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11/03/2007 19:12:00
Machado de Assis e seus alienados em “O Alienista”



Por Carlos Eduardo G. de Melo



O CONTO

 

Precisar fazer um resumo de “O Alienista” parece coisa de maluco. Aliás, coisa de maluco mesmo parece alguém não ter lido este conhecido conto de Machado de Assis, seja pelo puro prazer da leitura ou por dura obrigação escolar. Narra, de forma onisciente e em terceira pessoa, numa espécie de flashback, o ocorrido na vila de Itaguahy (na grafia da edição de 1940), na segunda metade do século XIX, quando o eminente médico, Doutor Simão Bacamarte, resolvido a prestar um imenso serviço à ciência, aprofunda seus estudos em relação ao exame da patologia cerebral e funda a Casa Verde, um lugar onde todos os loucos da cidade poderiam ser confinados e tratados, cada um de acordo com seu desvio psíquico. Logo, o número de internações cresce assustadoramente e novos pavimentos são construídos. Pode parecer loucura, mas, segundo os rígidos conceitos do médico, qualquer pequeno sintoma, era visto como anomalia e motivo para o cidadão ser recolhido para tratamento. A tirania médico-científica causa transtornos políticos à Itaguahy. Subitamente, Doutor Simão Bacamarte revendo seus conceitos, dá alta a todos os pacientes e, entendendo que como pequenos desvios de comportamento são normais e loucura é não os ter, recolhe à Casa Verde todos aqueles anteriormente considerados sãos. Mais tarde, certo de ter curado os novos internos, combatendo suas sanidades plenas com doses equilibradas de loucura, Doutor Bacamarte dá novamente alta a todos os pacientes. Então, diante da grandeza da ciência, reconhece em si e somente em si as características do perfeito equilíbrio mental e moral, em dissonância com todo o resto da população, considerada curada por ele próprio, e recolhe-se espontaneamente à Casa Verde.

 

 

Enquanto você se esforça para ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco, maluco total, na loucura real. Controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez, vou ficar, ficar com certeza maluco beleza. (Maluco Beleza, Raul Seixas)

 

 

João Guilherme estava diante do espelho do banheiro, prestes a espalhar a espuma no rosto para fazer a barba. De repente, levou um susto e recuou. De muito longe, veio a lembrança do que dissera, certa vez, um colega, chamado Paulinho Rebordosa, de quem dizia-se que não tinha voltado de uma viagem de ácido e por isso vivia permanentemente chapado, o que, obviamente, acabou por lhe valer a triste alcunha. Num fim-de-semana em Friburgo, numa casa de amigos, estavam todos esperando para irem juntos à cidade, paquerar. E o Paulinho enfiado no banheiro há mais de uma hora. Bateram na porta, uma, duas, três vezes, nada. Finalmente entraram. Paulinho estava parado olhando-se no espelho com aquele ar ausente que o caracterizava.

 

- Que foi, maluco? Vam’bora!

 

Paulinho sorriu, mas não se moveu. Sacudiram então o infeliz e ele disse:

 

- Pô, maluco, aí... Já reparou que nós temos as duas metades do rosto diferentes uma da outra. Aposto que muita gente nunca reparou nisso.

 

Até aquele momento, dois anos depois, diante do espelho pronto para fazer a barba, João Guilherme nunca tinha pensado naquela intrigante questão. Mas quando reparou bem, levou um susto. Era verdade, a mais pura verdade. Com medo de ficar com aquele mesmo olhar de hipnotizado do pobre Paulinho Rebordosa, tomou uma decisão. Para não enlouquecer, nunca mais faria a barba. Três meses depois, barbudo e cada vez preocupado com os intrincados enigmas da vida humana sobre a face da Terra, ganhou o apelido de João Profeta. E nunca mais ninguém o levou a sério.

 

Acontecesse isso na vila de Itaguahy, nos tempos do ilustre médico, Doutor Simão Bacamarte, não haveria dúvida: tanto o Profeta quanto Paulinho Rebordosa passariam uns bons dias hospedados na Casa Verde, nome dado ao asilo onde, por decisão do referido cientista, eram internados os loucos (e os não tão loucos, os quase loucos e os nada loucos) da cidade.

 

A diversidade de características dos possíveis hóspedes, a partir da análise soberana do renomado médico, leva a algumas interessantes observações: o que é loucura e quem é louco de verdade?

 

Segundo o Houaiss,

 

loucura (subst. Fem.) é “distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir; sentimento ou sensação que foge ao controle da razão; paixão, gosto desmedido por alguém ou por algo; ato ou fala extravagante, que parece desarrazoado; atitude, comportamento que denota falta de senso, de juízo, de discernimento; atitude imprudente, insensata; caráter de tudo que ultrapassa o convencional, de quanto foge às regras sociais; alegria extravagante, insana; desatino, desvario; caráter do que é extraordinário, excepcional, maravilhoso; quantia exorbitante; cujos sinônimos são: afronésia, alheação, alheamento, alienação, amência, deliração, deliramento, delírio, delusão, demência, dementação, desvairo, desvario, frenesi, frenesim, insânia, insanidade, loucura, mania, piloura, psicopatia, tresvario, vareio, variação, veneta”.

