Café Literário Cronópios

Um livro aberto
por Rodrigo Velloso





 
Coluna:
MAHATMATHILDA
Mathilda Kóvak


Leonilson, Escher, anos 70, 80, 90... nas galerias e museus da Paulicéia Comportada
por Mathilda Kóvak




Yoko Ono agradece por CD de cantoras brasileiras
por Mathilda Kóvak




Jesus, a vingança
por Mathilda Kóvak




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por Mathilda Kóvak




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por Mathilda Kóvak




Barracobama ou Tem Branco no Samba
por Mathilda Kóvak




Das invasões cariocas ou A queda da Pastilha
por Mathilda Kóvak




Uma ducha de Duchamp and a glass of Wine...house
por Mathilda Kóvak







 


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Artur Matuck
07/07/2011 18:28:00 
Leonilson, Escher, anos 70, 80, 90... nas galerias e museus da Paulicéia Comportada


Por Mathilda Kóvak





Capítulo 1

Na década de oitenta, nós, os jovens – ai, que ódio! - de então, estávamos convencidos de que o Apocalipse não tardaria, que haveria uma hecatombe nuclear, que a peste – a AIDS!, a fome, as 10 pragas do Egito e umas outras tantas misérias humanas e desumanas nos varreriam da face da Terra e, portanto, nada mais nos restaria a não ser nos divertir e rir de tudo isto. A iconoclastia era uma ordem e pessoas originais eram festejadas e tachadas de gênio, e não de loucas. E, ainda que fossem tantãs, a loucura era um atestado de lucidez plena, que todos reverenciavam e respeitavam. Dizia, na época, o Coppola, em seu celebrado “Rumble fish”, na voz de Mickey Rourke: “mesmo nas sociedades mais primitivas, um louco deve ser respeitado.”

Depois, veio a Queda do Muro de Berlim, e o neoliberalismo neobabaca tomou conta do planeta de Norte a Sul, Leste a Oeste. A nau dos loucos de Foucault assomou no horizonte, e muitos de nós foram efetivamente lançados ao mar pela peste ou pela ditadura cultural, o politically correct, que mandaram nossa iconoclastia pro espaço. A guerra fria acabara. Já não contávamos mísseis no céu, mas encarávamos uma ameaça muito mais perversa: a sensaboria, a sobriedade, a caretice e a falta de imaginação. Os que sobreviviam à desgraça de ser sem-graça, como eu, sem querer me jactar, ou eram banidos sumariamente ou rotulados de cult, alternativo, underground, numa conotação pejorativa, mal-falados, ao invés de malditos, o que de fato éramos, com muito orgulho. Ou não éramos, porque desprezávamos estigmas, esteriótipos, ou qualquer marca que nos pudesse e nquadrar em qualquer categoria. “A geração 80 foi a última que teve raiva.”, disse uma de suas representantes, Ana Landim, advogada, livreira, diretora de arte, cantora... Sim, nós éramos, como também proclamava o ilustrador, ator, artista plástico, escritor (...), César Lobo, especialistas em generalidades. Os psicoterapeutas d´Antanho insistiam em nos encaixar em algum papel social respeitável, mas nossas cabecinhas feitas não conseguiam se adptar a nada, ao mesmo tempo em que queríamos tudo de uma vez, antes que o mundo acabasse. Porém, a democracia do mundo livre parecia ter vencido e nós, os que pularam a fogueira da virada dos abúlicos anos 90 para o anódino século XXI, constituímos prole, patrimônio, história, estórias, e uma tremenda frustração. Como declarou, recentemente, a artista plástica, outra contemporânea, Claudia Hersz: “aí, todo mundo vendeu a guitarra e comprou uma cuíca.”

