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04/01/2012 19:42:00
Dois poetas: Afonso Henriques Neto e Celso de Alencar



Por Claudio Willer


       Quem diria, duas ou três décadas atrás, que lamentaríamos o fim daqueles suplementos, Folhetim da Folha de S. Paulo, Idéias do JB, Caderno de Leituras do Jornal da Tarde? Ainda há, é certo, cadernos literários e de cultura em jornais; mas insuficientes com relação ao que é publicado. Também são astênicos os levantamentos e debates sobre a produção contemporânea. Isso, além do refluxo, de um crescimento da banalidade e trivialidade – o que não deve ser atribuído aos grandes eventos, à FLIP, Bienais, etc, porém ao modo como a imprensa os assimila e registra.
      
O descompasso entre crítica e criação se torna mais evidente ao se reparar como são abstraídos poetas maduros, com obra sólida e qualidade inequívoca. Celso de Alencar, com Poemas perversos, teve uma boa resenha de Moacir Amancio no caderno Sabático de O Estado de São Paulo. Afonso Henriques Neto, com Uma cerveja no dilúvio, foi recebido, por enquanto, pelo silêncio – aliás, e isso, é estranho, não só na grande imprensa, mas nesse fluir sempre renovado de pequenas revistas literárias e no mundo digital, blogosfera inclusive (foi o que me mostrou a consulta ao Google: por enquanto, só a notícia do lançamento pela editora e em páginas de livrarias). Assim, salvo engano, este é o primeiro artigo a tratar desse que poderia constar como o melhor ou um dos melhores lançamentos de poesia em 2011.




      
Uma cerveja no dilúvio (7Letras) é o décimo-segundo título de Afonso Henriques Neto, desde a estréia com O misterioso ladrão de Tenerife de 1972, em parceria com Eudoro Augusto, seguido por Restos & estrelas & fraturas de 1975 e a participação na antologia 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda em 1976. A relação inclui uma reunião de poemas já publicados, Ser infinitas palavras (Azougue, 2001) e uma seleção, 50 poemas escolhidos pelo autor (Galo Branco, 2003); uma recente antologia de traduções, Fogo alto (Azougue, 2009), aberta por um ensaio; e um livro híbrido, ensaio e coletânea, Cidade vertigem (Azougue, 2005), sobre a relação de poesia e cidades, que deveria ser estudado e adotado – utilizei-o em cursos sobre esse tema.
      
Já observei, a propósito de Roberto Piva, a surdez para o não-discursivo da crítica brasileira. Haveria outras explicações para a recepção tardia e a condição de poeta maldito de Piva: blasfêmias e impropérios, sexo explícito e outras liberdades nos poemas, além da conduta, das provocações e excessos que contribuíram para, por um bom tempo, torná-lo indesejável. Quanto a Afonso Henriques Neto, resta apenas, como explicação para a bibliografia crítica reduzida e a pouca presença em antologias e livros de história da literatura, a dificuldade do não-discursivo, da sua torrente de imagens poéticas. Ou caberia falar também de sua conduta? De, não sendo um recluso ou misantropo, tampouco ser um perseguidor de glórias, alguém que procura a visibilidade? Em suma, de ser estranhamente normal? Isso, é claro, entendendo ética como atributo da normalidade – talvez não o seja, e tenha se tornado excentricidade, nota dissonante.
      
Isso é mais estranho ainda ao se levar em conta que, entre as qualidades da poesia de Afonso Henriques Neto, estão a fluência e a eloquência. Desde Restos, estrelas e fraturas, escreve poemas que convidam à leitura em voz alta, como neste trecho do extenso “Ranger de auroras”, parte final de Uma cerveja no dilúvio:

       A esta fímbria no tempo ou no espaço
       recortada, a este parêntese de sombra,
       a esta suspensão do novelo, cabelo
       do labirinto derrotado, a este fantasma
       de verbo, a esta baba a luzir
       a impermanência de tudo, a esta fímbria
       do enigma chamas de rosto, nomeias
       o corpo, dizes de um sangue, de uma poça
       enfartada, um resto de vento, invernia
       na estrada, rosto no espelho moído,
       resto de sonho, estrela de nada.

