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22/11/2007 16:30:00
O Livro das Sombras



Por Márcio Almeida

 

O LIVRO DAS SOMBRAS é, sem sombra de dúvida, referencial na produção poética contemporânea

 

 

 

         O livro de Leo Mackellene tem referenciais qualitativos que o distingue na produção da poesia atual. Ao escrever pretextualmente sobre sombras, torna o tema incluso à emblemática de o mesmo ser objeto de reflexão de centenas de autores hodiernos, em todas as artes e partes do mundo, com raízes desde mitologemas cosmológicos e cosmogônicos, a uma fenomenologia bachelardiana, à intertexualidade sob a (des)construção de um hipertexto às linguagens renovadoras dos topoi poesia/poeta/poética/vida.

         O tema sombras está presente em pelo menos 2 milhões e 700 mil páginas da internet. Do mito bíblico sob a imagem da alegoria à pós-modernidade, o tema intitula obras em profusão. Há o documentário escatológico “À sombra das torres ausentes”, de Art Spiegelman (Companhia das Letras), os romances “Sombra severa”, do premiadíssimo Raimundo Carrero, e “A sombra de Heidegger”, de Jose Pablo Feinmann (Editora Planeta). Há o filme “Noturno indiano”, de Tabucchi, influenciado por “El otro”, de J. L. Borges; o livro cada vez mais descoberto “Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros”, coordenado por Bráulio Tavares (Editora Casa da Palavra); a série “Sombra”, da Editora Childrens Circle, com ênfase na desconstrução do medo de bruxa na literatura infantil; o vídeo de A. R. Rosa “As minhas sombras inquietas incendeiam-se nas vertigens das palavras”; o texto zen “Gato azul”, de Hagiwara Sakutaro, poeta japonês recém-descoberto pela revista eletrônica Confraria, sobre a sombra de um felino que narra a louca história  dos homens. Há um saite com o nome “Um buraco na sombra.” Como há livros como “Diálogo com a sombra”, de Kalil Worshiper, “Luz e sombra”, da capixaba Maria Antonieta Tatagiba, “O umbral da sombra”, de Nuccio Ondine, “A sombra sobre Lisboa”, vários autores (Editora Saída de Emergência), “Alusões para a sombra”, de Fernando Monteiro (Editora Recente), “A sombra do vento”, de Carlos Ruiz Zafón, vencedor do prêmio Correntes Editora, em 2006.

         Entre revival editorial e releituras constam: “A sombra das raparigas em flor”, de Marcel Proust, com tradução de Mário Quintana, “O corvo”, de E. A. Poe, que “urdia sombras desiguais”, “Mito e sombra”, de Rosalía de Castro, que trata da sombra como valor cultural de um povo que se nega a abandonar a terra quando morre; “Monólogo de uma sombra”, de Augusto dos Anjos, “A sombra da outra: a amante na literatura dos séculos XIX e XX”, como “Encarnação”, de José de Alencar e “A intrusa”, de Júlia Lopes de Almeida; “Arpa y la sombra”, de Alejo Carpentier, o trabalho com a palavra num arco hermenêutico; “A sombra”, conto de Hans Christian Andersen, em tradução de Guttorm Hanssen, com a história do homem que nasceu sem sombra; “Sombra de D. Juan”, de Álvares de Azevedo, “Elogio da sombra”, fotos e divagações de Mário Venda Nova, além dos lançamentos recentes de “O homem e sua sombra”, de Affonso Romano de Sant´anna, “Não feche seus olhos esta noite” (Rocco), de Maira Parula, “Sombra”, de Lídia Jorge (Editora D.Quixote) e “A sombra dos homens”, de Roberto de Sousa Causo.

         Mackellene, por sua vez, pensa a poesia constituindo um corpus de  elementos axiais, notadamente composto por aforismas sobre a palavra, o poeta, a árvore, o silêncio, a beleza, todos envolvidos numa tessitura analógica. E esse trabalho reflete a dicção de Jorge de Lima e Gaston Bachelard.

