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22/5/2007 15:57:00
A insólita madrugada Herzog



Por Tavinho Paes

 

 

 a insólita madrugada Herzog  



o bar era o Luna Bar
a madrugada ia lá pelas quatro e meia

o ambiente enfumaçado e frenético
fervia alegria de quintal
vinhos, vodkas e chopes de colarinho alto
combinavam com bolinhos de bacalhau

...entre os cigarros, Minister era o tal
era a era em que Marx era o máximo
o aparelho: uma espécie de taverna
os engajados: fios desencapados
a dúvida: uma filantropia fraterna

...e foi assim
que o mulato entrou no recinto
com a primeira edição do jornal ainda quente
travada entre o úmero e o rádio
anunciando através de seu rádio portátil
as últimas novidades
aprovadas pela Censura Federal

...e a última veio
como um dardo envenenado
zarabataneando dor nos embriagados
alardeando sem detalhes um suicídio relatado
publicado num canto à direita
de uma página par
sem retranca, poucas linhas,
lide vaga e pouco papo
um recado amaldiçoado...

leu-se em alta voz o fúnebre histórico
o clima de velório
tomou a atmosfera do empório
fez-se silêncio à altura do obituário
guardaram-se a sete chaves dúvidas e ódio
os brindes morreram empoçados
o boteco fechou mais cedo
o que era cedo ficou tarde
e o porre virou facultativo e pesado

a prova, semanas depois, veio com uma foto
o enforcado quase ajoelhado num genuflexório sujo
descabelado e triste como cigarro apagado
camisa amarrotada, rosto pálido,
calça desabotoada
acintosamente, um cinto havia sido o culpado
ou então, suas pernas quebradas cederam
e o corpo pelo pescoço ficou pendurado

cinzas eram os tempos do mêdo negro
a morte fazia parte do cenário
a imagem na foto muda falava alto
contrariando o explicado
era cubismo incubado
censuraram o torturado
o óbvio óbito assinado por um descarado
transmitia as notícias da guerra fria
num comunicado excomungado pelo estado

naquela noite
no primeiro clichê publicado
o morto ainda não tinha corpo
nem havia desencarnado
era só um defunto enforcado
todos que souberam do sinistro
em copas se fecharam
o féretro, ali, sobrevivia
à sombra do seu recente passado

a noite acabou com o jornal esgotado
ninguém leu a coluna social
ninguém quis saber de futebol
e a coluna policial não tinha nada de especial
comparado àquele fato isolado

a notícia não foi manchete
foi lida nas entrelinhas
informava sem informar
contos da carochinha
era uma verdade
que mentia sem parar

naquela noite
naquele bar
a festa não acabou em samba
porque tudo que por ali era sólido
de repente, evaporou no ar

 

 

 





 

 

NOTA IMPORTANTE
Este poema é baseado no conto A MORTE ANUNCIADA, constante do CD-ROM
BAIXO LEBLON ON THE ROCKS, lançado pela Indie Records em 2002. Descreve exatamente o que aconteceu naquele bar do ainda nascente Baixo Leblon (Rio de Janeiro) na noite de 25 de outubro de 1975. Quem estiver interessado em ler este e os demais contos (existem ainda alguns exemplares do CD-ROM), enviar e-mail para o endereço abaixo.

 


Tavinho Paes (52) é poeta. Tem mais de 200 registros musicais (vide aqui), como Totalmente Demais (Caetano Veloso) e Rádio Blá (Lobão). Acaba de publicar seu primeiro livro industrial OS MOMOSSEXUAIS (Ed. Ibis Libris/RJ), mas possui mais de 100 títulos lançados como panfletos marginais desde 1975 (vide aqui). Edita o jornal poemaShow e a webPage www.poemashow.com.br . Produz com Bruno Cattoni o Festival Poesia Voa (vide aqui) e os eventos poemaShow (com Ricardo Ruiz) e cinePoema (com Marcelo Gibson (vide aqui). E-mail: tavinhopaes@gmail.com

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