o bar era o Luna Bar a madrugada ia lá pelas quatro e meia o ambiente enfumaçado e frenético fervia alegria de quintal vinhos, vodkas e chopes de colarinho alto combinavam com bolinhos de bacalhau
...entre os cigarros, Minister era o tal era a era em que Marx era o máximo o aparelho: uma espécie de taverna os engajados: fios desencapados a dúvida: uma filantropia fraterna
...e foi assim que o mulato entrou no recinto com a primeira edição do jornal ainda quente travada entre o úmero e o rádio anunciando através de seu rádio portátil as últimas novidades aprovadas pela Censura Federal
...e a última veio como um dardo envenenado zarabataneando dor nos embriagados alardeando sem detalhes um suicídio relatado publicado num canto à direita de uma página par sem retranca, poucas linhas, lide vaga e pouco papo um recado amaldiçoado...
leu-se em alta voz o fúnebre histórico o clima de velório tomou a atmosfera do empório fez-se silêncio à altura do obituário guardaram-se a sete chaves dúvidas e ódio os brindes morreram empoçados o boteco fechou mais cedo o que era cedo ficou tarde e o porre virou facultativo e pesado
a prova, semanas depois, veio com uma foto o enforcado quase ajoelhado num genuflexório sujo descabelado e triste como cigarro apagado camisa amarrotada, rosto pálido, calça desabotoada acintosamente, um cinto havia sido o culpado ou então, suas pernas quebradas cederam e o corpo pelo pescoço ficou pendurado
cinzas eram os tempos do mêdo negro a morte fazia parte do cenário a imagem na foto muda falava alto contrariando o explicado era cubismo incubado censuraram o torturado o óbvio óbito assinado por um descarado transmitia as notícias da guerra fria num comunicado excomungado pelo estado
naquela noite no primeiro clichê publicado o morto ainda não tinha corpo nem havia desencarnado era só um defunto enforcado todos que souberam do sinistro em copas se fecharam o féretro, ali, sobrevivia à sombra do seu recente passado
a noite acabou com o jornal esgotado ninguém leu a coluna social ninguém quis saber de futebol e a coluna policial não tinha nada de especial comparado àquele fato isolado
a notícia não foi manchete foi lida nas entrelinhas informava sem informar contos da carochinha era uma verdade que mentia sem parar
naquela noite naquele bar a festa não acabou em samba porque tudo que por ali era sólido de repente, evaporou no ar
NOTA IMPORTANTE Este poema é baseado no conto A MORTE ANUNCIADA, constante do CD-ROM BAIXO LEBLON ON THE ROCKS, lançado pela Indie Records em 2002. Descreve exatamente o que aconteceu naquele bar do ainda nascente Baixo Leblon (Rio de Janeiro) na noite de 25 de outubro de 1975. Quem estiver interessado em ler este e os demais contos (existem ainda alguns exemplares do CD-ROM), enviar e-mail para o endereço abaixo.
Tavinho Paes (52) é poeta. Tem mais de 200 registros musicais (vide aqui), como Totalmente Demais (Caetano Veloso) e Rádio Blá (Lobão). Acaba de publicar seu primeiro livro industrial OS MOMOSSEXUAIS (Ed. Ibis Libris/RJ), mas possui mais de 100 títulos lançados como panfletos marginais desde 1975 (vide aqui). Edita o jornal poemaShow e a webPage www.poemashow.com.br . Produz com Bruno Cattoni o Festival Poesia Voa (vide aqui) e os eventos poemaShow (com Ricardo Ruiz) e cinePoema (com Marcelo Gibson (vide aqui). E-mail: tavinhopaes@gmail.com