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O Assassino
por Jorge Plá Cid






 

Surrealismo no Brasil: crítica e criação literária
por Claudio Willer




Sobre as musas e seus mitos
por Paula Valéria Andrade




Décio Pignatari: a memorável passagem do Fauno pelo planeta Terra
por Omar Khouri




Maquinarias ou sobre como ter um livro em mãos
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Biografia, polêmico gênero
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Broquéis: corpo em excesso num diálogo com Baudelaire
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Um olhar sobre os clip-poemas de Augusto de Campos
por Fábio Oliveira Nunes




Na Lata, Frederico Barbosa, poesia reunida
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No Reino da Pedra Só (do poeta José Inácio Vieira de Melo)
por Denise Almeida




Z a Zero
por Wagner Moreira




Alfabetização Cultural, uma educativa provocação
por Márcio Almeida




O canibalismo amoroso visto por Affonso Romano de Sant’Anna
por Jorge Sanglard







 
11/01/2012 17:02:00
A moral do oral na era digital



Por Márcio Almeida


Para José Aloise Bahia, insumo deste ensaio. Para Adriana Versiani e Pedro Maciel, amigos presenciais, orais, on-line. Para Sônia Queiroz, por tudo que já fez e faz pela oralidade e pela Literatura da mineiridade.

O esvaziamento da oralidade tem como corolário irreversível o esmaecimento dos afetos. É de um aparato midiático versus uma tradição oral decadente que surge um saci globalizado. Quase ninguém mais conta uma fábula de La Fontaine, que emprestava voz aos animais, à história dos santos, a recitação do terço, os casos de assombrações, os assuntos dos velórios barrocos (em casa). A novena de Natal se antecipa à novela das 8. Não fosse a oralidade, como ficaria o evangelho de Lucano, o São Lucas, escolhido por ter se encontrado pessoalmente com Cristo. Vem um sujeito e se apropria de um mote de literatura popular, estiliza-o e lança na web, retirando-lhe toda a raiz e pureza. E outro que envasa o remédio eficaz das tosses – mel e agrião, o melagrião, transmitido de geração a geração, barato, tem em casa e no quintal – oralidade. Curiosa era a cura para dores de ouvido em recém-nascidos, avoenga de priscas eras que resolveu o caso de muita mãe aflita. Quando o povo fala, ou foi, ou é, ou será! – Professor Agostinho Toledo

Numa época em que a globalização, via satélite, fibras ópticas e condensadores do tempo no espaço imediato da relação humana, em que sondas espaciais vasculham o quintal cósmico de Júpiter e Saturno em silêncio e dão muito o que falar com revelações fantásticas que o futuro cuidará de desvelar aos nascituros, chega a ser miraculoso o fato de o homem ainda...falar. E nunca se falou tanto! Mais até: de manter em sua existência experiências da oralidade tradicional (Erfahrung, no sentido postulado por W. Benjamin), ainda que sob pressão da Erlebnis, ou a experiência imposta pelo capitalismo, que levou ao desenraizamento das referências coletivas, sobretudo as de procedência popular, substituídas que foram, também, pelos valores individuais e privados (GAGNEBIN, 1994).

Isto porque, na leitura de Adorno, Horkheimer, Benjamin e McLuhan, por exemplo, o ouvido tornou-se cultura arcaica, donde OLIVEN (1993) observar haver “uma tendência de considerar a oralidade como se fosse uma sobrevivência cultural que nos foi legada pelos primórdios da humanidade e a ser superada com o progresso da ciência e principalmente com a universalização da alfabetização.”

Motivo de preconceito, discriminação, resistência cultural, objeto de estudos avançados em Linguística, Etnografia, Antropologia, Sociologia, multiculturalismo, entre outras ciências, a oralidade foi por décadas omitida dos estudos literários acadêmicos. E, com a cientificidade decorrente do início do século XVII, o testemunho oral perdeu gradativamente sua força de convicção junto ao povo e as lides científicas, porquanto foi sua veracidade posta em xeque por novos parâmetros do conhecimento.

Na década de 50, porém, um grupo de historiadores passou a utilizar o método oral nos Estados Unidos e, em seguida, na Itália, antropólogos formalizaram a chamada Segunda Forma da História Oral, usada para reconstituir a cultura popular. Em 1975, realizou-se o XVI Congresso Internacional de Ciências Históricas de San Francisco, quando a História Oral foi apresentada como nova metodologia para a pesquisa. Na França, em 1980, aconteceu o primeiro encontro de pesquisadores que adotaram essa metodologia. Em 1983, a Fundação Getúlio Vargas integra em suas pesquisas o método. Em 1990, surgiu a quarta geração e hoje a oralidade está integrada com plenitude à pesquisa científica de ciências interdisciplinares em todo o mundo.

Por maior e mais descaracterizante que seja a espetacularização da cultura pós-moderna, mormente pela força midiática televisiva a destruir os focos originais das poéticas da oralidade – narrativas orais, manifestações folclóricas, mitos, repertório proverbial, transmissão sazonal de tradições, entre outras, - a oralidade vige e já tem até mesmo sua representação de fuxico virtual através da dialógica minimalista na rede social (Orkut, Twitter, Facebook, Myspace). Nunca se conversou tanto. E o celular é o proseado em trânsito, campeoníssimo não de bilheteria, mas de audição.

É o correspondente, nas etapas do desenvolvimento pelo conhecimento e pela informação, o que LÉVY (1996) convencionou designar o legado compreendido entre a oralidade primária (a palavra antes da escrita, pensamento por situações) e a oralidade secundária (a palavra verbal, pensamento por categoria).

LÉVY, há mais de uma década, postulava sobre o texto contemporâneo caracterizador da oralidade eletrônica: “Alimentando correspondências on line e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorializado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a co-presença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. De novo, os critérios mudam. Reaproximam-se daqueles do diálogo ou da conversação: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais; brevidade, graças à possibilidade de apontar imediatamente as referências; eficiência, pois prestar serviço ao leitor (e em particular ajudá-lo a navegar) é o melhor meio de ser reconhecido sob o dilúvio informacional.”

Não obstante a apropriação do legado das organizações sociais, que ainda assim resistem culturalmente, para exibição sob robustos patrocínios a justificar, economicamente, novas leituras de recepção de massa, e ainda que a originalidade oral sofra descaracterização, hibridização, incorporação, - mantém a oralidade (mesmo que não se saiba até quando), influência muito forte no modus vivendi da humanidade).

BARTHES (1964), dixit: “Os falares diferem de grupo para grupo, e cada homem é prisioneiro de sua linguagem: fora de sua classe, a primeira palavra marca-o, situa-o inteiramente e expõe-no com toda a sua história. O homem é oferecido, entregue pela sua linguagem, traído por uma verdade formal que escapa às suas mentiras interesseiras ou generosas.”

E por falar em falares, a oralidade tem ótimos parceiros nas unidades de Ouvidoria Pública, Parlamentar, Virtual, nas Reclamações Constitucional, Trabalhista, Pública, na Carta Reclamação, no Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), no Procon e Livros de Reclamação (tipo aqueles encontráveis em ônibus e aviões). Reclamar é um diferencial do brasileiro. E reclama porque quase sempre tem razão. Manchetes de jornais e de sites registram as centenas de causas: “Itaú prejudica quem reclama na Justiça” – “Qualquer miserável tem um carro, reclama comentarista da Globo” – “Como reclamar seus créditos no Skype” – “Telefonia móvel e Brasil Telecom lideram reclamações”. O brasileiro reclama contra bancos, consórcios, cooperativas de crédito, operadoras, fabricantes, atendimento bancário, cadastro de emitentes de cheques sem fundo, compras coletivas, produtos importados da China e do Paraguai, tarifas, aeroportos, convênios médicos, não cumprimento de prazos de entrega ou de montagem de mercadorias compradas no comércio... Existe no país, segundo Victor Oliveira, até uma Síndrome do Reclamão, que tem grande possibilidade de contágio no círculo social. Site com o nome “Ouvidoria do povo” tem texto que ensina “como formalizar uma denúncia/reclamação.” A reclamação está prevista na Constituição Federal, art. 102, I, 1. Existe inclusive um “Decálogo do Ouvidor”, que prescreve “evitar conclusões intuitivas e precipitadas, agir com modéstia e sem vaidade, manter o sigilo, ter autoridade para ser acreditado, ser livre para agir com isenção, não aceitar a intromissão de ninguém, ter coragem para decidir, ser honesto e ter vida pessoal correta, ser competente para ser respeitado, acreditar piamente que o seu papel de representante do cidadão comum é um sério compromisso em busca da satisfação do reclamante, do aperfeiçoamento do fato reclamado e da otimização da qualidade da instituição em que orgulhosamente é o seu Ouvidor.” Sem falar na Reclamação Constitucional e suas tendências dentro do Ordenamento Jurídico Brasileiro. Reclamar é fazer valer o direito da voz. É orar em causa própria. Blindar reivindicações, ressalvas, birras, cidadanizar a fala, defender-se contra abusos, oportunismos, fazer cumprir a ética de compromissos. Ivete Sangalo canta: “Meu amor só quero ouvir tua voz – mesmo que seja pra brigar, gritar e reclamar – só me responde de uma vez: - e agora nós?”

O cordel resiste como uma teimosia luxuriante, mas os Colóquios Internacionais sobre Poéticas da Oralidade, promovidos pela UnB, constituem focos de resistência contra sua desvalorização e desqualificação em nível nacional. Do mesmo modo que faz resistência o Festival de Oralidad Escénica en La Habana, Cuba, que se realiza em junho.

A Fundação José de Paiva Neto aprovou junto ao Pronac, em 2010, o projeto cultural Mestres e Griôs do Brasil – Vale do Paraíba, com o objetivo de instigar o processo de transmissão oral da cultura popular brasileira, além de valorizar, preservar e divulgar o patrimônio imaterial do país. Mestres e Griôs são líderes de grupos culturais e de associações comunitárias que trabalham com tradições orais e animação popular – congadeiros, foliões de reis e bois, cantadores de quadrilha, marujos, capoeiristas, jongueiros, sambadores, que transmitem a sabedoria da tradição oral por meio da fala e da palavra, além de repentistas, contadores de história, músicos, cantadores, compositores, trovadores e menestréis. Os produtos do projeto foram distribuídos pelo MEC para escolas, instituições culturais e entidades carentes de referências na área.