         O livro das sombras permite uma taxionomia desses focos conceituais, cujo conjunto materializa o pensar poético e a conditio humana como metáfora de si mesma. O poeta insere no prólogo o cenário epistêmico de sua poesofia e, de modo liricamente provocativo, anuncia: E depois de um longo silêncio – em que nos vasculha – [a poesia]  diz - veremos do que você é capaz.´E o “ser capaz”, no caso, subentende revitalizar o sentido da vida e da poesia mesma, após a releitura dos desafios da palavra em estado de linguagem: O poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?, rememora Jorge de Lima, para corroborar a tese bachelardiana e mítica de que toda metáfora é uma alquimia – toda metáfora é um mito renascendo em um mundo inteiro reinventado no qual a palavra é o limite – as coisas são idéias – a verdade é apenas a verdade das palavras – uma vez que a reinvenção do mundo – e da própria poesia – é ressignificar as palavras (8,9).

         Há algo de epifânico, da cosmogonia de Vico, da física relativista, do referencialismo agônico de Blake, da idéia de arkhé e de princípios inaugurais constitutivos da experiência da palavra poética, como na “Teogonia”, de Hesíodo, entre a revelação (alethéa) e o esquecimento (lesmosyne).

         Note-se, a propósito, a analogia permeável entre o sentido da sombra em Mackellene (o presente é a eterna repetição do que somos, 48) e a metáfora sombra no “Primeiro livro de Urizen”, de Blake: “Ditai-me, palavras aladas e velozes, sem temor de revelar vossas visões sombrias de agonia” – “sombra que em si mesma contempla – em trabalhos ingentes ocupada” (7,11).

 

Pensar o criado para vitalizar poesia

 

         Mackellene compõe seu pensar poético refletindo na vertical sobre os componentes desse desafio:

Palavra

         A palavra. Ela é o limite. É a pele, a película que nos separa das coisas (8). Reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras (9).

         É a palavra que nos salvará – É o verbo que nos há de curar – por dentro, minha querida, por dentro – por isso penetra pelos sentidos – e fecunda minha boca, meu punho – se perpetua no que eu imagino – (...) – A palavra é o mundo em miniatura (13).

         A palavra é uma punição dos deuses – O verbo deve ser sacrificado – (...) – a palavra é sempre uma condensação de silêncios (31).

         As palavras são árvores de sentido- a palavra é a semente de todas as coisas (32).

         A palavra é uma flor negra que se abre – raiz de uma árvore secular – que não pára de pulsar, – a se expandi         e a se curvar (36).

         A palavra é a morada dos espíritos – (...) – É aqui – primeiro no papel, depois em ti – onde a palavra semeia seu universo (38).

         A palavra é a morada dos espíritos (38).

         Dancemos – que a palavra é um passo de dança! (39).

         Entre uma palavra e outra, - abismos. – Quando o poema termina, - precipícios (40).

         A palavra é um navio que se perde (42).

         Cada palavra é uma pegada (48).

 

Poesia

         Nos curamos com poesia – nos construímos, nos conectamos pela poesia (12).

         O que eu procuro com a minha poesia, disse eu, - não é o belo. – Nem é ela o próprio belo. – O que eu procuro – é a cura(36, 7).

         Minha poesia é para encontrar a saída (37).

          A poesia ainda é um destino (39).

         A poesia é um caminho que se desfaz (42).

         A poesia é inevitável (39).

         A poesia é absolvida (47).

Poema

         Motim é fazer poemas (apud Mardônio França, poeta de Fortaleza, (22).

         Todos os poemas são profecias (23).

         O poema é o abrigo do poeta – São os poemas que ocultam – a vida subterrânea de todos os segredos (38).

         Não se pode escrever o último poema – o último poema – é morrer (42).

         Guardo em mim – o último poema. – Enigma jamais revelado (47).

         Cada poema, um rastro” (48).