Não apenas a guitarra. Tive que aposentar, temporariamente, meu complexo de Cassandra e domesticar meu tédio ortodoxo raivoso, que fazia rock `n` roll, vídeo – “vagabundo é a puta que pariu”, roteiros malucos, roupas que deixaram Kreutzberg, um bairro berlinense pleno de avis raras, de cabelos punks em pé, diante de meu mise em plis cubista e meu pijama listrado inspirado no Mister Needleman de Woody Allen, que dialogava com meu brinco de símbolo da paz extemporâneo – muito antes de todo mundo, eu já era retrô! – minha maneira esdrúxula de ser clown, de querer ser Lucille Ball, Dorothy Parker, Oscar Wilde, Fran Liebowitz, Groucho Marx, na vida, que eu sorvia e vomitava, numa dinâmica maníaco-depressiva, que os noventa – não venta! – marasmentos, anos aginomoto, classificaram de bipolar, quando, nos oitenta, foram o testamento de uma inteligência desgovernada que, em vez de suscitar estranheza, divertia e afagava corações aflitos, inquietos, sequiosos de prazer, ainda que o nosso hedonismo fosse autodestrutivo. Saudosa autodestrutividade, hoje, amansada por antidepressivos, que me fazem sorrir diante do nada de Schoppenhauer , melhor, ou pior, do choppinho gelado da bête époque, que foi esse início de século, no qual nem os foguetes prometidos na infância, nem as misses de penteado B-42, nem os mísseis esperados na juventude deram as caras. E o que nos deixou ainda mais passados foi essa nostalgia de um passado, que, quando ainda presente, nos agastava, entediava, revoltava e nos fazia rir e chorar de tudo, gozar a cara do establishment, do mainstream, do indie, do que quer que fosse, porque “só quem se distancia de sua época poderá representá-la.”

A despeito de fazer parte da geração coca-cola e National Kid, nunca acreditei muito no conceito de geração e sempre detestei a vida contemporânea, não importava a época em que ela se passasse. Entretanto, admito, do alto de meus 51 anos, bem e mal-vividos, para gáudio de to be experienced, cientista e cobaia, a um só tempo, que o nosso zeitgeist, ainda que poltergeist, tragando a gente pra dentro do monitor de TV, foi uma evolução da espécie. Havia vida inteligente em nossa imbecilidade. Nosso besteirol era cosmopolita. Passamos a infância na swinging década de 60, a adolescência, na mambembe década de 70, e abraçamos, por fim, a pós-modernidade. Yes, nós fomos os primeiros a assumir o pós-tudo, e dizer: “já que não há mais nada a se inventar, vamos misturar tudo no mesmo armário e criar um estilo de estilos, rock-do-crioulo-doido-prince, punkadaria d e Vivianne Westwood meets Malcolm McLaren, ou Humphrey Bogart meets John Lydon, ou Carmen Miranda meets Nina Hagen, ou John Waters meets John Wayne, Spike Lee meets me – eu sentei ao lado dele, então, um ilustre desconhecido, durante a projeção de “She´s got have it”!, no segundo Fest-Rio – Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, sem saber que ele era o diretor e o ator, então, desconhecidos, da película, até reconhecer meu vizinho de fila na tela!, David Lynch meets Almodóvar, e lá se vai a breguice riponga dos anos 70. Os anos 20 renasciam na nossa alma, tanto quanto ocorrera nos anos 60, quando assistimos a “2001-uma odisséia no espaço”, só que, desta feita, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Nossa geração sem rosto era cara de pau. Eu a detestei com toda a minha fúria grega. Eu a repudiei com todo o meu desprezo blasée. Eu a ridicularizei, com todo o meu witupiniquim. Atirei pedras, toquei fogo, amaldiçoei, falar mal era compulsório, o auto-deboche, compulsivo, não se levar a sério, uma lei de Newton, e, portanto, por não me inserir nela, por me distanciar dela, eu ora me sinto sua bastante representante, neste momento em que o mundo voltou a chegar ao fim, e nós voltamos à moda, que nunca seguimos, porque as fashion victims vieram depois, com seus bourgeois bohemian –BoBos- e correção neohippie sustentável, comida com bula, casamento gay e demais tentativas de transformar as pseudo-revoluções do que Zizek chama de capitalismo cultural, dos anos 60, numa receita que combina mysticism (nazi) and money, palavras doces de açúcar mascavo com automóveis utilitários movidos a óleo de cozinha, para poluir menos o meio-ambiente, que, no lugar de monóxido de carbono, deverá ter cheiro de fritura. Oh God, o nosso tédio era bem mais divertido que esses tempos Nívea Maria. Cloreto de sódio urgente! E um pouco de amargura, por favor, porque a amargura é a insulina do mundo hodierno, insosso e açucarado, sem glúten, mas pleno de glúteos.

