Café Literário Cronópios

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por Marcelo Donatti






 

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por Claudio Willer




Sobre as musas e seus mitos
por Paula Valéria Andrade




Décio Pignatari: a memorável passagem do Fauno pelo planeta Terra
por Omar Khouri




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Z a Zero
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por Márcio Almeida




O canibalismo amoroso visto por Affonso Romano de Sant’Anna
por Jorge Sanglard







 
19/02/2012 19:04:00
Leitura sobre Wilmar Silva



Por Márcio Almeida




Desde Lágrimas & orgasmos (1986), a Z a zero (2010), Wilmar Silva (Rio Paranaíba, MG, 1965) ousa uma obra como poeta, performer, produtor de poesia em níveis local (Terça Poética, Palácio das Artes, Bh) e lusófono (Portuguesia, 2009), além de editor (Anome Livros), roteirista/apresentador do programa Tropofonia (rádio educativa 104,5, UFMG).

Muitos (merecidos) prêmios. Todos os méritos. O poetator-intérprete-editor assume na pós-modernidade o desafio brochante de convencer pessoas desiguais, não raro desinteressadas mesmo, de que a poesia é necessária. A poesia escrita no papel, ouvida no tablado de um palco, no CD ou no radinho de pilha. Ele faz isso com a dignidade de quem não transforma a poesia em commodity. Com a convicção de quem tem a poesia como remédio para sonho, do mesmo modo que o médico é útil à mens sana in corpore sano.

E em tudo, ele faz o seu próprio wilmarketing. E nisso ele silva como silfo na silha urbana das palavras que encantam e sofrem. Ele assume o que, na luterária, poucos foram capazes, mormente em tempos difíceis, de fazer: de correr atrás de quem nem quer saber de poesia – de levantar bandeiras da poesia em países onde campeiam a fome e governos de canalhas - de se fazer anônimo para rastrear a palavra pública, de rua – de viver de poesia na mesma proporção de quem amassa o pão de cada dia com muito suor. Assim, Wilmar Silva ajuda muito a desestabilizar de modo definitivo aquele estigma de o poeta ser um vagabundo, boêmio, voyeur da vida, o inútil de cabeça boa.

A diferença é que ele faz diferença com bom gosto, acuidade estética, profissionalismo, tenacidade e com o exemplo do seu próprio modus vivendi incrustado em sua existência nômade em nome da poesia made in mundo. Nesse sentido, W.S. é um daqueles personagens-livros de Farenheit 451, de François Truffaut. Um bardo plugado na energia eletroMÃEgnética de Minas.

Wilmar Silva mantém esse trabalho anti convencional, marcado por andanças pelo mundo, pela coesão de uma espécie de gente tomada por chiliques, idiossincrasia, inveja do tipo roxo, silêncios convenientes de cricríticos-libélulas, doidivana e freudida de raiva por qualquer sucesso alheio. Catrumano-cosmopolita, teriom-órfico, expõe-se a nu-anu de cerrado, anuente de sua origem e do seu destino. Difícil fazer pela poesia o que talvez a poesia já não seja mais capaz de fazer pelo homem. Você, leitor(a): quantos(as) conhece assim? (Cito muitos no ensaio A moral do oral na era digital, publicado no Cronópios em janeiro de 2012).