Tal como mitos messiânicos típicos de comunidades rurais, também compõem a cultura baseada na oralidade as promessas curandeiras e salvíficas das rezas, os conversês do compadrio e de vizinhança no interior e periferia urbana, a fofoca de boca em boca, a conservação quase sagrada de certos costumes e superstições, os recontos de causos adubados pelo imaginário popular, os estratos sociolinguísticos do repertório musical sertanejo, as corruptelas do analfabetismo, entre muitas outras coisas do povo.

A oralidade está viva nas narrativas ficcionais e ultrarrealistas das telenovelas, na malícia do linguajar do Big Brother ou A Fazenda, nos bordões/jargões dos locutores esportivos (nas transmissões do canal Esporte Interativo, os locutores disputam entre si quem fala mais, tornando cansativas as audições pelo volume de informações, a maioria inútil e fora de hora, com um detalhismo que rouba a cena lúdica dos jogos), de rodeios, leilões de animais, pregoeiros de rua, nos júris populares, nas entrevistas, jogadores de truco. E no que resta das quadrilhas juninas, folias de reis, congada, pastorinhas, autos públicos, boletins de ocorrência.

A sobrevivência da oralidade inclui a performance da piada e da gíria, que hoje têm quadros permanentes em programas do Faustão e de Tom Cavalcanti, além de no rádio, caso de Ary Toledo. A piada é uma performance oral que legitima a coesão de grupos. A audição de horóscopo pelo rádio mantém um hábito de crença arraigado no falar à consciência do imprevisível que condiciona o comportamento popular a uma tradição milenar. O signo zodiacal obriga a pessoa a “conversar” com sua própria consciência antes de tomar qualquer decisão diária.

O que resta do folclore sobrevive pela oralidade. Convida-se o(a) leitor(a) para saborear, sem preconceito e com alegria, o texto a seguir, de Patativa do Assaré, aliás Antonio Gonçalves da Silva:

Eu venho dêrne menino,
dêrne munto pequenino,
cumprindo o belo destino
que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquero,
sou o mais feliz brasilero,
eu não invejo dinheiro,
nem diploma de dotô.
Da minha vida eu me orgúio,
levo a Jurema no embrúio
gosto de ver o barúio
de barbatão a corrê.
Pedra nos casco rolando,
gaios de pau estralando,
e o vaquero atrás gritando,
sem o perigo temê.

A espontaneidade oral do poeta vai ser, no entanto, contestada por outro, o Compadre Lemos, que ajunta folclore, cordelismo e cibercultura e ataca com o seu “Novos tempos – o cordel na internet”:

É hora, então, de seguir
com a minha narrativa.
Que me perdoe Patativa,
se poeta eu quero ser.
Mas um assunto importante
me traz aqui, nesse instante,
preciso, pois, escrever.

Pois o leitor há de ver
que o mundo está diferente:
nos tempos de antigamente
o recurso era minguado.
A tal tecnologia,
que tanto nos auxilia,
não tinha ainda chegado.

Na internet ele lança,
seus versos, correndo a terra.
Divulgando, desde a serra,
onde mora, às capitais.
Sua poesia correndo
o mundo, e ele vendo
os resultados finais.

Empecilhos não há mais,
como tinha antigamente:
para se comprar, urgente,
um folheto de cordel,
tinha que ir lá na feira,
ter a sorte verdadeira
de achar o menestrel.

Pois hoje, é sopa no mel,
basta entrar na internet
e fazer uma enquete
buscando o nome da obra,
da editora predileta,
ou o nome do poeta,
que poesia tem de sobra!

E com tal expediente
não existe mais fronteira
a poesia brasileira
chega até no exterior.
O mundo inteiro conhece
e quem lê jamais esquece
dos versos nem do autor.

Se são versos de valor,
na internet há lugar.
E nós vamos encontrar
muitos sites de poesia
diversas comunidades
divulgando raridades,
o que antes não havia.

Lembremos: sem covardia
lutaram os ancestrais.
Esse legado jamais
morrerá como indigente!
O cordel, bem digitado,
se por nós for divulgado,
será, de novo, semente!

(publicado originalmente “Recanto das Letras” em 2/6/2008).

É a oralidade a legítima responsável pela difusão triunfalista da liturgia e da evangelização católicas e da “palavra de Deus” nas crenças dissidentes pentecostais, neo pentecostais e de procedências múltiplas, comuns ao self-service religioso hodierno. Não se pode esquecer de que a base da crença religiosa - o Antigo Testamento - é oral. E que os ensinamentos cristãos e de religiões orientais foram repassados através da oralidade.

A Bíblia contém de 550 a 1000 histórias que são subdivididas pelos retransmissores humanos da “voz de Deus”; 75% desse conteúdo são narrativas, 15% poesia e 10% expositivo. Toda a cosmovisão contida na oralização bíblica tem por objetivo responder: - quem sou? – onde estou? – que aconteceu de errado? – como acertar? As narrativas bíblicas oralizadas tomam por antecedente a própria Bíblia, quando registra”: “Nunca homem algum falou assim como este homem” (João 7:46). Estas são informações extraídas do documento “Oralidade no ensino”, da internet, produzido pela FALE/UFMG, Bh, 2004.

O ano de 2012 será particularmente “interessante” para a oralidade escatológica das religiões. A previsão é de que o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro em consequência de um alinhamento astronômico que acontece a cada 26 mil anos, simultaneamente a um fenômeno chamado precessão, que provoca mudança no eixo da Terra. Essa inversão ocasiona colossais tormentas solares. Em nível religioso, há quem acredite ser 2012 o ano da “abominável desolação” de Jesus, registrada pelo profeta Daniel, o ano da “grande estrela ardente com um facho, chamada Absinto”, do Apocalipse de João; “o grande rei do terror”, “o monstro” ou “o novo corpo celeste”, de Nostradamus; “o astro intruso” ou o “planeta higienizador”, de Ramatis; o “planeta chupão!, citado por Chico Xavier; o Hércólubus, da Gnose. Cientistas comprovaram ser possível que Nêmesis, a deusa da vingança ou ‘estrela da morte” – uma massa de fogo decorrente do Sol – poderá causar imensa cratera na Terra, tal como ocorrido no Caribe no período cretáceo, há 65 milhões de anos, eliminando os dinossauros. As profecias relatam a possibilidade de a Terra vir a se chocar com asteroides como o QQ47, VD17 e o Apophis. A Profecia Hopi, tradição oral dos índios do Arizona (USA), previu guerras mundiais e armas nucleares, mas também a data de 21 de dezembro de 2012 para o fim do mundo. A tradição hindu previu este final com o Kali Yuga (Idade do Ferro), a última era do grande ciclo manvatárico. O sacerdote maia Chilam Balam previu, para este ano, o retorno da Divindade Suprema à Terra, que tanto poderá ser Cristo ou os Filhos do Sol, quando então terá início o “mundo da regeneração”, como os espíritas caracterizam uma nova era.

G. Ricouer(1 971) refere-se à escatologia como “visão da profecia que realiza a transgressão da narrativa.” Na sua gênese, destaca CARMELO (1993), a profecia é um ato de premonição do futuro, mas também e sobretudo, de diálogo entre o homem e a divindade, e ela configura a narração dos fins (ou a transgressão da própria narração), pois constitui o anúncio da revelação do futuro, ou da configuração de um fim, onde é realçado o papel de um enunciador onipresente e dotado de saber totalizante.

Na narração escatológica que a alteridade dos códigos cristão e islâmico refletem há uma dimensão manifestamente antropomórfica na descrição do paraíso e do inferno. E, em ambos, são os corpos que ou sofrem ou se deleitam, enquanto as vozes imploram ou dialogam, analisa CARMELO (1993). O enunciado escatológico é o “dito”, o que materializa um texto oral ou escrito no ato de dizer e, com ele, o sujeito enunciador pode criar os seus próprios destinatários, mesmo porque, a enunciação se baseia na prática profética de vaticinia ex-eventum. Por isso, o fenômeno religioso, segundo DUCROT (apud CARMELO, 1993), poderia ser explicável, caso a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem.” A enunciação, por sua vez, implica em enunciados performativos, que são “pedir, prometer, ordenar”, que constroem um horizonte projetivo, tal como as parábolas que, enquanto enunciados valem por acontecimento que deixam em aberto um acontecimento futuro.

É ego quem diz ego”, assevera E. Benveniste (apud CARMELO, 1993), que acrescenta: “a capacidade do locutor se colocar como sujeito é uma condição essencial da linguagem.” Donde a “força” persuasiva de padres e pastores nos planos de comunicação e da ritualização (parascese cristã). E essa força cresce em sentido porque baseia-se no exemplário oriundo das próprias Bíblias, dos livros sagrados que informam o que foi antes oralizado. CARMELO (1993) diz: “A enunciação verbal do material linguístico é dominada pelo diálogo, enquanto modalidade discursiva. Isto quer dizer que o ato de dizer (de revelar) é corporizado através de uma alteridade propositadamente instituída. Assim sendo, os relatos são enunciados por dois actantes em posição bipolar. Por sua vez, os relatos são enunciado no interior dos diálogos (o enunciador de um relato é um narrador, logo um dos actantes presentes narra ocorrências ao seu receptor mais imediato). O discurso criado pela enunciação conduz à categorização de actantes bipartidos, que constroem destinatários também bipartidos: os que se salvarão (os crentes) e os outros, que não cumprirão os preceitos e o contrato ético, os infiéis.

Revelações escatológicas tais como as que anunciam o fim do mundo em 2012 põem em discussão a realidade da metanoia, ou a recolocação do referente num modelo salvífico, e incorporam a palavra e o discurso linguístico para materializar a reposição do real e tornar audível, visível e convencível a dicta. Como fato seletivo, diz CARMELO (1993) “o ato profético opera a partir de uma amálgama onde combinam a ação de predizer o futuro, a ação de invocar ou falar em nome de Deus, e a ação de presumir uma eventual revelação do plano divino.” A oralidade legitima o Verbo. Donde Covarrubias (apud CARMELO, 1993) estabelecer uma série de critérios para criar uma codificação para a prática profética, onde, entre outros, prevalecem como parâmetros “a observação dos impactos do enunciado no real”, “os hábitos do que revela, a respeitabilidade e a pertinência do que é revelado”, a “verificação da verdade da profecia com respeito à voz divina.”

O que essencialmente importa aqui é concluir se a hierofania – rito, mito, cosmogonia – será, pelo enunciado oral materializado em escrita, uma prática premonitório profética ou uma revelação de Deus. Quem viver verá.

