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Coluna:
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Artur Matuck
06/07/2012 17:41:00 
Os livros são também instrumentos do esquecimento?


Por Artur Matuck


Nós somos os escritureiros!” Já na viagem de ônibus, encontramos o grupo agitado de jovens falantes e bem humorados e ficamos sabendo que estariam na FlipZona “que é uma zona, mas muito bem organizada!”

Os `escritureiros`, como se auto proclamam, são mediadores de leitura que querem um ‘Brasil leitor’, vivem em Parelheiros, sul da cidade de São Paulo. Fomos vê-los, fazem parte do Literasampa (literasampa.blogspot.com.br), o rapaz Renan e a menina, e não paravam de falar sobre suas inúmeras atividades: a casa que restauraram com tinta de terra no Cemitério dos Protestantes, cedido em comodato; os eventos de leitura criados com uma bolsa de pano, que traz os livros e então se abre para tornar-se um tapete no chão e permitir que os jovens sentem e leiam. Parelheiros é um distrito plural, nos mostram - comunidades de descendentes de germânicos e japoneses, e índios guaranis que vivem em suas reservas.

Um tanto para provocar perguntei sobre o poder da escrita sobre a oralidade; quando morre um velho na África, dizem que uma biblioteca desapareceu, lembrei. E também que os indígenas brasileiros não tinham escrita; que as culturas orais deveriam ser valorizadas, que o vídeo poderia ser um instrumento, e lhes perguntei de onde veio o conhecimento da tinta de terra que usaram para restaurar a casa com entrada independente ao lado do Cemitério.

- “Dos oficineiros”.

Não explicou muita coisa, mas indicou de certo modo que sim, aquela sabedoria não havia vindo dos livros, mas de profissionais que se lembram de ofícios.

Responderam ainda que pretendiam, sim, recolher depoimentos e trabalhar a preservação da memória coletiva, registrando as palavras dos mais velhos, dos esquecidos, dos pobres, dos analfabetos. Entendiam perfeitamente o que estávamos discutindo e se dispuseram a refletir ali e então.

De qualquer modo, a indagação nascida na FLIPZona e no debate com os jovens ‘escritureiros’ de Parelheiros, pode ser dirigida à toda FLIP, à Casa Azul, ao governo do Rio de Janeiro, aos intelectuais colonizados de todo o Brasil que preferem palestras em inglês, yes, à nossa anuência tácita com a perda da língua geral Nhengatu que falada por tanto tempo por tanto gente é hoje desconhecida em todo o Brasil, permanecendo calada nas toponímias da cidade de São Paulo; e de modo geral a todos aqueles que amam os livros mas se esquecem da magia da escuta e do aprendizado colorido que surge quando conversamos ou olhamos as pessoas imaginando-as como bibliotecas nômades, conduzindo narrativas, memórias remotas e recentes, estantes de palavras que soam e voam ao menor sinal de interesse, ao menor gesto de escuta.

Não seria um sonho se o `Museu da Pessoa` fosse mais ouvido? Não seria um sonho se a FLIP e os ministérios de todos os tipos, ouvissem e acatassem a sabedoria das comunidades sem escrita, se o conhecimento acumulado por séculos na América e na África tivesse reconhecimento do mesmo modo que aquele publicado, editado e vendido por editoras? Não seria um sonho realizado se as editoras iniciassem a produção de livros em áudio e vídeo que registrassem a voz daquelas que vão logo desaparecer e levar junto tantas memórias, saberes, músicas, linguagens, jeitos e trejeitos? Deste jeito, aqueles sem escrita ou leitura poderiam começar novamente a ouvir e trabalhar na teia da transmissão.

Sim, a voz e a escuta ensaiam um retorno na FLIP 2012; assim Mari Pini me disse que na emblemática última mesa, Livro de Cabeceira, os escritores são convidados a ler em voz alta, recuperando um costume antigo, anterior ao vazio das bibliotecas, à leitura silenciosa e individual; na ultima mesa finalmente, tenta-se o retorno a voz, mas muito tímido, como se dissessem, “sim, os escritores também falam”. Por outro lado toda a FLIP é esta demonstração gritante, falante de que os escritores que encontramos mudos nos livros e nas fotos têm uma voz, um rosto, uma personalidade como todos nós. A Mari me alertou que esta última mesa é massa, que ficamos ansiosos por copiar rapidamente o que ouvimos antes que cheguem novas frases.

