Café Literário Cronópios

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por Cláudio Feldman




Django Livre - For your consideration
por Maria L. São Thiago







 
20/04/2012 02:14:00
Cubo de sete faces



Por Abilio Godoy


       Uma máquina para desmontar uma máquina para desmontar uma máquina. Que o leitor não se engane: o ponto final é reticências travestida, e impostora é a maiúscula que inaugura a frase. Espiralada, sem fim nem começo, a imagem há de se estender num infinito voltar-se sobre si – ciclo inescapável de retroalimentação e autocanibalismo. Só então, quando a linguagem puder se extraviar além da superfície polida do espelho, talvez só então seja possível conceber a chave exigida pelo eco da primeira frase de Procura do romance, livro de estreia do escritor Julián Fuks no gênero romanesco.
      
Tal qual guardião kafkiano diante dos portões da narrativa, oculto sob a pergunta da porteira do prédio da infância, é o eu lírico de Drummond em “Procura da Poesia” o eco espectral, a sentinela literária que já nessa primeira página intercepta o leitor e, se não desaconselha a passagem, ao menos adverte que o percurso não estará livre de cadeados. Claro que semelhante obtemperação – exemplo elementar de psicologia reversa – não deixa de soar provocativa. Tanta formalidade e tanto artifício trazem depressa o cheiro de impostura, o ar de casa de penhores que aguça a curiosidade e põe o leitor desconfiado a seguir esse sujeito circunspecto, personagem protagonista, personagem escritor, autor fictício e prolífico desnarrador; esse guia conciso e verborrágico, inimigo de qualquer extravagância e obcecado por cada detalhe do caminho; esse Sebastián cujo nome, por sua vez, ecoa outro – impresso na capa do volume.
      
Melhor dizendo, não é o leitor que segue Sebastián em sua expedição proto literária ao apartamento onde viveu com os pais e à Buenos Aires que conheceu na infância. Antes, é Sebastián que vai ao seu encalço, como uma sombra que se detém a examinar e renegar com um abano severo da cabeça os fragmentos do romance que o leitor, ao se adiantar, adivinha no percurso. Como o último mordomo apresenta, minutos antes da demolição, ao último visitante uma casa velha, Sebastián posta-se diante da entrada de cada um dos cômodos do edifício literário, observa com cuidado o batente, divaga com lirismo sobre o que poderia haver no interior daquele quarto, reflete com erudição a respeito da maçaneta e das dobradiças, entreabre vacilante a porta que para sempre cerra em seguida, num impulso embaraçado e arrependido que não sabe conter ou explicar.



       Procura do romance
       Autor: Julián Fuks
       Editora: Record

       O que surpreende porém é que o leitor acaba por estimar a companhia excêntrica desse irresoluto e penelópico destecelão – a despeito de toda sua voracidade desconstrutiva – não só pelo fascínio que provocam as implosões espetaculares, mas sobretudo por uma crescente simpatia por esse sobriolunático, que de mãos abertas mostra-se desarmado de qualquer cinismo. Mesmo nas suas recusas mais sistemáticas, não é difícil perceber que a franqueza de sua busca pela literatura e a autenticidade de seu bloqueio criativo não fazem dele um sádico estraga prazeres, mas um artista honesto, que ao menos se empenha em encontrar uma saída possível para suas aporias, que se equilibra como pode sobre o fio de uma navalha de oximoros e persegue, ainda que suas pegadas desapareçam de imediato sob a água da chuva, a impossibilidade possível de ser e não ser ao mesmo tempo, de negar e afirmar a uma só voz.
      
E se aqui for protestado que a crise já se encontra envelhecida, que o livro é tentativa surrada de requentar a marmita, muito repetida e quem sabe irrelevante, do óbito do romance – cujo cadáver reanimado divide a lata com tantos mortos-vivos pós-modernos – pode-se ponderar que mais que recuperar uma polêmica que aos poucos se faz datada, Procura do romance se propõe como corajosa resistência à decadência literária estabelecida não só pelo advento de mídias ficcionais concorrentes, mas sobretudo pela entronização inconteste da indústria cultural nos meios contemporâneos de produção e distribuição social da arte. Mais urgente que a discussão do suposto perecimento de um gênero é essa campanha quase desesperada por salvaguardar as últimas migalhas da autonomia do artista dos arados aplanadores da sociedade administrada.
      