Toda a mercantilização das religiões na atualidade têm por maior força e interesse ampliar o máximo possível o espaço de audição para pastores, missionários e padres. A partir dos anos 50, o que perdura até hoje e com certeza manter-se-á, os programas radiofônicos e depois televisivos das igrejas tinham e muitas ainda têm nomes como “a voz da libertação”, “a voz do Brasil para Cristo”, “a voz da nova vida nas rádios”, “a voz da nova aliança”. A estratégia do marketing religioso evangélico revitaliza até mesmo as chamadas “horas mortas” das madrugadas com a apresentação de papos ao vivo com telespectadores, cultos, aconselhamentos, pregações, venda de produtos, reprises de programas, tudo baseado na oralização na atividade religiosa dominada pela lógica da economia de mercado.

O ensino à distância ainda não superou por meio de tecnologias didáticas a pedagogia freireana da fala, do “cuspe e giz”. Para obter resultados plausíveis à questão de qual é o papel da escola no resgate das narrativas orais experienciais, OLIVEIRA (s/d) fez estudo com alunos de uma escola pública de Araraquara, Sp, cujos procedimentos metodológicos obtiveram respostas enriquecedoras da tópica para a Educação. Um, de que, para uma aluna do Ensino Fundamental, a lenda do Saci Pererê, que põe em analogia “as relações paradoxais entre os produtos do aparato midiático da indústria cultural e a tradição oral decadente”, - origina-se do programa de Tv “Sítio do pica-pau amarelo”, mas não de uma lenda secular. Com a segunda experiência, o referido professor observou o blá blá blá literal provocado por uma narrativa a respeito dos sonhos premonitórios, quando vieram à tona, na profusão de falas discentes, “aspectos metafísicos do imaginário humano” que as pessoas criam quando não conseguem explicar situações que não são esclarecidas pela ciência. A terceira narrativa exemplificou a Erfahrung benjaminiana por trazer de volta “vislumbres da experiência tradicional” através de um aluno que fundamentou pesquisa na internet sobre lagarto típico do sertão nordestino com seu relato alusivo à trajetória da vida do seu avô, migrante naquela região árida, que por vezes se alimentou do referido lacertílio. Concluiu-se de tudo, portanto, que a escola é, antes de ter qualquer outra função, um espaço de diálogo, de conversa, de comunicação oral.

Com base nas ideias de Antonio Faundez e Paulo Freire, assinala KAHMANN (2005), postula-se a inserção da oralidade e da cultura popular nas metodologias de ensino e redimensionam-se os princípios éticos da atividade docente. Ou seja, “o resgate da cultura oral como ação pedagógica para subsidiar a prática educacional, notadamente, na educação de jovens e adultos.”

Esta autora vai lembrar, com base em Harvey (1992), que o esvaziamento da oralidade se relaciona com o esmaecimento dos afetos e com a mudança de paradigmas vivenciada pela sociedade globalizada, cabendo aos profissionais da Educação comprometidos com a formação para a cidadania propor o enfrentamento entre passado e futuro, numa dicotomia que envolve a perspectiva da História como possibilidade num mundo cambiante e os eventos que constituíram o tempo presente.

Freire robustece a argumentação da necessidade da oralidade no contexto educativo: “Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise falar a ele. O que jamais faz quem aprende a escutar para poder falar com é falar impositivamente. O educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, às vezes necessário, ao aluno, em uma fala com ele.” Donde o diálogo ser, na pedagogia do oprimido, o recurso capaz de superar a visão autoritária, de competitividade e de convencimento, que em geral se faz presente no contexto da comunicação atual (MÜHL e BIAZUS, 2007 apud KAHMANN). Foi o que fez também Antonio Faundez na África, que observou o êxito dos métodos que privilegiavam a oralidade, valorizando a diferença em projetos nacionalistas agregadores de valores africanos, mas contextualizados de modo multiétnico dada a sua dimensão continental.

A presença da oralidade traz também à reflexão a questão sempre emblemática da submissão da soberania, mormente em países sob a condição neo colonialista. CARVALHO (2001) afirma que “a condição da subalternidade é a condição do silêncio”, que pela via marxista está na “representação enquanto um modo de retratar os sujeitos representados por seu porta-voz, que inevitavelmente deve também auto representar-se como sujeito histórico nesse processo.”

Talvez tenha sido essa enunciação o que levou Bakhtin à exotopia – ao diálogo que não pertence a ninguém, mas ao espaço exterior da relação do sujeito com a alteridade (BAKTHIN, 1990).

A oralidade não existe quando prevalece a “retórica da autoridade”, a “linguagem de dominação”, quando supera impositivamente o legado de pertença, a significação coletiva pela violência e ela se torna discurso do dominador e este põe na arena dos interesses o controle da narrativa histórica, porque por meio da raiz das falas está toda uma cultura, um modo de ser, de pensar e de agir que se opõe à ação descaracterizadora do discurso dominante. A morte recente do ditador Kim Jong-il, cujas imagens censuradas liberadas para a mídia televisiva mostraram pateticamente até um povo carpideiro encomendado para lamentar a perda do seu ditador, não esconderam, todavia, a apreensão do mundo devido ao arsenal nuclear da Coreia do Norte. Na tentativa de censurar críticas ao seu questionável 2º governo, em exercício ridículo de coerção, a presidente da Argentina, Cristina Kirschner pôs-se a controlar, em dezembro de 2011, até a compra de papel pelo Grupo Clarín, seu maior opositor.

O livro de contos O regresso do morto, do moçambicano Suleiman Cassamo, discute justamente oralidade, memória, tradição, migração rural/urbana, constituintes da identidade nacional, para cuja questão recomenda-se leitura de ensaio de Rosilene Silva da costa. Ambos, ficcionista e ensaísta, discutem a perda da identidade a partir da má influência da dominação, uma vez que a ascensão do nada para o nada e alguma coisa que pensa e age implica na anulação das raízes culturais e religiosas. Obriga-se a falar português em detrimento do dialeto moçambicano, cujos letramento e alfabetização, neste idioma, impõe inclusive ao povo abandonar sua oralidade. O processo de desenraizamento africano em função do branqueamento cultural europeu, analisa COSTA (2008), sofreu até processo de abandono por parte da ONU, e Mia Couto e Noêmia de Souza são duas autoras denunciadoras da crítica situação naquele país.

A ficção de Cassamo atesta o imbricamento de línguas sob o ponto de vista da resistência oral evidente nas culturas tradicionais de Moçambique.

Ninguém desconhece a existência do controle da liberdade de imprensa em vários países do mundo, com ênfase na China, Irã, Cuba, e, claro, na América Latina de Hugo Chávez, que afronta 50 dos 240 veículos de comunicação da Venezuela que se opõem ao seu governo caudilhesco, acusando-os de “terrorismo midiático”, o mesmo fazendo Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador, inclusive com instauração de conselho de fiscalização e licença provisória de funcionamento exigida para toda a imprensa, a fim de evitar críticas aos seus mandos neoditatoriais. Honduras e Nicarágua também têm casos de censura, coerção a órgãos de imprensa e ameaças de morte a jornalistas.

No Brasil, o Estado de S. Paulo está há um ano sob censura impetrada pelo Poder Judiciário e na data de 20 de dezembro de 2011, o ministro Marco Aurélio Mello reduziu os poderes de investigação do Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle do Judiciário. Com essa imposição, o CNJ não poderá mais tomar a iniciativa de fiscalizar, investigar ou punir juízes antes que os tribunais nos quais atuam em seus respectivos Estados tomem a iniciativa. Isto, em ato concomitante da corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, que em entrevista à Associação Paulista de Jornais declarou que a Associação dos Magistrados Brasileiros, à qual apresentou, sem sucesso, pedido para investigar e punir juízes, “é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos escondidos atrás da toga.”

O livro Cala a boca, jornalista, de Fernando Jorge (Editora Novo Século) relata arbitrariedades cometidas contra a imprensa pelo Estado brasileiro, desde a época do império até a ditadura militar.

Os mecanismos censores dos poderes, incluso o econômico, são impostos para tentar anular a informação sob a luz da verdade, da transparência e da ética, por isso agregam desde o desaparecimento de profissionais da imprensa livre à distribuição controlada de publicidade oficial, de processos na Justiça a expedientes torpes para calar os opositores e impedir o exercício crítico e investigatório da imprensa na América Latina.

O que se quer ressaltar é a vigência do controle da fala, portanto da oralidade, principal matéria-prima da notícia, submetida a cortes quando de entrevistas, de depoimentos, de testemunhos comprobatórios de fatos que os Poderes Constituídos tudo fazem para não permitir virem a conhecimento público, pois, quase sem exceção, vive-se em um regime democrático em que o staff oficial é mantido de rabo preso, em estado de cumplicidade recíproca. Em se tratando de política, o oral não pode ter registro nos anais. E, quando isso ocorre, cabe aos Poderes Constituídos negar tudo em nome de argumentação falaciosa, ainda que seja preciso impor leis para fazer da mentira a verdade dos que se beneficiam de expedientes escusos. Por isso a corrupção é a oralidade que se cala por força da impunidade.


História Oral ensina que o povo está cada vez mais sábio

A História Oral tem hoje a vantagem de desmascarar o falso poder de Pinóquios, os usurpadores do poder, as elites fechadas em redomas de cristal ou condomínios bunkers, os historiadores arranjados por conveniência, os documentos mantidos a 7 chaves para evitar confrontos com a verdade dos fatos, os formadores de opinião pagos com o dinheiro dos contribuintes, os lobos em pele de cordeiro, os oportunistas de plantão, os apologistas só do passado, os espertalhões que se fazem de coitadinhos, os(as) que têm a língua maior do que a boca, os capachos da política que tiram proveito do povo, os que só criticam e não fazem nada pela população, os que fingem e desdenham, os que usam de influência para esconder sua própria cooptação.

A História Oral esvaziou definitivamente toda e qualquer tentativa de se impor uma cronologia linear com os “cães de guarda” da ideologia dominante. Por isso, ela tem três “reivindicações”: 1. contra a História antiga, a anterioridade milenar; 2. contra a História oficial, uma História vista “de baixo”; 3. contra a ficção da objetividade, uma ciência engajada (Trebitsch). A História Oral se sustenta com a História local e o comunitário, a História dos humildes e dos sem História. Tira do esquecimento aquilo que a História oficial sepultou, desdenhou, marginalizou, fingiu não existir. Ela nasceu do empenho em preservar a cultura popular ameaçada pelo progresso.