      
Segue nesse fluxo por vinte páginas. Alterna-o, contudo, com passagens que tocam o limite da linguagem, através da sucessão agramatical de palavras, esgotando a sinonímia: “protuberância protrátil faceado haste quintessência testaça nariganga bicanca focinho cenho caranchona [...]”. Chega até, metáfora desse limite, a inserir um desenho, sugestivo criptograma. Faz declarações paradoxais, algo escandalosas: “a cabeça do mito precisa ser cortada: a do conselheiro a do Tiradentes:podres:verdenrugadas [...] deu no que deu o sebastianismo o cristianismo [...] um símbolo deve ser esmiuçado deve ser queimado além das próprias tripas”.
      
Ranger de auroras” dá o tom de Uma cerveja no dilúvio: é poesia à beira do abismo, como exposto por outro dos títulos: “Enquanto despenhamos”. Transmite a visão de uma sociedade, um mundo e um cosmo que naufragam ou se desfazem. Por isso, poderia entrar em minhas listas de poetas gnósticos, mesmo quando alheios a qualquer doutrina religiosa, porém de um pessimismo estritamente filosófico; e também por equiparar a poesia ao conhecimento superior.
      
É explícito em outro poema, ao situar-se “na vertigem da esperança / de um cosmo espelhado no equilíbrio”. A iminência da catástrofe não abole a utopia, ou a rememoração de momentos nos quais a utopia emergiu, quando:

       os jovens então se exaltavam
       – dois relâmpagos de beleza –
       e a república era uma bandeira
       de nuvem e luzes delirantes
       e os jovens já escolhiam o novo hino
       entre rimbauds de altíssima voltagem
       olhos faiscando febre de utopias
       multidão & poesia na luminosa voragem

      
Expressa-se, assim como em publicações anteriores, através de imagens feitas de aproximações de realidades distintas: osrelâmpagos sorvidos em rochedos de neblina; oviolino de girassóis na cabeça. havia observadoa propósito de Ser infinitas palavras, em http://www.revista.agulha.nom.br/ag17willer.htmque imagens como essas poderiam intitular quadros de Magritte ou Dali; e que, dos poetas brasileiros, aquele de quem mais se aproxima é Murilo Mendes; um Murilo Mendes apocalíptico, mas de um apocalipse leigo, sem catolicismonão obstante, neste novo livro, estar mais próximo ainda de Jorge de Lima, expressamente nomeado em epígrafe. Isso, pelo fôlego, pelos poemas não extensos, mas de longo curso, abrangentes e cósmicos.
      
Em contraponto, outros são sintéticos e despojados, como estes versos perfeitos:

       Luz
       filha da estrela
       que atravessa morta
       a escuridão

      
Assim, Uma cerveja no abismo situa-se entre polos, extremos que cobrem todas as possibilidades da expressão poética, da expansão à extrema condensação, como em “Soneto sem dentes”. É poesia sobre a poesia, através de alusões: Uma cerveja no inferno foi o título escolhido pelo surrealista português Mário Cesariny para sua tradução de Une saison on enfer de Rimbaud. Constantemente, dialoga com outros poetas; desde sua estreia, com o García Lorca de Poeta em Nova York. E, entre tantos outros exemplos possíveis, ouço ecos de um Herberto Helder, entre outras passagens em um verso como “Pedra só pedra na pedra / o perseverar da existência”.
      
Assim como em qualquer outro bom poeta com afinidades com o surrealismo, o foco na beleza das imagens não justifica deixar de lado o modo como se vale de uma diversidade de recursos. Entre outros, a anáfora ou repetição, como em “Em vão”, poema perfeito, que deveria figurar em antologias: “Das formas de morrer a mais terrível [...] Das formas de morrer a mais temível [...] Das formas de morrer a mais lúcida [...] Das formas de morrer a mais suave [...]”. Outro exemplo, a série “há um incêndio a lavrar pela noite / lavrando as páginas da agonia [...] há um incêndio a lavrar pelo escuro / evanescer dos dias [...] há um incêndio a lavrar pelo tempo / já perdido em ossos de um miasma inodoro”. Nesse poema, não economiza oximoros, antinomias e paradoxos: o “escuro evanescer dos dias”, o “miasma inodoro”, o “fogo para cegos”, os “planetas sem gravidade”. Nos místicos, a antinomia comparece para referir-se ao absoluto, ao indizível, ao que não pode ser alcançado pela razão e pelo entendimento discursivo. Em Afonso Henriques Neto, é imanente: corresponde a uma condição do mundo; à natureza paradoxal da vida, da condição humana.
      