Poeta

         Nós, os poetas – é que somos os alquimistas; - verdadeiros alquimistas – das possibilidades. – Filósofos da incerteza, - cultivadores da dúvida (10).

         Somos nós, os poetas, - que manipulamos as idéias, - convergimos as palavras, - submetemos os significados, - modificamos a eterna esfera do medo. – Somos também os únicos culpados de tudo (...) –  Somos aqueles que regressaram à fonte – ao templo original, o corpo  (...) (10, 11).

         O poeta é pra encontrar outra forma de existir. – O poeta é pra fazer justiça com as próprias mãos (14);

         Um poeta é para ver o que virá – (...) – O velho poeta anda cansado (26).

         O poeta junta-se ao Rei, - durante a noite (27).

         O poeta de pés descalços – lê, em cada palma de folha, - a História (...) – (30).

         Ele aprende que a palavra é uma maldição. – Um poeta é guia de todos os destinos (31).

         O poeta é o abrigo da poesia – O poeta sonha em Anagrama, - a única língua que ele fala e escuta. – O poeta entra pelo caminho – e a senhora destino segue a debochar de si (32).

         Com destino, - o poeta senta-se à mesa – e devora-se (35).

Silêncio

         O subtítulo: O livro dos mais pequenos silêncios (capa).

As coisas não são mudas, - tudo apenas silencia – e nós – traduzimos esses silêncios – o tempo todo. – Somos todos um porta-voz – do amor que as coisas têm (13).

         Ouve a respiração ofegante das folhas – donde soa – em ebulição – o silêncio (16).

         As árvores guardam o mundo – e testemunham a História – em penitente silêncio, - em paciente entrega (20).

         O silêncio é uma árvore que cresce sorrateiramente (25).

         O poeta junta-se ao Rei, - durante a noite, - em silêncio profundo, absoluto, - um silêncio fecundo (27).

         A folha do silêncio é branca. E cada palavra é uma ilha cercada de silêncio por todos os lados (apud Carlos Emílio Corrêa Lima, 28).

         Silenciemos. – Só o silêncio tem o poder de dizer a verdade (31).

         Espera! – Que o silêncio pede licença. – O silêncio é um anjo que não se pode tocar – velho mensageiro do impossível... (33).

         Os poetas vivem em nós – como fantasmas – numa casa abandonada (38).

         É o poeta quem rompe o silêncio (39).

Beleza

         A beleza do mundo – é continuar e continuar e continuar... (12).

         ... porque toda beleza é triste e só (14).

         Beleza que não cabe – se rebela – trêmula enfurecida (subterrânea marés) (16).

         Mas a beleza é desconcertante – A verdade – o estágio mais alto de toda beleza  (19).

         A beleza ainda é um destino. – A beleza ainda é um poder (20).

         A miséria que criamos é um insulto à beleza das coisas (24).

         ...a beleza é um segredo íntimo da natureza das coisas (38,9).

Árvore

         Todas essas espécies de árvores que existem – a leucina, - a palmeira, - a mangueira, - a perfeita, - não são outras árvores – são as mesmas – a mesma espécie arbórea. – É sempre a mesma árvore – que respira e observa – a caminhar – como um único organismo (17).

         As árvores guardam o mundo – e testemunham a História – em penitente silêncio, – em paciente entrega (20).

         As árvores são eternas – (...) – caminhando, vem e vão. – Vão tramando a insurreição (22).

         As árvores gritam através de seus pássaros (23).

         As árvores se reúnem à noite, - e decidem o destino dos homens (25).

         E em nós que as árvores se enraízam, - em silêncio, - enquanto lemos. – Ler – é ser fecundado pelas árvores. – Há um sono de floresta dentro dos homens (26).

         Uma árvore é um corpo que dança (27).

         ...as árvores recomeçam o mundo (30). 

         Árvores dormem na palavra escrita (32).

         A folha caída, - arrancada da velha árvore da poesia mal dita (47).