A geração “panos quentes” também perdeu feio para a oitenta, no quesito coletividade. A década de 80 também foi a última com contornos de aglutinação. Os últimos anos que lograram assistir ao aparecimento de, senão movimentos, grupos que se alinhavam em torno de afinidades. Foi a época do chamado “do it yourself”, em que houve um boom de bandas, no lugar dos bumbuns de bundas, da década seguinte. Bandas de todo jeito e feitio pipocavam e espocavam sem cessar, no lugar de carreiras solos e stars individuais. O individualismo ferrenho veio depois, com os yuppies , BoBos e sua ideologia cada um por si e o Dalai Lama por todos.

Contudo, graças a Allah, dois aviõezinhos derrubaram outro muro, Wall Street, e o que o mesmo Zizek, que se encontra a um passo de virar pinup, por sua vez, afirma com muita razão, mesmo que curtido no varal dos mass media, ser a verdadeira utopia. O neoliberalismo se provou um neoengodo, deixando os crédulos tontos e os profetas niilistas com um sorrizinho nos lábios, com a expressão clássica de uma vitória cáustica, que rebate: eu não avisei?!

Por ter sido sempre muito pessimista, o mundo nunca me decepcionou. E, ao mesmo tempo em que lamento o desaparecimento iminente de nosso gênero, minha vaidade de visionária míope, como me chama o meu amigo, o crítico Carlos Calado, também integrante da big band de nossos eighties demolidores, dizia, minha vaidade de vidente diletante me faz arreganhar os dentes, à la gato de Cheshire, e completar: “wake up, Alice!”.

Diante da constatação de que, afinal, estávamos certos, quando não críamos nas boas intenções do homo sapiens, peço passagem para visitar meus contemporâneos, numa excursão à belíssima exposição “Sob o peso de meus amores”, que reúne obras de Leonilson, poeta, pintor e multitalentoso artista da Geração Oitenta.

Encontrei-me com o igualmente multitalentoso, Pipol, expoente de nossa leva, lavra e, por que não dizer, lava vulcânica, no café do Itaú Cultural, onde conversamos sobre aqueles nossos tempos, lembrando, com saudades, dos anos 70, em que usávamos o pirógrafo, para decorar objetos produzidos nas aulas de trabalhos manuais, do colégio. Neste mesmo dia, ainda iríamos visitar Escher, que foi moda naquela década – de 70, exposto no CCBB, numa das maiores mostras de sua obra singular. Então, parece que estávamos tomados pelo espírito daquelas duas décadas, que tivemos a sorte de vivenciar, na adolescência e juventude.





Findo o café, iniciamos a aventura pelos três pavimentos ocupados pela obra de Leonilson. E qual não foi a nossa surpresa ao nos vermos diante de ambientes de madeira clara, sobre a qual delicados letreiros explicavam a mostra, cunhados a...sim, pirógrafo. O inconsciente coletivo existe! E, antes da internet, era ele que nos reunia em idéias recíprocas, Leonilson queria ser o Bispo do Rosário. Porém, ao contrário do sergipano pobre e louco, Leonilson pertencia à elite cearense. Seu mergulho na loucura não foi tão fundo. Mas deixou alguns registros de matizes oceânicos, em que, peixe profundo, como Luis Capucho, outro egresso da miséria, se perdeu, antes de alcançar as profundezas, possivelmente, atordoado, sem saber que os seres que o cercavam, de fato, viviam na superfície. “Os peixes da superfície são os que comandam.”


(continua na próxima semana)



                                              * * *

Mathilda Kóvak é escritora, compositora, roteirista. Tem seis livros infantis editados e um sétimo no prelo - Rocco, além do livro "Contos da Era do Fax", Ed. Mondrian, e o CD "Mahatmathilda, a evolução de minha espécie". E-mail: madmath@uol.com.br

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