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18/06/2008 21:36:00
Luz inesperada



Por Maria da Conceição Paranhos


 

ROSA DE LUXEMBURGO

 

Lá longe, em casa, há a prece:

"Que volte cedo, e bem!”.

(Malhas que a história tece).

 

Em um mil novecentos e dezenove.

Nas pétalas, a mira de um fuzil

devastou a corola dos sonhos

— em 15 de janeiro, e o silêncio.

 

Palavras?

 

O silêncio é a maior das represálias.

E nada em ti falava mais,

nas águas rubras do canal Landwehr.

 

No canal abandonado

que a brisa nem mesmo aquece,

de balas trespassada

—muitas, de lado a lado —,

jaz morta, e arrefece.

 

Vermelha, essa rosa?

Rosa de sonho e metal —

em busca da face humana.

 

Morre a cada ano na cidade amada,

Berlim, no horror de suas garras:

a difamação tem sua própria história.

 

Inimiga da Revolução de Outubro?

De um Lênin dito bárbaro e asiático?

 

Imaginava um mundo

em que os homens pudessem

cantar nas ruas, libertos

da humilhação, fome, e do medo.

 

Lá longe, em casa, há a prece:

"Que volte cedo, e bem!”.

(Malhas que a infâmia tece).

Jaz morta, e apodrece,

a menina de sua mãe.

 

A ficção da mácula,

suas raízes profundas,

não tocam mais naquela mulher

em seu pensar indômito,

na rosa da quietude,

irmã das estrelas, cega,

para sempre cega,

para sempre nossa

rosa da esperança.

 

[De: Poemas da Rosa.]

 

 

 

 

 

SONETO DA ESFINGE

 

Se são tuas, as mãos que, recorrentes,

deslizam em meu ventre sempre virgem,

já não sei mais: ocupo-me de estrelas,

diamantes sem jaça, de vertigem.

 

Fito teus olhos, largos de perguntas.

Não se escondem de mim, que os decifro,

ao passo que tu tentas - entre tantos

labirintos secretos, que não digo –

 

vislumbrar uma face emascarada,

oh, meu amor e fado, gema rara,

centelha do meu ânimo endormido!

 

Enquanto buscas decifrar um mito,

eu contemplo os filões de minha lavra

na fronteira entre o nada e o infinito

 

 

 

 

 

CANTIGA

 

Não o vi chorar por mim,

Mas é meu esse alfenim.

Oh! Tanta maldade!

Oh! Felicidade!

 

 

 

 

 

VOLTAS

 

Pelos meus dias atentos

Ingressaste, e eu dormia.

Quem cuidou se em meu alento

Encontrasse uma alegria?

Julgue todo entendimento

Qual mais sentir se devia:

Se esta dor, se esta alegria.

 

Quanto mais longe de ti,

Eras tu, não era eu minha.

Foste a vida que eu não tinha,

Tive Amor e não me tive.

Assim, se minha alma vive,

E porque me defendia –

Doía, a minha alegria.

 

O tempo Amor não me deu,

No tempo em que desejei.

Tu ingressaste e eras meu,

Se não me viste, eu  olhei

O matiz do amor que é teu.

Agora, o que mais farei,

Se a fortuna me desvia

A só ter tua alegria?

 

Não sei se eu estive errada,

Pois minha alma não vivia

No mal da festa roubada,

Na dor de amar sem valia,

Sem ti, sem luz, sem meu fado,

pois tu não me foste dado.

Mas acho, no fim do dia,

Tua alma. Minha alegria.

 

 

 

 

 

AMANHECER

 

 

A farpa de fogo do tempo

queima o sonho de luar.

 

Em meus dias de Oriente,

me volto para o Norte,

o coração lateja, amargor.

 

Do viço do sol nos trópicos      

dorme o pensamento.

 

A luz indica o trajeto.

Minhas pegadas provam:

o andar é para trás,

por dentro da extensão azul

entre o medo e a morte súbita.

 

Os ventos desabridos aplacaram-se.

Ponta de terra entra pelo mar

a ser dobrada em calmaria pura –

maior amor nem mais estranho existe,

boa esperança,

esperança purpurada.

 

O promontório de alcantis agudos

deitado na planície em que nasci,

anfractuoso opõe o vulto enorme.

Titã, fita o anil. 
a baía dos santos

a transbordar de azul.

 

Sigo nessa mira.

Neste espaço que excito,

eu, peixe de Deus,

das águas doces,

em lesma abominada.

 

Me matei de sal-gema.

Ressurgi no índigo do sal,

de suas vísceras,

tornassol,

agonia e redenção

de um viver tardio.

 

Naquele tempo

em estado boreal,

eu, precoce em minha era.

 

No amanhecer de agora,

ventos nortes.

 

Um durar de ausências

invadido de faíscas.

 

Tomba o dossel de luz.

 

No ano de dois mil e seis

a aurora austral

invadiu o céu do meu País,

e eu a vi, vejo, verei sempre.

(A rocha do sossego já me tem).

 

Arde Cadmo, cádmio

para a nitidez da hora bruta.








 

De: Poemas da Luz Inesperada (inédito)

 

 

 

 

 

 

 

Maria da Conceição Paranhos é poeta, ficcionista, crítica de literatura e artes, dramaturga e tradutora, com vasta obra publicada, traduzida e premiada em níveis estadual, nacional e internacional. Com Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley, é professora da Universidade Federal da Bahia. E-mails:paranhos_44@hotmail.com e mc_paranhos@superig.com.br

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