A História Oral privilegia a “expansão do jornalismo popular” e não combina com a pretensão de salvar do naufrágio o mundo que perdemos. Michel Trebitsch analisa: “A História Oral não está equivocada: é retorno, repetição e adaptação dos grandes paradigmas sobre os quais o populismo, já desde o século XIX, sonhou reconciliar o saber com o povo. Opondo-se à fria trilogia acadêmica – revolução, memória, escrita, - a sua própria trindade – revolução, memória, oralidade – a História Oral assume um projeto utópico de democratização da História, contra a instituição, a civilização, o progresso, a cidade, propondo-se devolver a palavra ao povo, ao rural, ao primitivo. História quente, militante, História dos excluídos, em que o oral se opõe ao escrito como a natureza à cultura, o vivenciado ao concebido, o verdadeiro ao artificial, a História Oral construiu sua identidade sobre um sistema maniqueísta de antinomias, de que decorrem os seus princípios metodológicos – uso da pesquisa de campo e da observação participante, abertura interdisciplinar para as demais ciências sociais.”

A História Oral se faz com life histories (histórias de vida), defende os movimentos dos direitos civis, a História com sabor local, a “cultura do pobre” (Richard Hoggart), uma nova História Social que privilegie o estudo da vida cotidiana dos trabalhadores (família, mulheres, lazeres, cultura). Ela tem por princípio “democratizar a própria História” (Paul Thompson), devolvendo a palavra aos operários das fábricas, aos militantes políticos, às mulheres. Apresenta-se como reconquista da identidade. Opõe-se ao que J.P. Faye qualificou como “linguagens totalitárias” e leva à convicção contestadora de que é preciso devolver a palavra à criança, ao louco, às minorias sociais, raciais, sexuais, oprimidas.

“Contra a instituição, diz Trebitsch, a escrita, o poder, emerge o apelo da vivência, do indivíduo cotidiano, da família, da sexualidade, do nascimento e da morte que vai resultar na busca de identidade e na nostalgia passadista, na moda do biográfico e no retorno às raízes.” A História Oral busca um “lugar de memória em que a palavra seja dada ou devolvida aos anônimos e aos subalternos”, capaz esta de promover, por sua vez, a “antropologia histórica da mudança”, que será caracterizada “pela vida cotidiana, pela família, pelos gestos do trabalho, pelos rituais e pelas festas, pelas sociabilidades, que privilegie o testemunho e a fonte oral, liquida a oposição, oriunda de 68, entre cultura popular e cultura erudita, ao sublinhar o quanto a oralidade está transcrita e inscrita no livro, nos cartazes, no panfleto.”

A História Oral tem todo o excessivo cuidado em não se deixar calar ante as armadilhas que forjam o “silêncio da memória” (Nicole Lapierre). A História Oral inscreve-se no campo da História imediatamente contemporânea, História do tempo presente, História com testemunhas, que questiona a própria noção de arquivo. E ela é, segundo Michael Pollak, “a arma utilizada por uma jovem geração de pesquisadores marginalizados”, sobretudo a partir dos anos 80, quando recebeu a consagração oficial do Congresso Internacional das Ciências Históricas em Bucareste, e conquistou, em caráter definitivo, sua legitimação. A leitura providencial de Trebitsch vai de encontro aos objetivos de historiadores de hoje, porque ela reconquista a memória.

A História Oral, segundo Sá Motta, é a “História como experiência humana e essa experiência, por ser contraditória, não tem um sentido único, homogêneo, linear, nem um único significado.” Significa, portanto, resgatar as injunções que permitam concretizar a possibilidade de fazer História, porque, relembrando com Ferreira Gullar – “só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz.” Em alto e bom tom.


Por sua sábia oralidade pública, a rua é a universidade da vida

Torquato Neto tem razão: “Toda rua tem seu curso – tem seu leito de água clara – por onde passa a memória – lembrando histórias de um tempo – que não acaba” (“A rua”). João do Rio tem razão: “A rua tem alma, é agasalhadora da miséria, é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, é a transformadora das línguas. A rua nasce do soluço, do espasmo, pois há suor humano na argamassa do seu calçamento. A rua criou todas as blagues e todos os lugares comuns. Ela comete crimes, desvaria a noite. Faz as celebridades e as revoltas. Para gozar as delícias da rua (...) é preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível. É preciso flanar – distinção de perambular com inteligência. Porque o flanêur é o eterno convidado do sereno.” Se as ruas são entes vivos, ele o diz, as ruas pensam, têm ideias, filosofia e religião. E vai fundo mundanamente: “Rua foi feita para ajuntamentos. Rua é como cobra, tem veneno. Ela cria o seu tipo, plasma o moral dos seus habitantes, inocula-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas.”

“A rua é civilização da estrada”, ainda João do Rio, porque “ela faz o indivíduo”, “resume para o homem todos os ideais, os mais confusos, os mais antagônicos, os mais estranhos, desde a noção de liberdade e de difamação, até a aspiração de dinheiro, de alegria e de amor.” O autor de “A alma encantadora das ruas” descobriu que “há uma estética da rua”, por ser ela “o motivo emocional da arte urbana mais forte e mais intenso.” A rua é responsável por haver uma “arte social”, “músicos ambulantes”, “musas povo”, repentistas e pregões, artesãos, artistas naîfs, cordões, quitandeiras, alquimistas e adivinhos, raizeiros, catireiros, anônimos que trocam experiências com anônimos todo o tempo.”

Em nível da oralidade, a rua é a hora da verdade de um povo. É o seu termômetro de valores. É o sangue de todos os tipos. A rua é universidade sem diploma. O cotidiano da vida, a intimidade pública. A História de todos todo o tempo. A rua é a mãe da tradição. O alto-falante da fofoca, do boato, da intriga e da maledicência. A rua é a mestra do êxito e do fracasso. O relicário da memória e do esquecimento. Para o bem e para o mal, a rua é política. Ela tanto se prostitui quanto corrige, tanto enriquece quanto leva à bancarrota. A rua é ética e anarquista. Ela tem a sabedoria das esquinas, a paciência dos que se encostam em paredes para ouvir e explicar, tem a velocidade dos arrependimentos. A via é uma extensão da casa para o povo brasileiro que valoriza a vida ao ar livre. A rua marca o ritmo da cultura. A rua é, segundo Frúgoli Jr., a figura do transeunte tornada visível por meio de uma etnografia do passado, que abrangeu e articulou notícias, crônicas, cartas, editoriais jornalísticos, memórias e fotografias, mas também desrespeitos, grosserias, mulheres de vida alegre, preconceitos, hábitos inadequados, as festas urbanas, o comércio ambulante, tudo constituindo as interpretações nativas – mapeamento das diversas historicidades da antropologia urbana. Colette Pétonnet denominou de “observação flotante” o exercício de observação de pesquisa na rua: caminha-se muito com a História. Funde-se à multidão. Torna-se a pertença do outro. Adota-se a rua como morada do anônimo com as direções e sentidos que conduzem a certos lugares, cenários, paisagens.

A rua tem orelhas em pé. A rua é a História. Onde a vida pulsa, aí a História se escreve por si mesma. Porque a rua é, antes de tudo, oral.


Quando morre um ancião, se perde uma biblioteca”
            
(Hampaté Ba, africano, citado por Suleiman Cassamo)

Um estudo a respeito da morte da narrativa, de Oswaldo H. Duek Marques, publicado na revista Conhecimento Prático – Filosofia”, toma como fundamentais dois textos de Walter Benjamin da década de 1930 (“Experiência e pobreza” e “Narrador”), com o objetivo de demonstrar que o desaparecimento da narrativa acarretou consequências para a subjetividade diante do laço social no mundo capitalista moderno, sobretudo no que se refere à temporalidade para o sujeito, quando, também, ocorre a decadência da comunicabilidade de experiências por meio de narrativas.

Benjamin assinala a impossibilidade da existência de processos narrativos na sociedade contemporânea de consumo e, para ilustrar seu argumento, relata a parábola do velho que no momento da morte revela aos filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. A revelação leva os filhos ao trabalho de cavar, sem, porém, descobrir o tesouro anunciado pelo pai. Ante a expectativa fracassada, compreenderam então que o pai lhes havia transmitido certa experiência: a de que a felicidade não está no ouro, mas no trabalho.

Esse tipo de experiência, vigente hoje em situações e circunstâncias as mais diversas, põe em foco a “autoridade da velhice” mediante a narração de provérbios, histórias, ditos populares, tradições ameaçadas de extinção. Se aquele velho transmitiu sabedoria aos filhos, fê-lo por ainda existir condições consentâneas a esse tipo de transmissão de conhecimento. A partir da sociedade burguesa do século 19, segundo Benjamin, o distanciamento mantido entre indivíduos prevaleceu como “realidade inexorável”, mas porque privou-se, desde então, o convívio com os moribundos, que passaram a ser internados em hospitais, onde permaneceram “enxutos de eternidade”. Benjamin, contudo, defende a transmissão de experiências pelos mais velhos por esses deterem sabedoria de toda uma vida a ser posta em relato real.

Marques sustenta que com o desaparecimento progressivo da narrativa, perdemos a faculdade de trocar experiências, uma vez que esta “propicia a atualidade de um acontecimento passado, mas, para que ocorra, são necessárias certas condições, incompatíveis muitas vezes com as circunstâncias verificadas na sociedade contemporânea.” Isto porque, acrescenta o ensaísta, na sociedade de consumo exacerbado, na qual o tempo é fator de decisão humana a cada momento, por ter um custo, já não há lugar para a pausa, para o momento da escuta necessário à transmissão e à recepção da experiência.

E cita Jeanne Marie Gagnebin: “A experiência transmitida pelo relato deve ser comum ao narrador e ao ouvinte. Pressupõe, portanto, uma comunidade de vida e de discurso que o rápido desenvolvimento do capitalismo, da técnica, sobretudo, destruiu. Esse caráter de comunidade entre vida e palavra apoia-se ele próprio na organização pré-capitalista do trabalho, em especial na atividade artesanal. A comunidade da experiência funda a dimensão prática da narrativa tradicional. Aquele que conta transmite um saber, uma sapiência, que seus ouvintes podem receber com proveito. Sapiência prática, que muitas vezes toma a forma de uma moral, de uma advertência, de um conselho, coisas com que, hoje, não sabemos o que fazer, de tão isolados que estamos cada um em seu mundo particular e privado.”