 

Já, segundo a mesma fonte,

 

louco (adj. e subst. Masc.) é “que ou aquele cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais; que ou aquele cujos atos e palavras parecem extravagantes, desarrazoados; de aparência estranha, anormal, fora do habitual; tresloucado; fora de si, transtornado, em razão de algo que é excessivo, custoso, que ultrapassa o limite do suportável e que leva ao estado de loucura; absurdo, incompreensível, irracional; desprovido de bom senso, que vai contra o que seria esperado, razoável ou prudente; que não segue uma direção previsível; descontrolado; cuja sensação, sentimento, emoção etc. atingiu o paroxismo, o seu limite máximo; que ama, que gosta demasiadamente de (pessoa ou animal) ou que tem forte predileção por alguma coisa; falto de seriedade, de siso; que se mostra demasiadamente irreverente, atrevido, brincalhão; fora do comum; extraordinário, colossal.

 

 

O critério popular, contudo, além de todas estas definições, acrescenta ainda mais algumas: o que estuda demais; o crente; o tarado; o maníaco por trabalho; o maníaco pelo ócio, que só anda de bermudas e vive na praia; a histérica; a neurótica; a compulsiva; o hippie, o doidão, o bebum, o torcedor fanático, uma infinidade de tipos.

 

Na mesma linha, há, ainda, aquelas clássicas expressões referenciais: madeira de dar em doido, lelé da cuca, vinte e dois, louco de carteirinha, doido de pedra, um parafuso a menos, piroca-das-idéias, porra-louca, malucão, maluquinho, doidão, doidaço e demais derivados.

 

No conto de Machado de Assis, o Doutor Simão Bacamarte é o único e fiel julgador do comportamento alheio, e seu destino todos conhecem – acaba ele próprio confinando-se na Casa Verde, depois de dar alta a todos os demais pacientes, considerando normal um pequeno desvio de conduta e, conseqüentemente, louco alguém absolutamente são. Com isso, apresenta-se à galeria mais um tipo, o louco por excesso de lucidez.

 

 

*

 

 

“Ah! Eu to maluco! Ah! Eu to maluco!”, gritavam milhares de pessoas suadas, espremidas umas contra as outras, em pleno domingo de sol, na arquibancada quente do Maracanã. E, apesar de tudo, nenhuma saiu de lá em camisa-de-força.

 

 

 

Há quem veja na abordagem machadiana em “O Alienista” uma sátira ao cientificismo da época, configurada no personagem do Doutor Simão Bacamarte, de quem, sob um óbvio despotismo cientificista, a população de Itaguahy era presa. Segundo essa corrente analítica, fora exclusivamente em nome da Ciência que ali viveu-se dias de absoluto terror.

 

Merece observar que a base cultural e histórica do Realismo, a cujo estilo Machado estava indiretamente ligado, é a ciência, esse conjunto de conhecimentos que dominou as atenções da segunda metade do século XIX até o início do século XX. Alastravam-se mundo afora como uma febre, o materialismo, o positivismo, o evolucionismo, o psicologismo, o determinismo, e nasce daí, portanto, a tendência pela análise psicológica ou sociológica do texto. Afinal, convém ainda lembrar que a primeira edição em livro do conto é de 1882.

 

A grande característica realista em “O Alienista” é, sem dúvida, o tom satírico e irônico que perpassa a obra, numa crítica ao mesmo tempo veemente e humorística dos valores científicos da época. Aqui, Machado se volta, impiedosamente, contra a tirania cientificista do Dr. Simão Bacamarte, tirania essa que vem configurada no próprio nome do doutor (bacamarte).

 

Ainda que tal associação seja verdadeira - não duvido que seja, acredito, como bem diz o próprio autor, nas crônicas da época -, mas, ao menos para a argumentação contida neste ensaio, importam mais os elementos característicos da loucura ao longo da obra. O que se quer saber é: seriam hoje considerados loucos os loucos que o Doutor Bacamarte internou na Casa Verde? E os loucos de hoje, como seriam enquadrados na severa análise do importante médico?

 

Diz o povo que maluco é quem bate na mãe, come merda ou queima dinheiro; fora isso, ninguém pode ser tachado de doido. Ok, certo, vivemos tempos bem mais condescendentes, é verdade. Pequenos desvios diferentes destes, como imitar passarinho, conversar com cachorro, verificar três vezes seguidas o que acabou de se fazer, lavar as mãos compulsivamente, não passam hoje de meras excentricidades.