A voz teve também uma presença intensa na cena teatro imagística de Sura Berditchevsky interpretando “Cartas de Maria Julieta & Carlos Drummond de Andrade”. Sura cumprimenta a todos e antes de iniciar seu périplo epistolar relata que encontrou Pedro Drummond, filho de Julieta, que ‘nasce’ durante a peça, que lhe falou das cartas entre seu avô e sua mãe, enquanto ela respondia com sua busca por algo para encenar. Deste encontro fortuito nasceu sua interpretação das cartas que Carlos pai, em licença poética, e sua filha Maria Julieta trocaram por várias décadas.

Tornamo-nos testemunhas de um espaço familiar no qual crescem uma menina e um poeta, alimentando-se um ao outro, das emoções e mistérios que a vida e a distância proporcionam. Ouvimos vozes saltarem de cartas que permaneceram silenciosas, guardadas em pastas por muitos anos, até que a força da criação artística inventa vozes para palavras que só existiram em envelopes e nos olhos de poucas pessoas. E estas vozes estão em São Paulo, no teatro Eva Hertz, aguardando para serem ouvidas, anuncia Sura ao final.

Outras manifestações da palavra falada ecoaram e vão continuar ecoando pelas margens do rio, pela ponte, pelos estandes, mesas e calçadas: “Dona Maria, escute a poesia, eu vendo pó ... pó ... pó ... poesia”, sugerindo manhosamente que as drogas estão mudando de feição, que nas festas populares já podemos nos embriagar e viajar com outras substancias que afetam nossa consciência sem perturbar nossos sentidos.

Ou a manifestação dos caiçaras que reclamam de decisões políticas que podem expulsá-los de suas terras, dizem seus cartazes que não se pode impedir um pescador de pescar; claro, é preciso investigar e saber mais, mas ao menos as centenas de turistas puderam ter contato com a população caiçara, que mistura índios, negros e portugueses, porque nos monitores parece que só vão surgir mesmo avatares da raça branca, a não ser Teju Cole, que escreve sobre Nova Iorque. Pudemos ter a sensação inquietante de ver e ouvir agitadores enérgicos não-violentos de cor escura ao megafone reclamando seus direitos.




E já que a FLIP anuncia mudanças, bem que poderíamos pensar as pessoas como livros, como inesgotáveis fontes de conhecimento, sabedoria, linguagem. Seria uma decisão política corajosa, rever o lugar da voz, assinalar a fala como texto, o corpo como documento, a pessoa como centro, implicando que o texto final é, quer queiramos quer não, o espaço do consagrado, o documento de um processo dominante, das forças que enaltecem o conhecimento mas que também forçam ao esquecimento aqueles que não tem o poder de escrever, imprimir, disseminar e que não devem permanecer calados ou relegados. Falem, ouçam, megafonem!




                                                * * *


Artur Matuck has been teaching Communications, Media Arts and Literature at the University of São Paulo, Brazil, since 1984. He has worked as writer, visual artist, video producer, performer, art historian, media designer and philosopher. He has been delivering conferences and workshops worldwide. He has exhibited in several São Paulo Biennials. In 1990, he completed a history of video art and interactive television published in Brazil as The Dialogical Potential of Television. During 1991, he conceived and produced Reflux, a pioneer worldwide project on netcollaboration. In 1995 he started experimenting with text-reprocessing software. Landscript, his text-reprocessing site was featured at the 25th São Paulo Biennial International in 2002. He has been coordinating, since 2001, the international symposium Acta Media, on media arts and digital culture, at the University of São Paulo. He has also founded the Colabor Center for Digital Languages conceived to integrate student and faculty research through computer-mediated collaboration. His most recent work involves theoretical and philosophical research on media languages as they relate to thought evolution and human rights in a digital age.
Site: http://www.colabor.art.br/arturmatuck/ E-mail: arturmatuck@gmail.com

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