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02/03/2009 17:54:00
Novas escritas para a história dos e-books




Por Cláudio Soares



Há poucas semanas, em Nova York, aconteceu a terceira Tools of Change for Publishing Conference, encontro em que anualmente são debatidas as ferramentas tecnológicas que estão mudando o setor editorial americano – e, é claro, do mundo.

 

Mark Coker, fundador de uma das principais empresas de autopublicação de escritores independentes do Vale do Silício, a Smashwords, foi uma das estrelas do evento, no qual coordenou o painel “The Rise of E-books”.

 

Poucos dias antes do evento, eu entrevistei Coker para o caderno Ideias & Livros, do Jornal do Brasil.

 

No bate-papo, que no Cronópios segue, na íntegra, o empresário falou sobre a mudança de postura que o crescimento dos livros eletrônicos, comprovado por pesquisas recentes nos Estados Unidos, deve provocar em editoras e escritores.

 

 

***

 

De acordo com pesquisa publicada pela American Association of Publishers [AAP], os e-books ascenderam novamente, gerando crescimento anual nas vendas de 55% entre 2002 e 2007, versus o anêmico crescimento no comércio global de livros, de apenas 2,5%. Segundo o International Digital Publishing Forum [IDPF], a venda de e-books nos Estados Unidos cresceu 108% em novembro, enquanto as vendas globais da indústria diminuíram. O que representa esse aumento de interesse nos e-books, e como eles cabem nas estratégias para edição digital?

 

 

- Dez anos atrás, havia uma grande agitação a respeito de como e-books mudariam o mundo. Mas eles falharam no cumprimento de tais expectativas e foram considerados um fracasso. Falharam por diversas razões: primeiro, foram penalizados por usarem esquemas de Digital Rights Management [DRM, ou Gerenciamento de Direitos Digitais] para evitar cópia ilegal. Clientes odeiam o DRM, por tratá-los como criminosos e limitarem a sua capacidade para usufruir dos livros. Em segundo lugar, a tecnologia das telas ainda não estava suficientemente avançada para oferecer uma experiência agradável de leitura. Além disso, os preços eram demasiado elevados. Os editores tentavam cobrar por um livro digital o mesmo preço de livros impressos de capa dura. Por último, havia disponibilidade limitada de conteúdo. Hoje, começamos a ver esses problemas resolvidos ou melhorados. Editores que pensam à frente começam a dispensar o DRM, mas ainda temos um longo caminho pela frente. A tecnologia das telas melhorou drasticamente em todos os dispositivos, incluindo os leitores dedicados aos e-books, como Kindle e Sony Reader, os telefones inteligentes, como o iPhone, e os computadores pessoais de baixo custo. Os preços caíram, mas ainda precisamos de mais progressos. Por isso, é claro, a quantidade de conteúdos disponíveis no em e-books está explodindo.

 

Em seu artigo ‘A ascenção dos e-books’, publicado no final de janeiro no Teleread.org [blog dedicado aos e-books, bibliotecas digitais e tópicos relacionados], o senhor afirmou que os autores precisam começar a expor os seus livros nos domínios digitais. Por que isso é tão importante?

 

 

- A indústria editorial passa por uma dramática mudança, especialmente nos EUA. A desaceleração econômica mundial tem exacerbado os problemas estruturais fundamentais que já existem há muitos anos. Como resultado, do lado dos editores, provavelmente veremos uma maior fusão entre as empresas (haverá poucas grandes), menos editores se expondo a grandes riscos com autores desconhecidos, e primeiras tiragens menores. Do lado da distribuição e vendas, veremos uma consolidação maior entre as livrarias, o que nos Estados Unidos significará menos lojas e menos prateleiras exibindo livros impressos. À medida que os e-books começarem a representar um aumento percentual nas vendas, é possível que isso aconteça à custa da venda de livros impressos. Mesmo se um, dois ou três pontos percentuais de vendas de impressos passem para os livros eletrônicos, as livrarias sentirão um impacto muito grande sobre os seus negócios, porque muitas lojas já estão lutando para manter o lucro. Entretanto, ainda não entendemos bem o impacto que os livros eletrônicos terão sobre os impressos. Se por um lado é possível que os e-books canibalizem as vendas dos impressos, também é possível que o efeito líquido seja que as vendas dos e-books ajudem a impulsionar as vendas de livros impressos, à medida que os leitores desejem adicionar edições impressas às suas bibliotecas. Tais mudanças terão um impacto dramático sobre os autores. Estamos prestes a ver muitos escritores talentosos ficarem órfãos de editores. Veremos também ser negada a estreantes talentosos a oportunidade de publicar em formato impresso nas principais editoras. Os blogs oferecem um roteiro útil para o que poderá acontecer com a autoria de livros digitais. Muitos dos primeiros blogueiros de cinco a dez anos atrás agora estão entre os mais populares da internet. O mesmo acontecerá com os autores.