Verlaine, ao publicar sua antologia de poetas malditos, referiu-se a seus integrantes como “poetas absolutos”. Não deu maiores explicações do sentido dessa qualificação. Roberto Calasso, em A literatura e os deuses, fala em “literatura absoluta”: aquela através da qual retornam os antigos deuses recalcados pelo cristianismo e pelo racionalismo. Intuitivamente, percebe-se que esse qualificativo, “absoluto”, se aplica a Afonso Henriques Neto. Escreve poesia total. Sua obra deveria ser objeto de ampla difusão através de um intenso trabalho pedagógico, para corrigir algumas de nossas notórias dificuldades na recepção da poesia; e, por isso, na leitura.




      
Celso de Alencar surgiu em São Paulo vindo do Pará, de Belém e antes de Abaetetuba, onde se criou. Participou do movimentado ambiente de grupos de novos poetas do final da década de 1970. Desde suas primeiras publicações, e especialmente com O Primeiro Inferno e outros poemas de 1994, caracterizou-se como paradoxo ambulante: como era possível o autor de versos tão transgressivos e proclamações tão contundentes – “eu via um homem assassino/ com cascas de ovos na boca/ e três cachorros belgas/ saindo de uma boca de lobo” – não ser um louco furioso, porém alguém tão estranhamente normal? Como podia aquele cordato e comedido Celso de Alencar proclamar em récitas de poesia, em tom estentóreo, com a veemência de um profeta, tamanha anti lírica do desespero e da convulsão?
      
Sempre foi, por isso, uma demonstração ao vivo da amplidão do campo da poesia; do infinito da imaginação. Já o designei em outra ocasião, ao comentar Testamentos, como “surreal paroxístico”. Continua o mesmo em Poemas perversos (Pantemporâneo). É enfático e adota um tom grandiloquente para declarar algo que parece não fazer sentido algum, como no poema de abertura, sobre “As cento e onze picas” (alusão às onze mil varas de Apollinaire?), no qual também há “Cento e onze bocas mortas. / Cento e onze vaginas órfãs” etc. Aí estão, também, na sequência, as “unhas excitadas do inferno”, o “desvio vaginal da minha tia Ethel”, as “velhas e belas putas do jardim da Luz”, a “noite da loucura recolhida em mim”, o irmão que “chupava as férteis bucetas das cachorras”, a Elizabethe com “seus pés sem dedos / e a cor esplêndida da loucura”. Todos trafegam “nos campos onde o vento conduz / bois e lavouras para a morte”, em companhia “dos passarinhos com seus sexos / ornados de sangue expostos em mim.”
      
Mas, ao lado da apoteose do grotesco, imagens luminosas permeiam os versos que “somente / as mulheres de língua azul / e cabelos curtos entendiam”. Ganha sutileza e diversidade. Oferece um primor do despojamento neste final do “Poema para o pai de um jovem morto”:

       Mantenho-me ainda em silêncio.
       A voz do teu coração
       é branca e doce
       e eu, para ouvi-la,
       me alimento,
       instintivamente,
       de silêncio.

      
Esse poema é exemplar, por mostrar como é possível sustentar-se na linha divisória do intensamente poético e do trivial. E como o pathos, a emoção intensa, convive com a simplicidade ao tratar de um tema diante do qual um poeta menos capacitado cederia à pieguice e ao derramamento.
      
Seu “Poema para lembrar que a morte existe” poderia ser utilizado em oficinas de criação literária, para mostrar como a parte ou o fragmento podem valer pelo todo; e como se usa o recurso da falsa descrição, designando uma coisa para transmitir outra. Transcrevo-o:

       Pela manhã
       como quatro torradas
       cobertas com mel de abelha.

       E fico à mesa
       onde estão guardados os botões para casacos
       me alimentando e dispersando com sopros
       as formigas que caminham levando
       os restos das torradas.

       Eu as vejo andando lentamente
       iguais mulheres magras
       sobre poentes iluminadas.
       Não sei o que pensam
       nem o destino da carga que carregam.