Adveio desse fosso de impossível interatividade humana o que Marques chamou de “pobreza de experiência comunicável”, para, com base também em Benjamin, concluir que “a humanidade preparava-se para sobreviver à ausência de cultura e tradição.”

A constituir-se um paideuma da oralidade, alguns autores são imprescindíveis: Jacques Derrida, Michel Foucault, Raymond Williams, Paul Zumthor, Walter Ong, Peter Burke, Bernard Mouralis, André Jolles, Mattoso Câmara, Câmara Cascudo, Eric Havelock, Terezinha Ward, Mário Silva Leite, Maria de Carvalho Pires, Maria Teresa Meireles, Mikhail Bakthin, Walter Benjamin, Paul Ricoeur...


Oralitura: a voz das Antilhas

O mais importante evento a respeito da oralidade no país deu-se com o 1º Seminário Brasileiro de Poéticas Orais: Vozes, Performances, Sonoridades, realizado pela Universidade Estadual de Londrina, (UEL) PR, em outubro de 2010, cujos anais estão disponibilizados na internet e que constituem um acervo imprescindível para se conhecer sobre o assunto de modo sistemático. Louve-se a iniciativa e que ela, além de prosseguir, que contamine de ânimo outros Estados e instituições acadêmicas a fazer o mesmo.

Organizado por Frederico Fernandes, Marcelo Jardim e Felipe Ewald, do Programa de Pós-Graduação em Letras (Estudos Literários) da UEL e com apoio financeiro da Fundação Araucária, o evento foi justificado pela amplitude das áreas envolvidas com a oralidade, agregando desde as ciências da Saúde, Psicologia, Linguística Aplicada, História, Antropologia, Sociologia,em projetos, estudos, debates que vão de referências da Antiguidade Clássica a textos de vanguarda e multimidiáticos, reunidos numa cartografia entendida como “conjunto de diferentes olhares e pensamentos, numa relação de espaço/tempo determinada.” E, com isso, objetivou instituir uma “metacrítica sobre o ofício de coleta da poesia oral frente a diferentes correntes de pensamento e provocar o diálogo entre elas. O Seminário teve 5 eixos temáticos enfeixados entre si por interdisciplinaridades, com questões alusivas à oralidade e Educação, Literatura, mídia, performance, e dicotomias como erudito X popular, folclórico X canônico, escrito X oral.

Tudo que está disponibilizado nos Anais é muito importante, mas um ensaio é particularmente informativo para o leitorado brasileiro no que tange à questão da oralidade no arquipélago das Antilhas, Martinica e Guadalupe, ex-colônias francesas, hoje integradas ao Estado da União Francesa. A autora, Margarete Nascimento dos Santos é pós-graduada pela UNEB. A pesquisa indica que o conceito de oralitura, adotado pelos escritores antilhanos a partir da década de 80, foi criado pelo psiquiatra martinicano Frantz Fanon em seu livro “Pele negra, máscaras brancas”, escrito na década de 50, no qual, já no primeiro parágrafo declara que “falar é existir absolutamente para o outro.”

Com a oralitura, os antilhanos instituem o movimento intitulado de créolité, com o objetivo de “prezar pela memória coletiva local que está essencialmente forjada na oralidade e que representa as suas tradições” (SANTOS, 2011, p. 393). Forçados a abrir mão de suas tradições, língua e cultura em função da hegemonia francesa, após a abolição, os nativos se viram numa aporia social e econômica, e o “ceder para ganhar” os obrigou a, entre outras situações, conviver com a diglossia, ou a coexistência de duas línguas com estatutos diferenciados, uma com prestígio e adotada nas escolas, outra oral, restrita à prática em família. Essa situação, todavia, segundo Confiant (apud SANTOS, p.397) provocou uma “guerra conduzida pelos franceses contra o créole [e] imprimiu um forte sentimento de culpabilidade linguística na psique dos antilhanos, sentimento que conduziu alguns ao caminho do suicídio linguístico: não mais querer falar esta língua ancestral e proibir às crianças de a utilizar.”

O termo oralitura foi cunhado pelo haitiano Ernst Mirville, usado pela primeira vez em 1974 e, conforme Mekisono (apud SANTOS, 2011, p.397) a passagem da oralidade para a oralitura é a passagem da memória a curto termo à memória interindividual a longo termo. Donde ela caracterizar mitos, epopeias, contos, canções, provérbios, ditados, adivinhas, uma vez também que a cultura naqueles países é essencialmente proveniente da oralidade.


Oralidade na narrativa contemporânea brasileira

O reconhecimento da elaboração da oralidade na Literatura contemporânea brasileira, onde este fator é de grande importância etnográfica, cultural, antropológica, literária - coincidiu, diz PETI (2005), com a série de transformações ocorridas no país, dentre elas as mudanças políticas, o processo de democratização, a alteração dos costumes, o crescimento do papel da mulher na sociedade, a crescente força da mídia e o surgimento da internet.

Em nível linguístico, destacou-se a Análise da Conversação, que permitiu novo discernimento da língua oral, o que levou ao fato de que não se pode estabelecer dicotomia rígida entre fala e escrita, dada a reciprocidade de suas influências. A organização textual e interacional da fala, observa Petri, foi percebida nos marcadores conversacionais (então, daí, certo, bem, eu acho, entre outros), repetições e paráfrases, parentéticas, sobreposição de vozes, anacolutos, hesitações, correções, frequência de construções impessoais de fundo atenuador, entre outras. Na sintaxe, a predominância de períodos curtos, justaposição, frases incompletas (frases mínimas destinadas à compreensão rápida e instantânea pelo ouvinte), baixa ocorrência de subordinação, principalmente de orações adverbiais. No vocabulário, o uso intensivo de gírias, vocábulos obscenos ou injuriosos, como elementos da linguagem afetiva.

Ainda que se reconheça que a escrita, literária ou não, jamais será a representação absoluta e fiel da fala, as marcas da oralidade se fazem presentes no texto linguístico e literário com seus esquemas de conhecimento, suas estruturas de expectativa, suas repetições. Petri analisa essas marcas no conto “Paulinho Perna Torta”, da obra “Leão de chácara”, de João Antonio, mas faz alusão também a obras de Rubem Fonseca, Luís Vilela e outros autores. O ensaísta não olvida os nomes de Mário de Andrade e Alcântara Machado como autores que se preocuparam com o aproveitamento da linguagem oral em seus livros.

Sem a mínima intenção de formalizar uma taxonomia da oralidade, mesmo porque não é este o objetivo deste trabalho, pode-se, para efeito de exemplificação, reunir algumas referências interessantes aos leitores a fim de contextualizarem-se na tópica.

Tome-se, por isso, o caso da Literatura indígena contemporânea no Brasil, na qual, diz GRAÚNA (2010) a oralidade continua viva, seja por meio de versos ou das narrativas, seja a narração dos mitos de origem, dos eventos astronômicos, das migrações de diferentes grupos étnicos, dos conflitos intertribais, entre outros acontecimentos que marcaram as sociedades indígenas antes e depois da irrupção dos colonizadores.

Sob a argumentação de Stuart Hall de que é desafio “existir como uma identidade ao longo de uma larga gama de outras diferenças”, Graúna pesquisou que Daniel Munduruku e outros escritores indígenas “dissolvem as fronteiras na contação de histórias” para desfazer a imagem errada de índios serem selvagens, preguiçosos, incompetentes, arredios.” E completa: “A Literatura indígena contemporânea é um lugar utópico de sobrevivência, uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos 500 anos de colonização. Enraizada nas origens, a Literatura indígena contemporânea vem se preservando na auto história de seus autores e autoras e na recepção de um público leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones.”

Para melhor reconhecer a importância da oralidade na formação do leitor literário, e, por conseguinte, do acervo bibliotecário disponível, são múltiplos os projetos, hoje, destinados a serem facilitadores da compreensão da leitura, de modo a envolver o ouvinte em relação ao texto narrado. A oralidade pode, com certeza, contribuir muito para a criação do hábito de leitura, para a formação de um leitor crítico e resolutivo de seus problemas pessoais, de vir a se expressar com desenvoltura e adotar repertório mais amplo, além de levá-lo a pensar numa dimensão mais vertical, entre outros benefícios.

Nesse contexto, o conto popular narrado, de que Câmara Cascudo é referência axial, projeta recursos criativos de linguagem utilizada na passagem da oralidade para a escrita, por pressupor sempre uma voz que narra e que se entende por um autor que “escreve como quem fala e um leitor que lê como quem ouve” (AZEVEDO, 2006).

Exemplo típico dessa situação oral está contido no poema “Iscrevênu cértu”, do paulista O. A. Secatto, que pela originalidade referencial deve ser transcrito na íntegra:

Issu é realménti álgu in purtugueis?
Já conféssu: difícil precizá...
Mió: áchu que sin. Ténu sua veis,
El´é u suficiénti pra m´ispressá.
Língua, característica du hómi,
téin qui evoluí, si dizinvolvê.
Tud´as coisa qui num si usa, sómi.
Vão simplisméinti dizaparecê...
Mais nota uma coisa, qurénu ô não:
apesar d´iscrevê cómu se fala,
nóis segui as regra di acentuação...
quéin vinha reclamá lógu si cala.
Até as rima fica boa à beça!
di poesia, um modêlu mais abértu:
já vô dânu meu ezêmplu cun essa.
Acompanha essa grafia di pértu,
vai treinânu, nun priciza tê pressa...
Aí, sin, vai tá inscrevénu cértu!

(In: Antologia de poesias, contos e crônicas da All Print Editora, p.168, São Paulo, 2011).

Note-se, também, e a propósito, que boa parte da produção literária infantil contemporânea assume esse desafio de criar o interesse pela leitura através da narração inclusive do autor narrador.