 

Por exemplo, seguindo mais ou menos a ordem em que tais situações são apresentadas na narrativa, Padre Lopes sugere a D. Evarista, mulher do médico, que o convença a dar um passeio no Rio de Janeiro, para descansar de tanto estudo, pois “estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. Sob os critérios de hoje, qual dos três podia ser considerado mais louco? O médico que estuda demais; o padre que acha que alguém pode relaxar numa cidade como o Rio de Janeiro; ou a mulher que, aceitando a sugestão do padre, tenta convencer o marido a viajar à Cidade Maravilhosa, terra de mulheres belas e de critérios morais bastante volúveis?

 

E os loucos de amor? Hoje em dia, quem nunca cometeu alguma loucura por amor? Ou será que mais louco é quem não se entrega a uma louca paixão?

 

E o que acharia o alienista, que “respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras”, dizendo que “as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício”, caso conhecesse as quentíssimas, apocalípticas e integradas micaretas dos nossos dias?

 

E, ainda, diante da intensa onda consumista que atualmente assola as tortuosas alamedas dos shoppings, do permanente perigo do cartão de crédito, poderia ser considerada louca alguma mulher dada ao furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas, em dúvida entre um colar de granada e um de safira? Ah! A Casa Verde precisaria ter filial em cem Maracanãs para caber tanta gente.

 

 

*

 

“Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, que seria do amarelo?” (O Alienista, Machado de Assis)

 

 

 

Com a indagação acima, acerca da (ausência de) beleza da esposa do Doutor Simão Bacamarte, Machado aventa a improvável possibilidade de ela despertar o interesse em outro homem. Verdade é, completo eu, que se o critério da atração física fosse um só, e regesse sozinho os destinos da humanidade, o que ia ter de pessoa solitária (e louca!) nesse mundo não ia caber numa única Casa Verde, nem que, se para isso, cobrissem e cercassem toda a Floresta Amazônica.

 

A esse propósito, aliás, bem diz a sabedoria popular: “Não existe mulher feia (ou homem feio, conforme o caso), você é que bebeu pouco”. Portanto, isso sempre vale como contraponto à fala do Bruxo do Cosme Velho. Quando o surpreenderem no fim da noite, agarrado àquele tremendo jaburu, melhor atribuir o desatino ao álcool do que confessar sua esquisitice.

 

Outro ponto interessante que merece ser abordado nesta (louca?) análise do texto é a ausência quase completa de casos de morte provocados pelos loucos da história, à exceção de um, classificado pelo próprio fundador da Casa Verde não como homicida ou psicopata, mas como “louco por amor”. Era um desgraçado, a quem a mulher deixara para fugir com o amante e que se armou de garrucha e matou os dois à beira de uma lagoa.

 

Os difusos limites entre insanidade e responsabilidade permanecem uma questão não-resolvida pela sociedade, em que pese a relativa sofisticação dos aparatos médico e jurídico dos dois últimos séculos. Já o Direito romano conferia um estatuto especial aos loucos, mas a determinação da desrazão ainda estava longe da alçada da medicina. Só a partir do século XIX que a medicina de alguma forma se apropria dos "inocentes" e se encarrega do papel de polícia da fronteira entre a razão e a insanidade(...) A exclusão de imputabilidade presente no Direito romano não chega a ser revogada. O "Dictionnaire de Droit et de Pratique", do século 18, no verbete "loucura", registra: "O furioso ou insano, como não tem nenhuma vontade, não deve ser punido, pois já o é por sua loucura".

 

Porém, como se vê no conto, tal ordenação não teve muito efeito prático. Em Itaguahy, se o doido e o nem tão doido não eram encarcerados por algum crime que tenham cometido, o eram pela própria insanidade, o que praticamente dava no mesmo. Muda aqui apenas o guardião do infeliz - não mais a polícia, mas o médico.

 

         A ser verdade que a voz do povo é a voz de Deus e, por conseqüência, considerando verdadeiro o dito popular que prega que “De médico e de louco, todo mundo tem um pouco”, a trajetória vivida pelo Doutor Simão Bacamarte não passa de um mero processo cíclico encerrado em si mesmo. Não por acaso, confirmando esta tese, boatos também mencionados pelos cronistas da época, segundo o relato do autor, fazem veladas conjecturas sobre o fato de nunca ter havido nenhum outro louco em Itaguahy além do próprio alienista, morto 17 meses depois de se auto-internar.

 

         Para terminar, uma valiosa pensata que talvez mereça um instante de reflexão (mas, por favor, não diante de um espelho):

 

“Tão tênue quanto a diferença entre as duas metades de um rosto é a linha que separa a loucura da razão”. (João Profeta, depois de Paulinho Rebordosa e de Erasmo de Rotterdam)

 

 

 

 


 

Carlos Eduardo G. de Melo é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural, roteirista premiado pelo MinC em 99, letrista quase poeta da banda anarco-punk-hard-rock “Os Fuzileiros Nasais”. Blog: www.o-pecado-mora-ao-lado.blogspot.com
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