         A árvore – é um sábio pensando. – A Terra está prenhe de Cantos (50).

E a síntese: Eu sou o último galho – o que sobrou... – e aqui estou – sob a sombra dessas árvores e dessas plantas – entre as dobras dessas páginas brancas, -  vivendo secretamente em ti (46).

 

Culpa da árvore?

 

         A leitura de O livro das sombras estrutura-se com esses focos e dois deles são particularmente interessantes no posicionamento da diferencialidade do autor. O primeiro concerne à assertiva, já no prólogo: Somos também os únicos culpados de tudo. O mundo inteiro é culpa de quem imagina, não de quem vive (11).

         Quem são, de fato, os culpados? Por que existe uma culpa? Por que imaginar, e não viver, conduz à culpa? Seria o casal adâmico (Desde o princípio foi Adão e a erva!, 34), de vez que o livro é, no fundo, um elogio lírico à insurreição/ressurreição da vida, da poesia, de um caso amoroso? Seria Mackellene um Goethe pós-moderno?

         Nesse contexto culposo há uma cosmovisão barroca: a culpa pela imaginação, pretexto para o exercício poético com desenvolvimento de jogos de imagens e conceitos, como em Gregório de Matos.

         Culpa: o poeta tem consciência de que a poesia tem culpa pelo imaginário (ir)real da vida; pelo que a palavra se obriga fragmentar do “todo reconstruído”; pelo que a palavra arrasta quando arresta e quando arreta em busca de vigência no futuro, ainda que seja o silêncio fecundo. Isto porque, diz Maria Tereza Selitre, “a poesia é dom de espanto, de perpétua descoberta; liga-se a todas as experiências da vida, ilumina e metamorfoseia as mais habituais, destacando dessa experiência o que ela tem de essencial.”

         Pode-se, portanto, corroborar o axioma de um filósofo, que diz: “A poesia nos vinga, por não sermos Deus.” Há um pouco da culpa apocalíptica de Murilo Mendes em Mackellene. Como, também, um pouco de Nietzsche.   

         Há uma culpa em função ou em razão da responsabilidade pelo que o texto desautoriza; a impotência pelo que a palavra/o texto/o poema é capaz de “sobrevalorizar as alusões e tomar como valor estético, filosófico ou de outra ordem, o que é mero adorno ou impostura”; “o risco fatal de construir um texto que não existe” (Júlio César B. Gomes).

         O que O livro das sombras evoca é uma culpa sem expiação, contra o coitadismo infundido pela religiosidade monoteísta e dogmática; não a culpa que pede absolvição, mas imaginação para recriar a beleza, porque, diz o poeta, só germina a semente apodrecida (46).

         Culpa: a consciência da realidade profunda do universo entre duas forças antagônicas: aqui que temos e amamos – entre o amor e o medo – intersecção do que temos e do que perdemos (11).

         Culpa pelo fato de o poeta ser um mal intravenoso, visceral como um coágulo no mundo, um tumor maligno dentro das veias do tempo (11), mas, também, por ser um óbulo, que pelo étimo grego significa “         que aconselha sabiamente.” E o poeta o faz: Um poeta é guia de todos os destinos. – Acima de ti, nenhum profeta. – Só confie nos deuses e nos poetas (31) – Presta atenção, - que as palavras são árvores de sentido – que a palavra é a semente de todas as coisas. – Deixa que a palavra te leve, - que ela é um barco que navega sem leme (32) – Para ver as estrelas mais sutis – é preciso confiar no escuro. – Te mostro minhas mãos, meu amor! – as mãos é que dizem quem somos (37) – Aprende que a beleza é um segredo íntimo da natureza das coisas (38,9) – Ler é caminhar (41) – Só há um destino possível: o lugar onde nascemos, a fonte (49).

