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18/09/2011 18:35:00
O triste destino dos imigrantes



Por Maria Lindgren


       Não me passo por crítica de cinema. Apenas ouso falar dos filmes como os vejo, com minha prática de ex-integrante de cine clube e fã ardorosa de diretores famosos antigos e alguns poucos modernos.



       Biutiful
, o mais recente filme de Alejandro Gonzales Iñarritu, sem a parceria do roteirista de seus demais filmes, é um voo solo, mas um voo de vitória. Devo dizer que, ao entrar no cinema, respirei fundo. Em primeiro lugar, porque encontrei amigos que, ao sair, se queixaram do peso da história, depois, porque era filme de qualidade de fala espanhola, minha mania atual. A tragédia sem estrondo é a que mais me corrói o coração. Pensei, no entanto: “pior que os filmes neo realistas ou os do Holocausto não será”
      
Biutiful confirma a fama. Passa-se na parte feia da cidade de Barcelona, muito diferente daquela de Gaudí, que tanto me encanta. A história de Uxbal, um intermediário entre imigrantes negros e chineses e seus patrões sórdidos, vivida e sentida por Javien Bardem emociona, comove, sufoca, às vezes. Mas, não se trata de um sofrer sem propósito, como as porcarias explosivas que pululam por aí. Ou a sangreira dos policiais de hoje.
      
Moradora do Rio de Janeiro, habituei-me a constatar a condição precária das favelas de minha cidade, sem jamais perdoar aos que lhes permitiram a implantação e implementação, nordestinos à parte. Não preciso assisti-la em filmes nacionais porque faz parte de meu cotidiano de amarguras externas. Biutiful me choca porque se passa no submundo de um país do Primeiro Mundo, sempre invejado por nós. E o diretor o explora muito bem, desde o ambiente de feiura exposta na morada da pobreza e da loucura, até a boate cheia de som e fúria da ralé dos exploradores, repleta de mulheres objetos à espera da sorte em forma de homem rico, entupidas elas também de cocaína e bebida, em ritmo alucinado de falsa alegria, perfeita para o desespero de Uxbal. Triste, muito triste.
      
O tema do tratamento cruel e do rechaçar constante dos imigrantes é muito atual. Filha de imigrantes, toca-me muito de perto, ainda que este seja um problema “lá neles”, uma vez que o Brasil não se fecha a nenhum tipo, graças a Deus. Os nossos se mesclaram há muitos e muitos anos, sem passar pelos suplícios apontados no filme de Iñarritur e outros. Meu tio e meu pai jamais foram achatados pela sociedade, tiveram chance de subir na vida e, se não conseguiram sucesso maior não foi diretamente por causa da imigração, mas por falhas pessoais. Os italianos das pizzas do Brás, os japoneses da Liberdade, os alemães do Sul e outros acolhidos em nossa terra atingiram postos altos na indústria, no comércio e nos bancos da sociedade capitalista.
      
Daí que assistir à discriminação dos imigrantes clandestinos sempre me deixa com a maior aflição, embora não saiba como os governos em crise os podem assimilar, sem prejuízo de seus próprios cidadãos, na sociedade do lucro.
      
A crítica não foi totalmente favorável a esse novo Iñarritu. Eu, ao contrário, sofri com os negros da África – lindos, por sinal – e, mais ainda, com os chineses horrivelmente massacrados no filme. Apreciei a direção segura, o trabalho dos atores, sobretudo do magnífico Javier Bardem, homem que esquece o próprio charme para imprimir o caráter mais fidedigno a seus personagens, vide Onde os fracos não têm vez, de Cohen.
      
Se tiver que destacar cenas do filme que mais me tocaram, cito a dos camelôs negros a vender sua belas quinquilharias, em pano de fundo de grifes famosas, perseguidos pela polícia como os nossos do Centro do Rio o foram, o menino deixado pela mãe em hora de loucura, os corpos dos chineses mortos trazidos pelo mar e o próprio Uxbal, doente terminal, na cena em que tira a roupa e aparece a fralda geriátrica claramente exposta, herói trágico que, como todos os que foram explorados pelo teatro e pelo cinema, não têm saída a não ser a morte.
      
Babel, 21 gramas, Amores brutos, outros ótimos filmes do mesmo diretor, para mim, não são melhores do que este Biutiful. Cada qual com seu enfoque, são excelentes exemplos de que, mesmo na atualidade imbecil que nos cerca, ainda há lugar para belos filmes.



                                                * * *


Maria Lindgren é escritora, ex-coordenadora pedagógica da Scretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, ex-professora docente de Português e Inglês do Município e Estado do Rio de Janeiro, autora do livro Uma Rolha na Lágrima, publicado em 2003 pela Ed. Mondrian/RJ, coletânea de contos e crônicas; participação na Antologia Cuento Gotas nº VI, da Editora ABRACE, de Montevidéu, Uruguai, 2006, com dois contos: Um encontro inusitado (em português) e Alta Fidelidad (em espanhol); colabora com diversos sites: Cronópios, Jornal´Ecos, Site da Vânia Diniz, como colunista; Revista Honoris Causa; Garganta da Serpente, Recanto das Letras e PD Literatura. E-mail: m-lindgren@uol.com.br

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