O que W.S. insiste em fazer na contemporaneidade contribui para que o leitorado, a plateia, o ouvinte en masse se perguntem: quem fez isso antes? Por que alguns, mas somente entre os que se pode afirmar que menos é mais, têm a ousadia – ou a cachimônia (alguém se lembra dessa palavra?) de não fingir ser poeta num tempo em que poesia é BBB (bundas, bucetas & bingos) para uma galera carente até de se olhar no espelho? Em que poesia é showriço de cocô com merda da música sertanoja? (Os leitores dirão: uns gostam do olho, outros da remela. Certo: mas há os que desligam a TV, o rádio e preferem olavobilaquemente praticar: “Ora, direis, ouvir estrelas!”) Em que poesia é conviver diariamente com a emoção alheia de famosos em novelas de tapas & beijos, complexos & angústias, confissões de baixa-estima e vulgaridades de vitrine? E quando a poesia é a vingança de vídeo em mega reprises do real da violência que mata até com bala perdida, bebês de colo, trabalhadores em metrôs e becos de favelas, pessoas que já nem saem de casa com medo de a vida acabar de repente em pente de metralhadora? E em que poesia, que originariamente devia ser fazer bem feito o belo (ou o que se pode amealhar como sendo menos agressivo, comprometedor e escatológico) para a vida fazer sentido – se torna a perplexidade total e impotente com políticos corruptos, ladrões do povo, bandidos mantidos na impunidade por leis que eles mesmos criam para manterem os podres poderes? Tudo porque, com Vico, é função do poeta “imprimir sentido e paixão às coisas insensatas.” E isso, vocês haverão de concordar, não é nada fácil. Nem para quem escreve, para quem lê, ouve ou para quem não está nem aí.

Ele representa a resistência contra o sucateamento da cultura oral e impressa, dos cortes de recursos incisivos e permanentes sobre iniciativas destinadas a preservar o que resta do humano; do “fato cruento” nas “pátrias sem fronteiras.” W.S. é porta-voz da parataxe: “relações contíguas, cruzamento de unidades atomizadas, rendilhamentos abertos e abrindo-se em infindáveis fios aptos para novas texturas. Cenas, imagens, palavras paralelas, na sempre iminência de se tocar. Relação quase” (Marli Scarpelli, 1000 rastros rápidos, 1999, p.32, UFMG).

W.S. mostra com seu trabalho que o sui generis deu lugar a um tour de force cuja originalidade está em resistir. O que nunca deu status, mesmo quando elitizado, é agora pura fruição de perplexidade e de assombros no espaço contraditório do devir-sendo. Ele encarna o fato de que fazer poesia, difundir poesia – já é a própria transgressão. Pior: para nada. Porque, enquanto em função do isso & aquilo da poesia (autoria, editoria, performance, leitura/audição), faz sobreviver o que foi banalizado por incomodar o medíocre, posto em dissenso por não “dar ibope”, e à margem da linguagem por servir de exemplo.


Zero à direita

Wilmar Silva é um poeta experimental. Na medida em que, sem rotulação gratuita ou passadiço, supera intencionalmente o modo de expressar convencional comum à quase totalidade dos autores de poesia. “Toda poesia é experimental”, já dizia Wallace Stevens em seus Aforismos completos. Experimental é o poeta que a priori tem objetivo precípuo consciente de promover/provocar uma ruptura através da manipulação criativa da linguagem. E que, com isso, permite ao leitor constatar “o efeito surpreendente condicionado ao horizonte de expectativas”, como teoriza Felipe Cussen em seu importante ensaio Poesía experimental: algunas propuestas críticas (Sibila, 2005). Acrescenta o crítico: a poesia experimental é “uma busca que assume como estratégia principal a manipulação de procedimentos (combinatória, fragmentação, superposição etc) nas dimensões da linguagem (sua materialidade e seus suportes)”, que se opõe e descarta a atitude conservadora, poética, artística, cultural.

O experimentalismo de W.S. se dá sobretudo a partir do letrismo agregado à exploração gráfico visual sonora. Ainda que de modo manifesto o poeta nunca tenha se declarado nem mesmo propenso a ser adepto ou simpatizante de qualquer movimento afeito às vanguardas históricas, é rigorosamente inegável ter W.S. absorvido experiências revolucionárias que o antecederam em seu modus operandi poético.

