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04/12/2011 14:54:00
Um romance travessia



Por Flávio Viegas Amoreira


"Se Deus é alguma coisa ele é compreensão"
                                                                           William Blake


Vivemos em ritmo de transe: a transmodernidade artística, estética, comportamental que parecem exigir fugacidade como necessidade e a perda de um compromisso que só as narrativas de grande fôlego permitem: a cumplicidade ética com a memória. Quando pensamos sem reflexão como num videoclipe neural, a Alta Literatura nos instiga a sinapses poderosas. A travessia da terra vermelha, de Lucius de Mello, é exemplar testemunho de que o romance não só não morreu, mas é alinhavado com a maestria dum raro artesão. Escrever sobre o horror nazista já é um desafio hercúleo: como ficcionalizar a partir de dados históricos que rastreiam um atributo tão dolorosamente humano, a crueldade?

Testemunhar é transpor a barreira do até então "indizível": o autor reconstrói uma sutilíssima saga como quem vai erigindo um templo sobrepondo paixões, amores dissolvidos, famílias destroçadas, destinos intercalados em camadas carregadas de significados: o homem como vítima e protagonista da História. A trajetória de judeus que reinventaram suas existências sem perder sua ancestralidade forjou o ideal na convivência entre diferenças, a tolerância como exercício de compreensão e fundaram depois de cruzar o Oceano que lhes prometia o desconhecido, uma terra prometida com o dionisíaco sabor dos trópicos.

Lucius de Mello, a partir dessa obra-prima do gênero novelístico, se inscreve numa tradição de romancistas que vai de Stefan Zweig a Moacyr Scliar: um escritor que domina como poucos a técnica da prosa alternando como ourives imagético os dramas pessoais com plano sequência digno do virtuosismo cinematográfico. A chegada de cultíssimos judeus e sua adaptação ao então inóspito norte do Paraná, a adequação dos preceitos rabínicos ao Brasil varguista, amores interditos: com poeticidade que em nada invalida o plano sociológico e os reflexos trágicos da Segunda Guerra, o romancista faz jus ao conceito de nosso crítico maior, mestre Antonio Candido, que reconhece um grande romancista como aquele que consegue elaborar as emoções dos personagens dentro de contextos sociais específicos. Assim foi Machado com Brasil Império, Thomas Mann com uma Europa em crise e Vargas Llosa com um continente se impondo por sua cultura caleidoscópica. Lucius de Mello forja uma prosa cosmopolita a partir dum microcosmo muito peculiar e dessa especificidade dum povo em desterro elabora uma metáfora universalista: o Homem diante de um triste fado e a capacidade de superação. Todos somos errantes na busca de significação diante do sofrimento e absurdo.

Esquadrinhando esse livro que exige ser filmado, rastreio uma fala de Charlotte, figura feminina que carrega a distinta glória e fardo daqueles que padecem de excesso de sensibilidade numa atmosfera de "bruteza": "Meus amores se desencantam e acabam como fogo na palha do milho. Tenho amores desencantados... (...) mas nem por isso, menos apaixonados...". Essa ambiguidade entre o desânimo e a resignação, a dicotomia entre amargura e persistência são exemplares para o novo século em que defrontamos o individualismo, o desencanto coletivo convivendo com a urgência quase apocalíptica de uma generosa convergência para a sobrevivência do que ainda guardamos de humanidade. A travessia nos pede instigante questionamento: alcançar a Terra Prometida exige suprema consciência do Outro, do planeta e do resgate do senso de sacralidade perdido. Uma religiosidade da imanência: seguirmos o Sinai para um paraíso terrestre ainda possível.

"Anna começou a pilotar a máquina de colher saudade" enquanto Martha Fleming replica de modo tocante: "Saudades do futuro, Anna, dos dias que ainda estão por vir... A senhora sabe o que é isso? Eu tenho saudade do futuro!" Tramas e diálogos fazem de A travessia da terra vermelha um dos romances paradigmáticos da década que se encerra e que anuncia um admirável modo novo: o senso visceral de compreensão do que nos é estranho ou divergente na superfície, mas igual na essência: a obstinação planetária de sobrevivência, a alteridade compartilhada. Saúdo em Lucius de Mello um exímio escritor brasileiro, mas que vive mesmo no vasto e indeterminado oásis chamado Arte, Literatura. Lucius sinfônico feito para ser lido como quem ouve Mahler.


         A travessia da terra vermelha

         Autor: Lucius de Mello
         Editora: Novo Século Editora



                                                 * * *


Flávio Viegas Amoreira, escritor, jornalista e crítico literário, já lançou 8 livros entre poesia, contos e romance. Faz parte da denominada “Geração Zero Zero”, representantes da Novíssima Literatura Brasileira. Atua em movimentos de direitos GLS e em defesa de políticas públicas para Cultura. Email: flavioamoreira@uol.com.br

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