A oralidade é sentida (literalmente) também nos contos de Marcelino Freire, especialmente em Contos negreiros (2005), que teve por parte de FERRAZ (2009) a seguinte leitura (excerto): [Os contos] são “o testemunho e a corporificação do sofrimento na palavra oralizada. (...) Para isso, a escrita aproxima-se do pensamento, adota a gíria, abole diferenças entre o texto escrito e o falado e busca nas personagens não convencionais uma maneira de mostrar a sociedade através de imagens não idealizadas. (...) Nos 16 contos de seu livro predomina uma violência impactante que prescinde da descrição minuciosa, pois é transmitida pela fala das personagens que levam o leitor a construir em sua imaginação um cenário social, a partir dos conhecimentos que ele próprio possui sobre aquele tipo de indivíduo ou evento. (...) Ouvir, falar, partilhar o que é traumático é uma forma de restabelecer o equilíbrio perdido. (...) Esta problemática do testemunho situado entre a realidade e a ficção é facilmente notada na Literatura Marginal da atualidade, vertente que reúne autores considerados marginais não apenas pela temática que tratam, mas principalmente pela sua origem social: muitos são ex-presidiários ou moradores da periferia e, portanto, lidaram de forma direta com a violência. Há na atual Literatura Marginal o declarado cuidado de denunciar os desmantelos da sociedade e promover a conscientização dos direitos sociais que deveriam atender a todos. (...) O viés político da Literatura Marginal pode ser notado pela prática de engajamento político do escritor marginal através de uma literatura menos elitista, que prioriza a oralidade semelhante àquela praticada pelos leitores, ao qual, geralmente, seu texto se destina. (...) Vivemos um momento em que há uma ideologia da cura identitária por meio da memória social e pessoal: [O] sujeito não só tem experiências como pode comunicá-las, construir seu sentido e, ao fazê-lo, afirmar-se como sujeito. A memória e os relatos de memória seriam uma ´cura´ da alienação e da coisificação” (Sarlo, 2007). Assim, o discurso em primeira pessoa em tom testemunhal e a oralidade tornam-se constantes em grande parte das narrativas atuais, pois conferem à representação de aspectos da violência uma certa aura de verdade. (...) As imagens e situações dos narradores personagens de Freire são construídas pelo leitor não só pela mensagem de cada discurso, mas também pela maneira como estes discursos são construídos: rememoração, pausas, repetições, gírias e palavrões, ajudam a localizar socialmente cada personagem e a dar dimensão ao tipo de vivência que vivenciaram. Desta forma o relato ficcional de prostitutas, marginais e outros excluídos sociais podem ser tomados como discursos individualizados que tratam de questões coletivas, relacionadas, por exemplo, ao universo feminino ou às questões sócio econômicas.”


Poesia é antes de tudo, oralidade

Houve uma época remota em que o poeta era tão ou mais respeitado do que os formadores de opinião palacianos porque a sua voz, numa sociedade ágrafa, como foi a Grécia arcaica, era a de quem lutava contra o esquecimento. O aedo, o poeta cantor, além de glorificar os deuses do Olimpo e os heróis, procedia da tradição oral epos, que resultou na épica a qual, através de Homero, amealhou a voz coletiva e defendeu a oralidade como necessidade. A verdade, nesse contexto, foi entendida como “aquilo de que se lembra”, em oposição ao esquecimento (Mnemósyne-Lethe), uma vez que a palavra, pronunciada ou cantada, tinha a função de ajudar a não esquecer. Milman Parry (In: Fórmula na poesia oral, HTTP://poesiagrega.blogspot.com/2011/formula-na-poesia-oral.html), um dos maiores defensores da dicção oral dos poemas homéricos, o fez em função do vínculo poético com a tradição, cujo metro (o hexâmetro datílico homérico) era um sintagma criado para facilitar a tarefa do poeta.

A poesia grega tradicional embutia mitos, relatos de aventuras, regras, canções profanas e religiosas, tudo recolhido ao vivo da memória popular, transmitido de geração a geração. A poesia oral tem por isso a referência de ser a mais antiga forma de registro das obras literárias gregas, e era apresentada solenemente em eventos como rituais religiosos, festas populares, reuniões familiares, da aristocracia nos palácios micênicos. Até então, ou seja, entre 1400 e 1100, prevalecia a cultura oral, que somente após esse período veio a ter poemas registrados em inscrições alfabéticas, como a famosa “Taça de Nestor”, do século VIII, encontrada em Pitecusas. No século anterior, a prosa dominava na Grécia através da produção de logógrafos e filósofos, mas só se difundiu com Heródoto, de Platão, dos oradores áticos e com os textos técnicos da coleção hipocrática, informa HAVELOCK (1996).

POLO (2004) pesquisa que alguns exegetas consideram que tanto a Ilíada quanto a Odisseia são compilações feitar por Homero, na Grécia, por volta de 750 .a.C, de poemas narrativos orais, recitados por rapsodos e aedos. Na Idade Média europeia, os trovadores cantavam em versos, narrativas de amor, guerras e aventuras, além de fatos cotidianos. Nos anos 50, nos Estados Unidos, os poetas beatnicks popularizaram recitais de poesia, sobretudo em San Francisco, onde até hoje há auditórios exclusivos para esse tipo de evento. João Cabral de Melo Neto escreveu poemas para serem lidos “em voz alta”. Ascenso Ferreira, segundo Manuel Bandeira, compôs poemas para serem gritados, cantados e cuspidos. Professora de Literatura Brasileira, Cláudia Cordeiro Reis lançou o CD “Plataforma para a poesia”, reunindo, entre outros, poemas de Gilberto Mendonça Teles, José Nêumane Pinto, Alberto da Cunha Melo, Ivo Barroso, Marco Polo Guimarães. Ao comentar o DD, Deonísio da Silva disse: “Os poetas aqui reunidos têm o que dizer e, à semelhança dos pré-socráticos, filosofam em versos, com profundidade e leveza extraordinárias.”

A oralidade na poesia tornou-se também “uma pintura que fala”, como a fez Simónides de Ceos, ao celebrar os heróis das Termópilas. Os poetas eram, então, “receptores e transmissores do conhecimento e reverenciados como guardiões da sabedoria e por isso considerados tão importantes como os reis, que podiam ser mortos, mas matar um poeta era caso de sacrilégio e, portanto, de condenação pública.”

Feliz ou infelizmente, a poesia perdeu não apenas sua aura junto a sociedade, sua força persuasiva de transmitir informações e saberes, como sua voz, em solo ou coletiva, e assim tornou-se desnecessária, inútil, posto que alternativa de leitura e audição de segmentos sociais cada vez menores e mais escassos, sobretudo na sociedade capitalista.

Affonso Romano de Sant´Anna, em 2006, disse em Curitiba que a poesia “não soube recuperar essa coisa tão primitiva – e tão moderna – que é a oralidade da poesia modernista. De alguma maneira, ela se desviou. Em certo momento virou algo prosaico e se afastou da declamação. Um dos problemas da poesia de vanguarda no Brasil, no rastro da década de 50, é achar que poesia era visualidade, e só. Isso é uma redução, um empobrecimento. Há vários tipos de enfoques, de dicções, e a oralidade é fundamental.”

ANDRADE (2008) em seu texto “Poesia e oralidade” registra: “Quando se pensa no grande esforço que faziam Castro Alves, declamando seus poemas em praças ou grandes auditórios e Maiakóvski, ante as multidões nas fábricas, assembleias ou teatros russos, imagina-se o que fariam eles com um microfone na mão. Hoje, com a sonoridade eletrônica tudo isso foi facilitado, mas, na ausência de uma cultura poética vocalizada, esses recursos têm beneficiado sobretudo a música e os cantores, e muito pouco a poesia e os poetas. É indispensável também salientar que a “postura oral” da poesia, mesmo ampliada pelos recursos eletrônicos, vai muito além da simples leitura ou da mera declamação de versos, para ensaiar-se num contexto em que a palavra e o gesto devem transcender para o encantamento, para o seu significado potencial de beleza, como um ato emocional de busca e de encontro do poeta consigo mesmo, porque é nesse exato momento que o poema realmente está “vivo”.

E esta informação é tão séria que remete ao Festival Internacional de Poesia de Medellín, Colômbia, que funciona desde 1990 como o maior evento mundial do gênero. Em 2001, reuniu 107 poetas de 70 países, que por 10 dias encantaram 150 apreciadores de poesia. Em 2006, foi contemplado com o Prêmio Nobel Alternativo oferecido pelo Parlamento da Suécia. Depois é que vieram o Festival Internacional de Poesia de Granada, na Nicarágua, o Festival Internacional de Poesia de Havana, Cuba; o Festival Internacional de Poesia de Rosário, Argentina; o Festival Internacional de Poesia de Zagreb, Croácia; o Festival Internacional de Poesia de Berlim, Alemanha, considerado o maior da Europa. Do Brasil destacam-se o Salão Nacional de Poesia de Montes Claros (Psiu Poético), iniciado há vinte anos e até hoje coordenado pelo também poeta Aroldo Pereira. O Festival Nacional de Poesia de Goiás e de Osasco. O Encontro de Poesia FalaDescrita, da FAAP, coordenado pelo poeta Omar Khouri. A Bienal Internacional de Poesia, organizado pelo poeta Antonio Miranda, pela Biblioteca Nacional de Brasília; a Semana da Poesia Paranaense, mas também o ex- Festival de Poesia Falada de Niterói, Rj, a Festa da Poesia, realizada em Oliveira, Mg, os Torneios Nacionais de Poesia Falada de Varginha e de Pirapora, Mg. Além do Seminário Brasileiro de Poéticas Orais, Vozes, Performances, Sonoridades, realizado em Londrina, PR, a partir de 2010.

