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04/06/2005 01:18:00
Nobres amantes



Por João Batista de Brito





A vida é luta renhida, já o sabia o poeta romântico. E nessa luta, às vezes são necessários os golpes baixos que justificariam a lei de Gerson: levar vantagem em tudo. Quando se trata de sobreviver, parece que a ética passa para o segundo plano.

Se na vida em geral é assim, imaginem no terreno amoroso. Aí é que todo golpe baixo vale, se o objetivo é você ficar com o ser que ama. Com a vantagem de que, neste caso, você tem o legítimo e natural sentimento do ciúme para amparar a sua falta de ética.

No cinema, quantos filmes já não tematizaram essa problemática, mostrando personagens que só faltaram matar para ficar com o ser amado. Ou que efetivamente mataram, como é o caso extremo daquela terrível protagonista de Amar foi minha ruína (Leave her to Heaven, 1944, de John M. Stahl), que assassina um parente paraplégico, e depois, o próprio filho, somente para ter o marido só para si.

Talvez porque a regra verídica seja esta, a do egoísmo, talvez por isso mesmo a gente se impressione tanto com filmes que desenvolvem o argumento contrário, digo, com filmes que descrevem a nobreza de espírito de pessoas que, para o bem do ser amado, renunciaram à realização de um grande amor.

Eu pelo menos lembro-me de três grandes filmes, com significativa resposta de público, em que amantes apaixonados praticam o gesto nobre da renúncia: Casablanca (1942), Os brutos também amam (1953) e O homem que matou o facínora (1962).

Realizados em décadas diferentes (40, 50 e 60, respectivamente), por cineastas tão diferentes quanto o aventuresco Michael Curtiz, o romântico George Stevens e o telúrico John Ford, estes filmes têm, de fato, um esqueleto narrativo comum: nos três, um homem apaixonado deixa, para um rival respeitado e admirado, a mulher que ama.

Este argumento não é, naturalmente, desenvolvido da mesma forma nos três filmes, que já se diferenciam no gênero - um “filme de amor em tempo de guerra”, e dois westerns -, mas, mesmo assim, as variações são pequenas. Vejam como em Os brutos há, sim, uma “guerra” entre latifundiários e rancheiros, e em O homem, uma outra entre os cidadãos comuns e o bando arruaceiro de Liberty Valence.

Em Casablanca o amor entre Rick e Ilsa Lund está explicitado e há até um flashback parisiense para descrevê-lo. Em Os brutos o caso amoroso entre a senhora casada Marian Starret e o forasteiro hospedado Shane não podia ser mais sutil e só se revela por olhares e gestos. No caso de O homem, embora o filme comece pelo final, com Ranson e Halley casados e idosos, ao tempo do triângulo amoroso (formado com Tom Donovan) não há sequer palavras de amor trocadas.

Os três filmes embaralham o tempo de modo diferente, porém, de alguma forma, o “grande gesto”, a sublime renúncia, só acontece no final, ou, pensando no filme de Ford, só nos é revelado no final.

Nesse sentido, podemos dizer que aquelas três cenas famosas que, em cada filme, representam esse gesto sublime, se equivalem semanticamente e constituem, para nós espectadores, um plotpoint, ou seja, uma virada no enredo, repleta de conteúdo dramático e de natureza surpreendente.

No aeroporto de Casablanca, para surpresa de todos nós, Rick explica a Ilsa que ela vai tomar o avião para Lisboa com o marido, e que eles, bem, eles sempre terão Paris como lembrança romântica, para o resto de suas vidas. Também para nossa surpresa, Shane escapa, às escondidas, do rancho da família Starrett em direção às montanhas geladas, embora o garoto Joey o persiga gritando o que a gente sabe: que “mamãe o quer, eu sei que ela o quer”. A mesma surpresa temos nós ao revermos o duelo entre Ranson e Liberty Valence numa rua de Shinbone, recontado pelo próprio Tom Donovan (John Wayne), que escondeu-se numa esquina escura e atirou primeiro, deixando para o seu rival, duas coisas: a fama e a mulher que ele, Tom, amava.

Neste momento em que escrevo ocorre-me que essas três cenas são noturnas. Coincidência, ou a fotografia escura exprimiria melhor que a luz do dia a angústia de renunciar?

Outro dado que me ocorre é que os nossos três “renunciantes” são homens, o que torna o efeito, com certeza, muito maior, pois, num mundo machista como o nosso em que, para qualquer marmanjo, amor é posse, a decisão da renúncia é muito mais dramática.

No nosso imaginário de espectador não podemos deixar de nos interrogarmos sobre os paradeiros dos nossos “nobres amantes” depois que os filmes terminam. Rick se afasta de nós em companhia do delegado de Casablanca, com uma observação cínica sobre o início de uma longa amizade. Shane cavalga as encostas íngremes das montanhas e desaparece no horizonte. O único cujo destino nos é dado é esse Tom Donovan, que vemos morto no final do filme, com uma flor de cacto sobre o caixão, depositada pela mulher que não teve, mas mesmo assim, isso não impede de nos indagarmos sobre como pode ter sido sua vida nesse ínterim que nos foi sonegado.

Por que será que gostamos tanto desses filmes? Seria porque os seus heróis são tão maiores que nós mesmos? Seria porque sabemos que nunca estaremos à altura de seus gestos e, ao mesmo tempo, sofremos e gozamos com essa verdade?

Outra pergunta, esta de ordem mais contextual: de onde será que advém o perfil moral desses nobres espíritos masculinos que preferem que as suas amadas sejam felizes ao lado de outro, a sofrerem consigo? Dos códigos de Amor Cortês que nos legaram as novelas de cavalaria da Idade Média, quatrocentos anos atrás ridicularizados por Cervantes, e no entanto, teimosamente ressurgentes? A investigar.

Em tempo: esta matéria é dedicada ao poeta Antônio Morais de Carvalho, que, sem querer, me deu o mote.














 

João Batista de Brito é crítico de cinema e escreve no Correio das Artes da Paraíba. E-mail: jbbb@openline.com.br

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