaubert.

         Não é só que a labialidade do narrador de Machado sai direto do discurso indireto livre de Flaubert, um discurso em aberto, sem vínculos de autoria, em que todas as vozes se confundem, a daquele que diz e a daquele de quem se diz, o que faz desmoronar a centralidade da narração, impede de saber quem diz o quê, exatamente, e bem por isso, inviabiliza qualquer deslinde dos acontecimentos. Em Metalinguagem&Outras metas, Haroldo de Campos nota que foi isso que salvou Flaubert quando do processo por glorificação do adultério que lhe foi movido por ocasião da publicação de Madame Bovary, já que, dada a impessoalidade do texto-formulário que esse tipo de narração rende, nada lhe podia ser imputado. E acrescenta que vale o mesmo para o adultério de Capitu, tornado inextricável pela técnica flaubertiana de Machado, que torna ridículo o dedo moralista apontado, ora para a sua a sua cabeça, ora para a de Bentinho.

         Mais que a incorporação dessa ambigüidade absoluta, que lhe valeu ser chamado de gago por Silvio Romero, há em Machado cenas e cenas que também saem direto das páginas de Madame Bovary.

         O que há de genial em Quincas Borba é que este romance intertextual avant la lettre está cheio delas. É puro Flaubert aquela cena em que Rubião manda à mulher do Palha, em Santa Teresa, uma cesta de morangos, os “morangos do adultério”. E aquela outra em que, em pleno break down nervoso, ele invade a carruagem de Sofia, na hora em que ela está saindo de casa, e a obriga, para evitar um escândalo, a partir em sua companhia, seguindo ambos, então, numa cavalgada maluca, pelo Rio, que é a retomada, quase ponto por ponto, daquele momento de Madame Bovary em que Emma faz amor com Leon dentro de um fiacre, em desabalada pelas ruas de Rouen.

         Ao contrário do que poderiam pensar os incautos, não há nada de desmerecedor nem de atrasado nesse tipo de influência. Em artes, as idéias não têm lugar mas armam uma rede, uma logosfera. Quem não sabe que o romantismo alemão sai da leitura que os alemães fazem de um intimista abissal chamado Rousseau, enquanto que o romantismo francês tardio sai da leitura que os franceses fazem dos alemães, e que todos saem de Shakespeare? Quem não sabe que, além de prestar atenção nos românticos ingleses, Baudelaire assimilou Poe até o plágio.... etcetera... etcetera?

 

 

 

 

 

 

 

Leda Tenório da Motta é Professora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC SP, pesquisadora do CNPq, crítica literária e tradutora. Tem sete livros publicados, entre eles, Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século (Imago, 2003), Céu Acima - Para um Tombeau de Haroldo de Campos (Perspectiva 2005) e Proust - A Violência Sutil do Riso (Perspectiva 2007).

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