A poesia oral brasileira deve tributo a iniciativas como a dos grupos de cantorias, apresentações orais comuns no final do século XIX e início do século XX, com seus recitativos acompanhados ao som de violas ou rabecas e cantadores se confrontando em desafios com glosas feitas a partir de um mote, sobre descrições da natureza e sátiras, levadas geralmente nas feiras, festas nas fazendas ou engenhos e em residências particulares; as de Leandro Gomes de Barros, considerado o primeiro a editar poesia oral no país, em folheto datado de 1893; Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde, fixadores das normas de composição folhetinesca adotadas até hoje; de Paulo Autran; aos Jograis de São Paulo, criados em 1955 e aos quais integraram, entre outros, Armando Bogus, Carlos Vergueiro, Carlos Zara, Ítalo Rossi, Fúlvio Stefanini, Raul Cortez, Rubens de Falco, Ruy Affonso, Maurício Barroso, com muitas incursões pelo mundo; do catarinense Lindolf Bell e sua “Catequese Poética”; do professor mestre Adércio Simões Franco, de Divinópolis, regente do Coral Excelsior de Poesia, talvez único no gênero no Brasil; ao ator Júlio Mackenzie pelas diversas montagens de espetáculos poéticos; à atriz Maria Fernanda e à troupe do “Romanceiro da Inconfidência”, à cantora Maria Bethânia, aos cordelistas; ao poeta e ator Osvaldo André de Melo, ao diretor de teatro e jornalista mineiro Flávio Márcio; ao performer e poeta fluminense Artur Gomes, que também coordena eventos em diversas regiões; aos poetas de Nuvem Cigana (Chacal, Charles, Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos e o cantor Ritchie); ao locutor Cid Moreira, Paulo César Pinheiro e Vinicius de Moraes; aos poetas do movimento Barkaça, de Divinópolis, Mg (Dioli, Ana e Mingau); aos poetas Adriana Versiani e Camilo Lara, do movimento Dezfaces, Belo Horizonte, Mg; aos poetas do movimento Aldrava, de Mariana, MG, ao poeta de Campos dos Goitazes, Rogério Salgado, por Belô Poético e Poesia na Praça Sete; ao poeta, editor e produtor cultural Wilmar Silva, por Portuguesia, e ao projeto A vez da voz – poesia em libras, promovedor da interação de surdos com a poesia brasileira, criado em 2004 como uma Oscip, formada por fonoaudióloga, psicóloga, jornalistas, artistas, estudantes, intérpretes, cinegrafistas e audiodescritoras, entre outros & outras.

Há, contudo, um caso sui generis merecedor de estudo à parte pela profusa produtividade e participação ao vivo em eventos internacionais e no Brasil: o poeta de São José do Egito - Valdir Rodrigues Teles, radicado na cidade de Tuparetama. Teles já arrebatou 12 primeiros lugares em festivais de repentistas brasileiros, apresentou-se 6 vezes na França, 2 vezes na Bélgica, 4 vezes na Itália, 2 vezes na Bolívia. Segundo ele mesmo, suas apresentações “marcantes” foram feitas no Palácio da Esplanada para os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva. De 1980 a 2011, já gravou dezenas de LPs e CDs, além de participar intensamente de programas de rádio, sobretudo do Nordeste.

Com a certeza de que todo poeta dá sua contribuição à oralidade através de sua dicção própria, é certo também que alguns têm, todavia, especial empatia pela inclusão desta em sua linguagem. E é esse o caso, por exemplo, de Manuel de Barros, cujo vocabulário coloquial-rural e sintaxe levam-no à oralidade, com ampliação expressional e comunicacional do seu léxico audíveis na formação de neologismos. Geraldo Carneiro declarou que “desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica como no caso de Manuel de Barros.” Exemplário:

O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis - A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras – O truque era só virar bocó – A voz de um cantador tem que chegar a traste para ter grandezas – Ele tinha uma voz de harpas destroçadas – Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça. – Minha voz tem um vício de fontes – Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada – mas quando não desejo contar nada, faço poesia – Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos. (In: Livro sobre nada, 7ª ed. Rio de Janeiro: 1998).

Adélia Prado é outra poeta umbilicalmente ligada ao discurso oral, marcado pelo sotaque mineiro, com o que renova e dinamiza a expressão poética e a cultura popular, analisa OLIVIERI (1995). Segundo a professora doutora da USP, Adélia Prado introduz em seus poemas “múltiplos elementos da linguagem falada: discursos diretos, conversação, interjeições, chaves, imitação da sintaxe característica da fala popular assim como dos vocábulos e provérbios que lhe são próprios, (...) retomando o registro oral cujo sujeito do enunciado corresponde a uma espécie de fala da coletividade, marcada pelas expressões coloquiais e pelo lugar comum.” Sua “Carta” (incluído no livro A faca no pleito, 1988, p.67), é um poema exemplar para ilustrar a oralidade na poesia, no qual são latentes a informalidade, o tom coloquial, o repertório léxico e linguístico popular do cotidiano, as entonações. Na íntegra:

Jonathan,
Por sua causa
Começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes, do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos como certas cantoras.
Não tenho mais paciência com assuntos de quem morreu,
quem casou, caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias, meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
Pra eu acertar meu relógio pela hora de Madagascar,
Onde você se aguenta sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã
ninguém mais sabe de nós.
Só a eles conto meu desvario.
Bem podia você telefonar, escrever, telegrafar,
Mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente.
Me surpreendi grunhindo, beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo. De saudade. Tudo por sua causa.
Me escreve. Ou inventa um jeito – eu sei mil –
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta – que na minha imaginação
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente para eu saudar o Embaixador.
Respondi não. Com todas as letras, não.
Só para me divertir expliquei
que aguardo na mesma data visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
E você se ver obrigado a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam. Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela e seus olhos que finge distraídos
só pra aumentar minha paixão.
Se disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.

Cada vez mais descaracterizado, sem apoio oficial, reduzido a manifestações que se mantêm hoje mais como efemérides culturais por força de tradição, o folclore brasileiro, riquíssimo, cuja transmissão se fazia de boca em boca, é o mais genuíno legado da oralidade do povo, seja através do registro das linguagens populares, dos costumes, hábitos, tradições, ou incorporações de saberes e fazeres à sua funcionalidade e dinâmica.

As manifestações folclóricas, ou o que resta delas, têm sabedoria popular in natura, mas, também, por agregação de valores multiculturalistas, envolvendo, em nível linguístico, as parlendas, adivinhas, trovas, desafios, trava-línguas, acróstico, autos, cantigas de roda, de trabalho, orações ritualísticas, falas regionais, frases feitas, réplicas, disparates, ditados, lemas de para-choques, fórmulas de escolha, pregões, fraseado de botequim, epitáfios, quadrinhas, casos, contos acumulativos, anedotas, ritos, entre outros.

Como se num desabafo, mas também em advertência aos órgãos oficiais, ex-aluna de artes plásticas da Escola Guignard/UEMG, Ângela Janaína Pinheiro Rocha publicou na revista da Comissão Mineira de Folclore (nº 18, Nov/97, p. 11), texto intitulado “Poesia para o folclore do Brasil”, no qual usa de franqueza e realismo para pontuar a respeito da indiferença ante o legado do povo. A seguir, na íntegra:

É a sabedoria do povo. É a alma dos ancestrais cantando pela garganta dos filhos do presente. É a hora do mundo, axis mundi, a atemporalidade revestida nos costumes e nas tradições, sempre mutantes, porém, sem o cheiro do passado? Sente a promessa de permanência no futuro? Sente a dor e alma de uma lavadeira, suas rezas, seu canto gospel, sua certeza infinda na vida, sente? É o tempo do vivido na cacunda de cada um de nós, a benzedeira e suas pajelanças infalíveis, a parteira trazendo ao mundo a bem-aventurança dos recém-chegados, é o patuá para a sorte grande que há de chegar, são os cantos de trabalho, o coco das rodas animadas atravessando a madrugada dos dias cansados do fulano que as inventaram, são as chuvas da lua cheia trazendo fartura e criatividade para os homens do Brasil, deixando cair no abstrato campo da fé as graças para um povo que crê sobre todas as coisas, um provérbio infalível sobre a obviedade das coisas e a intransferência do viver. São os violeiros contando e cantando nossas histórias de longe do tempo do eu nem-nascido, no tempo do eu-futuro, nas xilogravuras dos nordestinos, nas feiras dos sertões, conduzindo a cultura popular para os descaminhos de tantos corações reinventados e sacramentados no cotidiano de um povo criativo, vivo, vivo, vivo. É a proximidade da história natural do camponês, do sertanejo, do caboclo, do caipira, do caiçara, do ribeirinho, do homem brasileiro, esse ser genial que inventou um modo muito próprio de pastorear pensamentos, de celebrar nascimentos e mortes, de se afinar com a memória, essa memória contemporânea da antiguidade do moderno, como uma cantiga de rodar ou ninar, pode ser contemporânea da infância que restou num adulto bem crescido e vai sinceramente adormecer gerações seguintes, entre fábulas, histórias de boto, matintaperera, mula sem cabeça, lobisomem, neste terreno entranhado de sentimentos que é a memória. É a essência da criatura que vai restar depois de desatualizadas as rotulações do academicismo reinante, depois de explicadas todas as formas de instrumentação do processo civilizatório, é a folia de reis que virá a vingar em todo o solo do Brasil, o colorido e alegria de um boi cantando o seu próprio sacrifício para saciar o desejo de milhões de Catirinas perdidas e reencontradas nas cidades e nos campos do Brasil, muito antes da etnologia, da antropologia, das culturologias várias, enfim. Muito antes deste tempo de eu-nascido a tradição ancora seus elementos na cultura viva e eles persistem o tempo que transcende todos os relógios e eles imprimem nas gerações o caráter do sagrado efêmero através da fala, dos ritos, dos costumes, das manias, dos movimentos infinitos do ser humano, que perdura séculos e séculos n a absoluta autenticidade celebrando a humanidade sob o anonimato de todo um povo que canta, não em sua forma de tristeza ou desespero, mas em sua forma de esperança.

Finalmente, há que pensar a oralidade brasileira também na poesia oral da música caipira (hoje sertanoja): “Menino da porteira”, que deu destaque nacional à cidade de Ouro Fino, de 1955, com versos de Teddy Vieira e Luís Raimundo, hit da dupla Tonico e Tinoco e do cantor Sérgio Reis; “Chico mineiro”, poesia de 25 versos, de Francisco Ribeiro, também ambientada em Ouro Fino e outro sucesso da dupla paulista, ambas músicas relatos, com narradores observadores de causos, consideradas por estudiosos até como referências ecológicas de uma época pré êxodo rural por causa da crise do café. Vanda Catarina P. Donadio em seu texto “A origem cai – o caipira” (2007), disponível na internet, registra que essas músicas contêm “uma forma resistente de brasilidade, feita por um povo que conhece muito o chão do nosso país”, interpretadas com voz e viola acústica, em linguajar coloquial e o sotaque característico do meio rural.

Em conclusão a trabalho acadêmico sobre este tema apresentado à Unicentro, GÖTTENS (2008) diz que “comparar poesia caipira com literatura parece um tanto estranho, pois não é costume associar caipira com cultura letrada. Está claro, porém, que o caipira possui uma cultura própria, e mesmo não se utilizando da escrita como forma privilegiada de expressão, consegue retransmitir, por meio da oralidade e da música as suas histórias, seu folclore para seus descendentes.”