 

Como é que os e-books socialmente publicados resolvem o problema dos custos dos livros?

 

– Livros impressos são um luxo caro, menos para os habitantes literatos mais ricos do mundo. Quando você olha a tradicional cadeia de abastecimento para um livro impresso, vários intermediários adicionam custos para o livro à medida que este faz o seu caminho do autor ao leitor. Muitos livros seguem o fluxo autor-agente-editora-gráfica-distribuidor-livreiro-cliente e, em seguida, há o custo do transporte de todos esses livros-feitos-de-árvores-mortas para frente e para trás. Quando um autor autopublica seu livro em formato digital, gera um colapso dramático na tradicional cadeia de abastecimento. Em muitos casos, a nova cadeia torna-se autor-cliente ou autor-livraria on-line-cliente ou, ainda, autor-distribuidora on-line-livraria on-line-cliente e, desde que bits e bytes digitais custam praticamente nada para serem enviados pela internet, grande parte do custo do livro é eliminado. Isso significa que autores de e-books autopublicados podem oferecer seus livros a um custo drasticamente menor por cópia, enquanto fazem um lucro maior por unidade. E quando o preço de qualquer coisa diminui, significa que o produto é comprável por um leque maior de clientes.

 

Que novas práticas comerciais os editores tradicionais deveriam adotar?

 

– Os editores precisam digitalizar rapidamente os seus catálogos, derrubar o DRM e adotar estruturas de preços mais razoáveis para seus livros digitais. Devem experimentar diferentes metodologias de venda digital. Podem considerar a oferta de assinaturas de seus catálogos, ou subgrupos de catálogos, ou ofertas de pacotes, ou combinar seus livros impressos com e-books. Há todo um número de permutações possíveis. É importante que os editores comecem a experimentar agora a ver o que funciona melhor para os seus negócios, seus autores e clientes.

 

Na indústria da música, temos visto um grande movimento em direção aos artistas indie que alavancam a democratizar a produção, comercialização e venda de música na internet. Isso começa a aparecer no mercado de livros. O que essa tendência pode significar para as editoras tradicionais?

 

– A maioria dos autores, hoje, foram treinados para acreditar que o melhor método de publicação é através de uma editora do mainstream. Eu admiro muito o inestimável papel dos editores de encontrar os melhores autores, cuidar deles, cultivar suas carreiras e viabilizar sua distribuição. No entanto, dado os desafios enfrentados pelas editoras, eles estão sendo menos capazes de investir neste grande serviço. Isto significa que alguns autores bastante talentosos ficarão marginalizados pelos seus editores. Um número crescente de autores publicados percebe que mais e mais o ônus da publicidade do livro está caindo sobre seus ombros. À medida que as editoras passem a responsabilidade dos custos da pós-publicação para os autores, estes vão começar a perceber que podem se tornar seus próprios editores, e podem ter a plena propriedade sobre suas carreiras e como os seus livros são precificados, comercializados e vendidos. Nos próximos anos, veremos muitos autores deslocarem-se de pretendentes a serem tradicionalmente publicados, para aspirantes a serem publicados independentemente. Já vi isso acontecer na indústria musical quando muitos músicos de sucesso viraram as costas às gravadoras e optaram por seguirem independentes.

 

Como poderia a autopublicação digital impactar o equilíbrio de poder na tradicional edição impressa?

 

- Quanto mais os autores virarem as costas aos editores do mainstream, a balança passará a pender do editor, onde está agora, para o autor. A autopublicação digital permitirá e acelerará esta tendência. As prateleiras das livrarias serão substituídas por prateleiras digitais e estas poderão ser administradas por autores independentes sem o auxílio de uma editora convencional.

 

Li alguns bons pareceres sobre o Smashwords [ "uma inovadora editora startup de eBooks"]. Mark, nos explique, por favor, o que é o Smashwords, qual é sua missão, e quais os benefícios que proporciona sobre o modelo tradicional de edição. Como você acha que o Smashwords pode fazer a diferença?

 

- Nossa missão no Smashwords é proporcionar aos autores do mundo as ferramentas livres de que necessitam para publicar digitalmente, promover e vender seus livros eletrônicos. No Smashwords, nós pusemos os autores no total controle sobre como seu livro é precificado, apresentado e vendido. Os autores mantêm todos os direitos de seus livros. Já publicamos autores de todo o mundo. A maioria dos nossos livros são em Inglês, e alguns estão em outras línguas. Nós certamente esperamos aumentar o número de livros que publicamos em português, espanhol e outras línguas. É incrivelmente fácil publicar no Smashwords. Autores simplesmente carregam seus originais finalizados, como um arquivo no formato Microsoft Word, Doc ou Rtf, e então automaticamente convertemos o livro em nove formatos de e-books, livres do DRM, legíveis em qualquer dispositivo e-book e prontos para a venda on-line imediata. Para publicar conosco, os autores devem ler primeiro o Guia de Estilo Smashwords [The Smashwords Style Guide], em http://www.smashwords.com/books/view/52, no qual são fornecidas as dicas úteis sobre como formatar um livro com melhor qualidade.