É só, portanto, assim, com um passo para trás a cada dois para frente, que a narrativa improvável do romance pode aos poucos avançar. Enquanto o protagonista reinventa e refuga apartamento, cômodos, sebos, ruas, parentes, móveis, livros, fotografias, memórias, o leitor que persistir com paciência no descaminho poderá assistir, sob esse ciclo quase patológico de redescobrir para esquecer de novo, à revolta de Sebastián contra as paredes viscosas e espelhadas do casulo geométrico que o envolve e que, a despeito de suas mais veementes diligências, teima em decretar sua sempiterna provisoriedade, em lhe opor, com cada uma de suas faces refletoras, imagens irreconciliáveis de duplos que ele traz atados às costas, como uma cobra mutante cuja pele expelida não pudesse se destacar do corpo renovado.
      
Se em sua face violenta e surda o tempo deformou com os ossos do homem o rosto delicado do menino, também o menino marcou o homem com sua neurose desaceleradora, sua contenção compulsiva e o correspondente signo na testa acautelada. Se a face ambígua da história poupou a geração de Sebastián do passado político conturbado dos pais, legou-lhe a sensaboria de um presente apático e uma literatura enferma que lhe pergunta encurralada se ainda é possível, sem armas, revoltar-se. Se o ambiente privado do apartamento o entrega, na face decisiva do espaço, a lucubrações intimistas, o caráter público da rua o obriga a pensar-se em sociedade. Se a face epistemológica que o opõe à impermeável realidade constrange-o por um lado à impotência apreensiva, sua sensibilidade e atenção à riqueza inesgotável dos detalhes, por outro, garantem-lhe notável expressividade. Se o peso esmagador da tradição o curva na face estética e o priva do descompromisso anacrônico e alienado que ele inveja ao vizinho pintor, seu reflexo metalinguístico se vê redimido em alguma medida na pura potência do piano sem cauda que poderia ser tocado e não é. Se a rigidez da face moral ameaça condená-lo por alienação e conformidade, a crítica sincera do espelho ao menos trata de atenuar a sentença com uma confissão antecipada.
      
Aprisionado desse modo entre meia dúzia de espelhos, Sebastián é um construto ficcional bem acabado do indivíduo fragmentado que, ao contrário do entusiasta ingênuo, reconhece sua cegueira e a impossibilidade de submeter o mundo, por exame cartesiano, a uma asséptica ordem racional; um representante digno desse sujeito literário contemporâneo, que a todo tempo intui a náusea do ponteiro que gira sem Norte e a vertigem de ter sua imagem diluída entre múltiplos reflexos de si mesmo. Condenado ao casulo perpétuo, ele é o produto inclassificável de uma transformação imperfeita, a mediatriz indecisa de uma metamorfose inacabada; ele é o cabo absurdo que não liga a folha caída ao caule vivo da planta; é a repetição mercantil das cores fortes do cubo mágico; Sebastián é, a um só tempo, a coragem da flor que furou o asfalto e a conformidade inconciliável de uma pedra que se situa bem no meio do caminho.
      
E se o núcleo do romance caracterizado dessa forma parece demasiado imóvel, se o cubo literário de espelhos – menos mágico, mais humano – que enreda em conflitos o protagonista resulta sobremaneira estático, é porque o leitor se esquece de que existe uma sétima, implícita, face refletora no vidro que separa o escritor do personagem, que aparta, em outras palavras, Julián de Sebastián em seus destinos divergentes. Antes de supor que o romance empaque com o protagonista em seus impasses, note-se logo que Julián escreve quando Sebastián silencia e que, quase como um arquirrival, faz questão da desobediência ostensiva às regras rígidas do outro, rompendo o autor, como negativa da negativa, as barreiras que só emudecem o personagem.

      
Não seria portanto impossível chamar de antinarrativas as páginas de Procura do romance, mas incorreria em equívoco quem se precipitasse em negar-lhes enredo, personagens, conflitos. Não se deve confundir a antimatéria literária com o vácuo que só poderia existir no silêncio. O antirromance de Fuks guarda, com calculadas cargas inversas, as estruturas tradicionais do gênero e em tudo é coerente nas forças que o mantém coeso. Descartá-lo como entrave improdutivo seria desperdiçar seu potencial renovador, sua capacidade explosiva de reagir com a matéria comum produzindo, sem sobras, uma energia limpa e elegante.


                                                * * *
 

Abilio Godoy é escritor e Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Natural de Volta Redonda - RJ, mudou-se para São Paulo. Fluente em cinco idiomas, trabalhou em 2009 como tradutor para a revista CULT, traduzindo para o português textos em inglês, francês e italiano de nomes importantes como Slavoj Žižek e Christophe Dejours.
Email: abilio.godoy@gmail.com

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