         O sentimento de culpa apregoado pelo poeta pode se dar também em razão da insuficiência do eu entregue a si mesmo, o que leva o vate “a querer completar-se pela adesão do próximo, substituindo os problemas pessoais pelos problemas do mundo”, como Antonio Cândido leu em CDA.

         Este foco enseja reflexão alusiva ao que Dany Dufour chama de “os extravios do indivíduo-sujeito”, onde analisa a nova condição humana com base em “a essência do neoliberalismo”, de Pierre Bourdieu. Nessa vertente filosófica, o sentimento de culpa se justifica pela fratura da modernidade, com o esgotamento e o desaparecimento das sagas de legitimação, a transmutação das estruturas coletivas e à transferência para o sujeito falante de uma definição auto-referencial em meio às democracias de mercado.

         A culpa pelo fracasso desafia a sobrevivência. O eu derruído, antes locus da auto-identidade estável, analisa Vladimir Safatle, agora está exposto à retórica do consumo, à “imagem de um corpo reconfigurável” que faça parte do imaginário contra a “forma vazia da reconfiguração contínua de si”, de modo a imaginar a possibilidade de se resgatar o “agradável gozo da vida” proposto por Kant.

         A culpabilidade por certo que inclui, no viés psicológico, o “transtorno do pânico” gerador do freudiano mal-estar da civilização, a partir da condição de desamparo do sujeito no mundo. Donde o sujeito poético, ôntico, primordial  e contextualizado num eterno retorno forjar “uma identidade imaginária que parte de si para si, o que causa o impacto de uma falsa realidade, sem poupá-lo, e, por extensão, o poeta, da dúvida e da incerteza, cujo extremo leva ao congelamento dos afetos e da reflexão. A poesia opõe-se a esse estado de morbidez compulsória.

         É o vazio captado por Mackellene e por ele enfrentado com a força do imaginário para vencer a idéia de o poeta ser “figura de servidão.” O poeta, por isso, defende o paradoxo de a culpa localizar-se em quem imagina, não em quem vive, como se por vivência todo ser humano já estivesse condicionado às dores do mundo (13), esse mundo que é inteiro uma insinuação (19) e no qual a natureza das coisas se levantará contra nós, – que somos a morte suprema de todas as coisas (24).

         Contra a culpa, propõe o poeta, é preciso uma aprendizagem de desaprender tudo de onde nasce horrenda memória (30,1), e, para tal, o verbo deve ser sacrificado (31). Contudo, o poeta é consciente disso, se o presente é a eterna repetição do que somos, a culpa é latente, e, por igual, onipotente, porque pode superar-se, como a árvore, genealogia humana, cujo fruto é uma revolução silenciosa (50).

         O segundo foco diz respeito ao poema “O caminho das árvores”. Mackellene faz da árvore o principal símbolo do livro. Sob a forma orgânica do rizoma, a árvore é motivo edênico: Todas essas espécies de árvores que existem, - a leucina, - a palmeira, - a mangueira, - a perfeita, - não são outras árvores – são as mesmas – a mesma espécie arbórea (17). Sob a forma arrizotônica é a mesma árvore – que respira e observa – a caminhar – com um único organismo – pela terra inteira (17,8).

         O poeta confere à árvore uma bachelardiana “imaginação moral”: O caminho dos homens – é o destino das árvores. – O caminho das árvores – é o destino dos homens (18). A árvore é assim o significado do enraizamento humano, a identidade do lócus, da fertilidade, da doação de alimentos e sombra. A mulher, objeto de seu livro-homenagem (Eu fiz um poema pra ti. – Verdade, - fiz um poema pra ti. – Quer ouvir?, 44) é comparada a uma árvore que renasce (19). Como as árvores dos filmes de Harry Porter, mas antes, dos contos infanto-juvenis clássicos, as de Mackellene também são sábias – as árvores se reúnem à noite – e decidem o destino dos homens (25) – as árvores dormem na palavra escrita (32) – ler – é uma árvore que desperta (32); andam – Alta noite – as árvores caminham – como grandes almas, - como grandes arcas, - repletas de seres noturnos e fantásticos (21); participam – as árvores guardam o mundo – e testemunham a História (20) – as árvores recomeçam o mundo (30) – vão tramando a insurreição (22); contextualizam o cenário ecológico: Quando a flor rompeu o asfalto – poucos perceberam que ali – era o primeiro sinal – de que as coisas vivas – (que não somos nós)se rebelariam (23) – Todos os poemas são profecias: - a natureza das coisas se levantará contra nós, - que somos a morte suprema de todas as coisas (24)