 

Como é que o Smashwords faz uso da mídia social?

 

- A mídia social on-line é ideal para o marketing do livro digital. A divulgação boca a boca sempre impulsionaou a venda de livros e, na internet, o boca a boca pode tornar-se viral em um curto período de tempo. Nós alavancamos a mídia social para torná-la fácil para os amantes dos livros para falar sobre os seus favoritos em redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter, ou para compartilhar com seus amigos amostras legais dos livros. Nossos autores designam uma determinada percentagem do seu livro que está disponível como uma amostra grátis, e os leitores são autorizados a partilhar estas amostras grátis livremente com seus amigos. As amostras gratuitas são também totalmente indexadas pelos mecanismos de busca da internet, como o Google, para que eles se tornem ainda mais detectáveis pelos internautas. Para uma boa visão de como podemos usar mídia social para ajudar os nossos autores a comercializarem seus livros, oferecemos gratuitamente um ebook intitulado "The Smashwords Book Marketing Guide", disponível em http://www.smashwords.com/books/view/305 .

 

Quem é o dono do conteúdo, e como o Smashwords paga os autores?

 

- Os autores que publicam pelo site Smashwords mantêm todos os direitos de seus livros. Achamos que é importante para os autores manter esse controle. Nós os compensamos dando-lhes 85% das vendas líquidas provenientes de seus livros. Calculamos o valor líquido da seguinte maneira: valor líquido ao autor = (preço de venda - taxa Paypal) x 0.85. Nós pagamos os autores trimestralmente. PayPal é um serviço de pagamentos on-line que permite a qualquer pessoa efetuar compras on-line sem compartilhar abertamente informações financeiras [Fonte: http://www.paypal.com].

 

Há poucos dias, o Smashwords anunciou uma parceria com a Lexcycle [a empresa por trás do aclamado Stanza, leitor de livros eletrônicos para o iPhone e iPod Touch]. Quais são os benefícios para os autores e leitores?

 

- Esta é uma grande notícia para os autores independentes em toda parte. Anteriormente, uma das maiores desvantagens de ser um autor autopublicado é que você não tinha o benefício da distribuição de impressos em livrarias. Agora que as prateleiras de livros estão se tornando digitais, esta barreira está desaparecendo. Quando um autor publica no Smashwords, seu livro torna-se instantaneamente disponível para os mais de 1 milhão de usuários da aplicação de leitura de e-Books Stanza para o iPhone e iPod Touch. Os usuários do Stanza podem facilmente navegar pelos perfis do autor, baixar amostras de livros e comprá-los.

 

Você será o moderador do painel "The Rise of E-Books", durante a conferência Tools of Change for Publishing, organizada pela O`Reilly Media, dia 10 fevereiro, em Nova Iorque. Quais são suas expectativas sobre o evento?

 

No painel, vamos explorar o passado, presente e futuro dos e-books. Iremos analisar porquê ebooks falharam em fazer jus às expectativas na década de 1990 e, em seguida, vamos tentar explicar seu forte crescimento nos últimos anos. Depois nós vamos examinar para onde os e-books irão ao longo dos próximos cinco ou dez anos, e como os editores e autores podem lucrar com o aumento dos ebooks. Estou realmente animado sobre este painel. Tenho quatro palestrantes, e cada um traz uma perspectiva única para a nossa conversa. Há o Joe Wikert, gerente geral da divisão do livro da O`Reilly. Esta, que também produz a conferência, é uma das verdadeiras inovadoras em termos de edição digital, e as suas experiências com livros digitais oferecem alguns bons exemplos a outros editores. Temos David Rothman, editor do blog TeleRead.org, é provavelmente um dos mais influentes defensores do ebook na indústria editorial. Temos April Hamilton, uma romancista, que é uma peça chave no movimento de autores indie [independentes], e também fundadora de uma nova comunidade indie de autores chamada Publetariat (http://www.publetariat.com/). E, por último, mas não menos importante, temos Russell Wilcox, o presidente e co-fundador da E-Ink (http://www.eink.com). A E-Ink desenvolve a grande tecnologia de tinta eletrônica que está conduzindo muitos dos mais promissores dispoditivos de e-leitura dispositivos, incluindo o Amazon Kindle, o Sony Reader, o iRex Illiad e produtos da Plastic Logic e Motorola.

 

 

 

[Publicado originalmente
no Caderno Ideias & Livros,
do Jornal do Brasil]

  

 

 

Cláudio Soares é escritor, analista de TI e editor do Pontolit [http://www.pontolit.com.br/blog]. E-mail: souza.soares@gmail.com  

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