Caso contrário, pelo que apresenta em seu corpus, teria sido W.S. o criador, simultaneamente, do letrismo do romeno Isidore Isou, de Hugo Ball, Kurt Schwitters (sobretudo do poema Ursonate, produzido entre 1922 e 1927), Fernando Aguiar; do letrismo dadaísta, sobretudo do teórico Maurice LeMaître; do concretismo da santíssima trindade Augusto e Haroldo de Campos + Décio Signatari; da poesia visual, como também das experiências matemático-combinatórias de Max Bense; dos recursos da escrita de W. Empson; das experiências de Ana Hatherly e E.M. de Melo e Castro, M.S. Lourenço, Herberto Helder; do poema-processo, mormente de W. Dias-Pino, Moacy Cirne, Joaquim Branco, além dos holográficos e dos poetas sonoros, estes últimos exaustivamente analisados pelos imprescindíveis pesquisadores Philadelpho Menezes e Jorge Luís Antonio.

É de bom senso esclarecer: W.S. não está reinventando a roda, tampouco dando início a um tsunami poético. Ainda que Mário Alex Rosa afirme no posfácio de Z a zero que Wilmar Silva “não se prende a nada, a nenhum estatuto linguístico, semântico, pois [a sua poesia] parece surgir liberta de qualquer preceito”, além de essa mesma poesia não parecer “se filiar às vanguardas do século passado, nem ao nosso concretismo, nem aos experimentos da poesia sonora, nem ao surrealismo ou mesmo à poesia beatnik”, - é imensamente oportuno lembrar Valéry: “o leão é a soma de cordeiros assimilados.” E nós, poetas brasileiros, somos antropofágicos.

Z a zero tem a ver, sim, com as “letrias” e a “hipergrafologia” de Isou, porque inscrevem letras autônomas reduzidas a elas mesmas - grafemas, fonemas - suscitando ludicidade e oposição à rigidez da lógica formal, ainda que, do passado irremovível, a forma se estabeleça através do soneto. Nessa composição supostamente “intuitiva”, a repetição vocálica nos quartetos & tercetos insta a dilatação das vogais em um jogo agregado a uma estrutura matemática aleatória que sugere mais ser a instupecção do próprio poema que se desdobra. O livro poema torna-se, concomitantemente, passível de leitura polivalente – plástica, visual, sonora, grafemática, sem uma intenção ideogrâmica – não há o que dizer senão o que a própria estrutura do poema diz de si mesma. Novidade? Nem tanto. Esta está no “Organismo”, de Décio Pignatari; nos “Ensaios para uma nova escrita”, de Fernando Aguiar; nos poemas do belga Eddy Devolder; do húngaro Petocz Andras; nos escritemas analisados por Uilcon Pereira; na parte intitulada “O poeta realiza a teoria e a prática do soneto, convencendo-se de que não há formas esgotadas, mas pessoas esgotadas diante de certas formas”, do livro Poesia sobre poesia, de Affonso Romano de Sant´Anna; nas explosões vocálicas pesquisadas por Affonso Ávila em Resíduos Seiscentistas em Minas; em experiências gráfico-letristas de Sebastião Nunes e tutti quanti.

Z a zero tem por força revitalizante ser, em um projeto gráfico soberbo, uma condensação paratática prenunciadora de uma realidade rítmica, espaço temporal, em que toda estrutura é des(cons)truída, menos a forma do soneto. O ABCDário rubro, com muita ênfase nos grafemas isolados, em fonte de grande tamanho, estabelece com o leitor uma poética com forte presença plástica ressaltada como estímulo sensorial. Anu, por sua vez, tem desintegração sintática que leva palavras ao grau zero de suas origens – o grafema, o fonema, numa figuração geométrica correspondente à cor do pássaro. Por seu aleatório e imaginário rigor matemático ante o mesmo esgotamento da estrutura discursiva do poema, remete a “Roçzeiral”, de Ferreira Gullar.

É com Z a zero, contudo, que Wilmar Silva se posiciona definitivamente como poeta experimental e abre caminho para novas e boas experiências em sua sã ousadia com a palavra ou o que dela estilhaça aos olhos ávidos de novidade de um leitorado exigente.


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Márcio Almeida, 63, é mestre em Literatura, escritor, crítico de raridades, jornalista, professor universitário. E-mail: marcioalmeidas@hotmail.com

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