         Toda essa alegoria parece apontar para a advertência de S. Bernardo: “Há mais nas árvores do que nos livros.”   

         Mackellene, admirador confesso de Bachelard, adota a postura imaginária da “psicologia ascensional” proposta por Robert Desoille, apreciada pelo fenomenólogo de “O ar e os sonhos”, em cujo livro dedica capítulo especial à ”árvore aérea.” Pelo devaneio ascensional, diz Bachelard, Desoille procura oferecer uma saída a psiquismos bloqueados, proporcionar um destino feliz a sentimentos confusos e ineficazes (Trago a alma maculada de amores instantâneos, - perdidos, efêmeros – que trago o corpo manchado por mundos estranhos, - desmedidos, intensos – que trago a feiúra dos indecisos ,20).

         A árvore simboliza, com a essência desse método, o “hábito do onirismo de ascensão”, a    qual é assumida “para fortificar o eixo de uma sublimação à qual pouco a pouco se dá consciência de si mesma”, uma vez que, acrescenta Bachelard, por ela se descobre “uma linha de vida” através da imaginação. “Sabe querer quem sabe imaginar. À imaginação que ilumina a vontade se une uma vontade de imaginar, de viver o que se imagina.”  Dessa força, assinala ainda o mestre francês, advém “a transformação de uma energia onírica em energia moral, nos próprios termos em que um calor confuso é transformado em movimento.” Por isso as árvores andam, pensam, decidem, interferem, arborizam a vida e a poesia, que é, em primeira instância, vida. O poeta sabe, a priori, como parte do aprendizado bachelardiano, que “não se pode ser feliz com uma imaginação dividida.”

         Donde poder-se concluir, como o fez Bachelard: “A árvore é um ser que o sonho profundo não mutila.” E, com base no “energetismo nietzschiano”, se justifica, o que, por empatia intencional, justifica, também, o símbolo arbóreo em O livro das sombras: “A árvore ereta é uma força evidente que conduz uma vida terrestre ao céu azul. Dessa vida vertical, as mais diversas imaginações, sejam elas ígneas, aquáticas, terrestres ou aéreas, poderão reviver seus temas favoritos. (...) A árvore é a mãe do fogo. Um mesmo objeto do mundo pode dar “o espectro completo” das imaginações materiais. (...) Deixemo-la proliferar, deixemo-la viver, e pouco a pouco sentiremos em nós mesmos que a árvore, ser estático por excelência, recebe de nossa imaginação uma vida dinâmica maravilhosa. (...) Como a imaginação dinâmica adora esse ser sempre ereto, esse ser que não se deita jamais! “Só a árvore, na natureza, por uma razão típica, é vertical como o homem”, diz Paul Claudel.”

         Além de Bachelard, a árvore mackelleniana encontra robusta analogia, por exemplo, também no “simbolismo do centro”, analisado por Mircea Eliade em “Imagens e símbolos” (Martins Fontes), propagando a Árvore Cósmica, cujas denominações estendem-se a Árvore do Mundo e Árvore Universal; e à Árvore-Coluna, estudada em seu devir dramático por Gilbert Durand em “As estruturas antropológicas do imaginário” (Martins Fontes).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

Márcio Almeida é professor universitário, poeta, jornalista e crítico literário, autor de 39 publicações, algumas no exterior, detentor de dezenas de prêmios nacionais de Literatura. marcioalmeidas@hotmail.com     

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