O(n)RA(LI)NE)DADE

O Nobel José Saramago, quando do advento do microblog Twitter, ou da tuiteratura, declarou: “Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido” (in MURANO, 2005). O jesuíta Walter Ong, discípulo de McLuhan, declarou que “a passagem de um mundo inteiramente oral e natural para o mundo artificial da escrita é desnorteante e aterrorizante.” Pode até ser. Preconceito à parte, o computador é a maior revolução tecnológica do século XX e sua influência – ou necessidade – supera reducionismos e expande uma esperança de coesão planetária. Uma nova linguagem oral eletrônica era imprescindível para garantir consistência a esse fato histórico no mundo. O computador fez surgir um novo homem. Um admirável novo homem. Que não fala por dátilos, mas por chips. Que dialoga ao vivo com o ausente. Agora, a oralidade não precisa de som para se fazer entender. Ela é a própria comunicação.

A terceira forma de oralidade impôs-se em tempo real. E implica na prática de uma nova e diferente relação com o outro. A exemplo do que se fazia na cultura oral primária, a comunicação virtual tem características que a faz mais rápida, direta, objetiva, instantaneamente interativa. Ela é mais aditiva do que subordinativa, mais agregativa do que analítica, mais próxima do cotidiano, mais dada à empatia e à participação, é mais concreta do que abstrata, com memorização oral preestabelecida para se poder aplicar comandos, acrônimos, emoticons, smiles. E, com isso, a oralidade torna-se concentração, imediaticidade, emoção, envolvimento, expressividade. D+, BJS, TB, MT, AKELI, AKI, QM, QND, TBM, RS, HEHEHE, :-, “*_*”, :-o...

A oralidade digital não fala sozinha. Ela é tribal( “um tribalismo civilizado e consciente”, como Andrés Schuschny intitula seu livro sobre oralidade eletrônica). Reúne até os contrários. A oralidade tribal é a ousadia, está se tornando mal comportada, cada vez mais informal e dando mais prazer. “Grande parte da dinamicidade da fala, diz MURANO (2005), se deve ao fato de que ela olha para si, olha para sua própria estrutura e então decide desestruturar-se para, em seguida, assumir seu renovado aspecto.”

Chats, e-mails, blogs, fotologs, homepages, sites, e-foruns fazem parte de uma linguagem “jovem” em relação à máquina do tempo linear, jurássico. O sujeito virtual, de novo com MURANO (2005), é identificado por ícones, abreviaturas, troca de letras, onomatopeias, interjeições, pontuação irregular, ilustrações, que estabelecem os laços orais de um novo código de comunicação. Nesse contexto, a gramática foi desmantelada pelo internetês, que apresenta marcas indeléveis da modalidade na escrita que fala com o outro, como a dialogicidade, a hesitação, a entonação.

Com base em Mattoso Câmara pode-se observar as interferências da oralidade na escrita e no internetês, como a anulação da oposição fonológica entre /e/ e /i/, como o /o/ e /u/ em oposição pretônica; anulação da oposição entre ditongo /ou/ e /o/ fechado (loro, popa, por louro, poupa), ditongação do /e/ diante de chiante na mesma sílaba (treis, por três, mais por mas); tendência à omissão do /r/ e do/s/ finais antes de pausa e suas consequências na morfologia verbal (infinitivo dos verbos) e na morfologia nominal (plural dos elementos nominais) (MATTOSO CÂMARA, 1957, apud Mattos e Silva, 2005).


In bocca chiusa non entrò mai mosca.
Nem diálogo.


Algumas inferências talvez sejam oportunas serem acrescentadas como focos de futuras reflexões para quantos venham também a se interessar pela oralidade e, de modo específico, virtual. Uma: o minimalismo errático da linguagem digital praticada sobretudo pelos jovens vir a tornar-se regra que manda as regras para as cucuias. Simplificar a comunicação não significa esculhambar a língua, escrever/falar errado e fazer dessa prática uma ágora risível via internet. A oralidade digital trouxe à luz o fato de as deficiências do ensino, desde o letramento à alfabetização, e desta à capacidade de discernimento de conteúdos nos ensinos básicos e fundamental, estarem sendo repassadas ao internetês. Duas: do mesmo modo que a oralidade influencia, positiva e negativamente, a norma culta do idioma, a linguagem digital, acessível para as tribos dominadoras do código eletrônico, pode ter – e tem – não raro, resultados questionáveis. Três: a internet, se criou a interatividade instantânea, planetária e vulgarizou todos os conteúdos de todas as ciências, eliminando (felizmente) a aura da exclusividade e as peias da diferença, seja etnográfica ou de outra “espécie” ou natureza, por outro lado vem instituindo um ócio conspícuo na dinâmica educacional no que se refere à pesquisa, cuja facilitação anula a prática manuscrita, donde a redação refletir essa apraxia, por exemplo, nos resultados pífios dos exames oficiais e de concursos, públicos ou privados. O computador como meio está servil apenas a resultados, não induzindo à reflexão, salvo a posteriori. Roseli Braff, supervisora de língua portuguesa da Editora COC, tem a seguinte opinião: “Não falta informação para os jovens, mas muitas vezes falta a capacidade de processar e refletir sobre tudo o que leem. Ansiosos e inquietos, consideram uma tarefa muito difícil ler um livro de cem páginas. Nesse sentido, a ausência de concentração torna-se muito negativa, obstáculo inclusive para a resolução dos problemas que a vida certamente vai oferecer”. Quatro: a profusão de recursos eletrônicos permitiu com toda certeza a democratização da produção de textos/hipertextos, ou seja: qualquer um(a) pode escrever/ler o que quiser, em qualquer parte do mundo, mas o excesso está levando essa produção/leitura à mesmice, à tautologia, à vulgarização, àquilo que Baudrillard chamou de “hiperinflação informativa” e “desrealização geral”. Segundo a professora doutora Adair Neitzel, existe uma coexistensividade do real e do simulacro (miniaturizações, próteses, clones, hologramas), porque estamos contaminados pelo reino da simulação, da ilusão, que, entretanto, põe em xeque os conceitos fundamentais que enredam a natureza humana, uma vez que passamos a trabalhar com valores flutuantes, tornando-se impossível assegurar uma compreensão real e única das coisas (disponível em http://cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/hipertexto.html). Cinco: sem xenofobia e ufanismo, há que analisar a pressão, influência e a legitimização de estrangeirismos que são incorporados à informação nova, à fala e à escrita digital. Seis: a necessidade de conscientizar a população para a simulação da oralidade no telejornalismo brasileiro, a começar pelas próprias redações, a fim de desmascarar a oralidade atípica, intrigante, manipulatória e não raro oportunista maquiada para os telespectadores. Está nessa situação a perda da visão crítica ante os simulacros (cf. Baudrillard): o colóquio forçado entre âncoras e/ou apresentadores de telejornais e programas de opinião repassam uma oralidade blasé, previsível, desconfiável, além da editoração de quadros, cenas e imagens que exploram com adjetivação piegas o coitadismo da desgraça alheia. Sete: a escuta e a produção de textos orais, tal como previsto nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), instituídos pelo MEC, com os objetivos de preparar o alunado para utilizar a linguagem oral no planejamento e apresentações públicas como entrevistas, debates, seminários, performances, envolvendo regras de comportamento social, livrando os alunos da concepção errada de que a fala correta é a que se aproxima da escrita – põem em discussão (ou deveriam por) a necessidade de uma pedagogia da oralidade, porquanto haver controvérsias na prática institucionalizada pelo padrão oficial. Tânia Guedes, professora doutora em Estudos da Linguagem pela UFF, por exemplo, analisa que a escassez de atividades de usos variados e a ausência de atividades de reflexão não são definidas em relação à modalidade oral, mantendo ambígua a prática de se a escuta deve ser feita a partir de situações orais reais, gravadas ou não, e se a produção de textos orais deve englobar gêneros orais possíveis de serem produzidos em sala de aula. Não se diferencia, pois, escuta de produção, o que leva à conclusão inconsistente de qualquer manifestação oral feita em sala de aula resultará em um conhecimento e na análise da modalidade falada. Para este caso, dá-se a sugestão de o docente trabalhar com os discentes a identificação das marcas da oralidade na escrita, por exemplo, além do ciclo de influências mútuas, considerando a topicalização, a construção passiva, a relativização, os elementos de coesão (anáfora, catáfora, elipse, repetição, pontuação, conectivos, marcadores discursivos).

Oito: será mesmo irrelevante, apenas fermento para a discussão inócua sobre síndrome de Peter Pan e Barbie, a colocação de David Buckingham em Crescer na era das mídias eletrônicas (2007) sobre o “desaparecimento da infância” e da “autonomia da geração eletrônica”? Até onde o acesso digital exercerá o “papel” de controle? Mais esse esclarecimento advertencial será transferido também para a escola, a pretexto de oferecer novas oportunidades para criatividade, intercâmbio planetário e auto realização de crianças e jovens, eximindo os pais e o meio social do conformismo de suas receitas conservadoras para reafirmação da moralidade tradicional?

Outra questão pertinente, levantada por GUEDES diz respeito ao fato de que os livros didáticos (e por extensão seus professores autores) “esquecem-se de que a oralidade mais formal tem também de ser desenvolvida em ambiente escolar.” Mesmo porque, acrescenta, “não há propostas de audição de falas produzidas fora do contexto da aula, ignorando-se a produção falada real. Para que haja, então, uma compreensão sobre as modalidades falada e escrita, é necessário que o aluno seja orientado. As atividades de expressão oral por parte dos alunos não estão conjugadas a práticas de reflexão sobre os usos, o que não permite compreender qual é o tipo de noção sobre a linguagem oral está sendo construído na escola.”

GUEDES assinala, ainda, com base em MIRANDA (2005) situação contraditória decorrente da norma estabelecida pelos PCNs, no caso a de servirem de motivação para a prática de atividades envolvendo “regras de comportamento social”, e de predominar na escola “a falta de compostura e polidez nas instâncias públicas e privadas de interação”, o que a) sinaliza para a “necessidade de avaliação dos padrões interacionais e linguísticos da oralidade”, porque dessa forma perde-se o sentido de autoridade, de hierarquia dos papéis sociais envolvidos nas diversas situações de comunicação; b) caracteriza a “falta de legitimação dos papéis de professor/aluno”; c) e o descaso com o componente oral. 


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Márcio Almeida, 63, é mestre em Literatura, escritor, crítico de raridades, jornalista, professor universitário. E-mail: marcioalmeidas@hotmail.com

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