       Eu fico à mesa
       com uma única fisionomia.
       Única nas mãos.
       Vendo o saco de leite vazio
       no colo do gato.
       As maçãs apodrecendo sobre
       a antepenúltima letra do mês de fevereiro.
       A garrafa do café, sem uma gota de café.
       Os chapéus e os véus sobre os chapéus.
       A casca de banana, sem banana.
       E as folhas de chá escondidas
       entre uma lua e outra.

       Eu como
       torradas com mel de abelha.
       E conto os dias.
       Diariamente eu conto todos os dias.
       Sempre pela manhã
       quando como
       as torradas cobertas com mel.

      
Seria capaz de dar uma palestra sobre os recursos de estilo mobilizados na aparente simplicidade desse poema. As repetições que conferem ritmo. O acréscimo de força por maçãs apodrecerem sobre “a antepenúltima letra do mês de fevereiro”, e não sobre o tampo da mesa ou qualquer outro lugar. O aparente arbitrário das folhas de chá “escondidas / entre uma lua e outra” e não no previsível fundo da xícara; ou da comparação do lento andar das formigas com “mulheres magras / sobre poentes iluminados”. Sua “única fisionomia” (mas quantas deveria ter?); porém “Única nas mãos” (mas não deveria ser no rosto?). A proposital redundância da “casca de banana, sem banana” (é claro – se não, seria uma banana, e não apenas a casca); ou de “Eu conto os dias. / Diariamente eu conto todos os dias” (se é diariamente, então forçosamente são todos os dias...). A repetição elegantemente musical de “Os chapéus e os véus sobre os chapéus”. A falsa exatidão de “Pela manhã / como quatro torradas / cobertas com mel de abelha” (e porque não duas, três ou cinco? mel de abelha – mas do que mais poderia ser?).
      
Um poeta mais ingênuo se aferraria ao tema; exporia todas as variações sobre a inexorabilidade do tempo, a inevitável vinda da morte. Celso de Alencar, a rigor, não diz nada – por isso, torna presente o Nada, com todo o seu peso filosófico. Diz tudo.
      
As mesmas sutilezas combinadas a violências contra o sentido estão em outros de seus poemas, como “Amanhã”, no qual afirma que “Amanhã tudo será escuro profundamente. / Tudo será levemente morto” – novamente, o hipotético poeta ingênuo proclamaria que tudo será absolutamente morto, devastadoramente morto, embora o “levemente morto” transmita um grau maior de estranheza, de impressão de escuro e morte.
      
O duplo ou múltiplo sentido confere força a poemas nos quais se discerne um tema, como aqueles com alusões ambientalistas ou ecológicas: “O rio”; “Devolvamos o rio”; e, especialmente, o belo “Poema para Sonny Perdue”, no qual a mensagem direta – “Eu vos peço, não eliminai, Senhor, / o sonho daqueles que a liberdade buscam” – coexiste com o desvio do sentido e a reintrodução do pensamento mítico: “Permiti [...] que todos possam ser altos como pinheiros”.
      
O livro vem com um substancioso posfácio de João de Jesus Paes Loureiro, remetendo ao mundo mítico e observando o “expressionismo radicalizado em sua lógica do absurdo”. Declara, com acerto, que “Celso de Alencar é talvez o mais poeticamente herético poeta de nossos dias”. Apenas complementando, citaria as observações de Roland Barthes, em Sade, Fourier e Loyola, sobre o “irrealismo preparado” das perversidades e façanhas sexuais na obra de Sade, por serem fisicamente impraticáveis: “as impossibilidades do referente são convertidas em possibilidades do discurso”. O tempo todo, Celso de Alencar nos exibe possibilidades do discurso através de referentes impossíveis. Mostra que em poesia o rigor é indispensável e ao mesmo tempo tudo é permitido. Celebra a autonomia do poema; seu descompromisso com qualquer outra coisa que não seja o valor poético e o infinito alcance da imaginação.


                                                * * *


Claudio Willer (Brasil, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. Doutor em Letras, DLCV-FFLCH-USP, sua tese “Um obscuro encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna” foi recentemente transformada em livro pela editora Civilização Brasileira.
E-mail: cjwiller@uol.com.br  Blog: http://claudiowiller.wordpress.com/


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