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08/02/2012 13:30:00
Até a morte pequena de todas as memórias



Por Léo Mackellene


De repente a reconheço.
É uma velha conhecida.
De outros tempos que nunca são outros
Porque tudo é hoje,
é aqui
e é agora.

Somos íntimos de muito tempo.

Ela chega depois de tantos anos
e, como se para reconhecer o lugar,
ver o quanto mudou,
se é que mudou,
anda por todos os cantos da casa.
Vasculha tudo
cantarolando Mr. Bojangles
como se cantasse qualquer coisa.

Deita-se nas almofadas da sala de estar,
ri uma piada de mal gosto e eu me mantenho de pé,
apreensivo, com uma toalha numa mão
e lenços de papel na outra.

Ela me intima.
Diz que só vai sair quando estiver com vontade.
Eu digo que tenho muito o que fazer
mas ela me exige que fique com ela,
como uma puta que sabe todos os meus segredos;
amante há muitos anos
e me domina.

A beleza é um poder
E a tristeza é tão bela!

Eu beijo sua boca chorando.

Ela sorri e salta sobre mim
como uma tigresa de umas negras,
sobre a presa. Cruel.
Me derruba no chão
arranca minha roupa.
Desdenhado de cada lágrima que arranha meu rosto.
Rindo de meu vício de carne, de minha fraqueza de espírito.

Eu nem sei seu nome.
E isso não impede que ela exista.
Há coisas que, para existir,
não precisam de nomes.
Talvez essas sejam as coisas que mais existam de verdade.

No fim de tudo,
caímos nus na varanda lá fora
e, sob um céu sem estrelas,
nos amamos.
Ela rindo,
Eu chorando.
Até a morte pequena de todas as memórias.




AS PALAVRAS ESQUECIDAS

As palavras saem
bandeiras esfarrapadas
e alcançam o mar
com a graça de um mergulhão e um peixe na boca.
As palavras devoram-se.

Daqui de cima
é mar a dar na vista
- Não senhor! Nenhuma caravela...
- Sigamos... haveremos de encontrar.

Continuemos...
nada mais,
que tudo acontece sem o nosso consentimento.

Essa força que vem, que está, aparece e vai
nos arrasta pra longe, pra fora, pra além.
- Vamos!
Ruge a força a repetir
- Vamos!
E temos que ir.

Lentos como passos de barcos a remo...

Um cardume de mãos invisíveis
se move dia e noite
semeando suas sementes.
Canta Jorge, o bucaneiro

- Corsário ao mar! Corsário ao mar!
Os marinheiros se assustam com o alarde.
“Precipitados se precipitam no precipício do princípio dos tempos”,
diz Uirá, o capitão.
Que os Santos Reis o guiem!

No início eram cachoeiras...
Cada palavra era uma ilha pra naufragar.

O mar se estende sobre os olhos como uma cama vazia, macia e tola
- Um novo amor comeu meu vazio
e um outro vazio comeu meu novo amor.
Chora o marinheiro.

E a nau segue.
Sem remo, sem vela, sem rumo
pelo oceano fecundo navegar.

Vai cega, vai louca
pelo mar sem mar a boiar.
Vai sem leme.

Estrelas no céu já não existem
já não existem mapas a guiar
bússolas e esquadros se perderam.

O bucaneiro e os marinheiros
já abandonaram a nau
certos de que o naufrágio virá.
Mas ele não vem, nunca.
Porque a morte é a eterna espera de si mesmo.

Vai-se a nau
ao sabor das correntezas e dos ventos.

Vai cega, sem intento,
a ferir mortos, vivos e doentes.

Vai surda,
levando nós,
os tristes filhos dos contentes.




EU INSISTO

Escrevi um artigo que, me disseram, não poderia ter sido escrito por mim.
Entendi que eu passarei a vida a escrever artigos que não poderiam ter sido escritos por mim.
Não só artigos.
Mais que isso.

Passarei a vida a escrever poemas que nunca poderiam ter sido escritos por mim.
Não só poemas.
Passarei a vida a dizer coisas que nunca poderiam ter sido ditas por mim.
Mais ainda.

Passarei a vida a fazer coisas que jamais poderiam ter sido feitas por mim.

Depois,
existirei como nunca poderia ter existido.

Ao impossível,
serei qualquer coisa que nunca poderia ser considerado eu mesmo.

Depois de depois do impossível,
viverei o que nunca poderia ter sido vivido por mim;
amarei o que nunca poderia ter sido amado por mim;
sentirei o que nunca poderia ter feito sentido pra mim.

eu...
...inexisto,
desexisto
e reexisto.
Eu insisto.




NU ARTÍSTICO DA LUSOFONIA PERIFÉRICA

Estou nu.
E assim eu poderia simplesmente inexistir
como o fizeram Neto transformado em zero,
Bandeira, que não deixara sequer nomes,
anônimos impublicados silenciados.

Estou nu.
Nem como vim ao mundo
mais nu ainda.
Não a nudez da verdade de um morto insepulto.
Nu, ainda mais...

Nenhuma roupa de baixo pra aparecer por cima.
Nenhum pelo crescido que possa esconder a minha cara cínica.
Crua e Nua como a natureza sem cascos,
sem crosta, sem grossa camada, sem escamas.

Sou tudo aquilo que vejo e só vejo parte daquilo que sou
em trocadilhos baratos, ainda que esteja nu.
Frente ao espelho e nu.

Nem dentro,
nem dentro estou vestido.
Nem a alma vestida de Pessoa.
Minto! A minha alma se veste daqueles vidros de aeroporto
em que se podem ver os ossos do corpo
nu,
sem roupa, sem óculos, sem meias
nu de nervos, nu de amores
nu de tremores, nu de estertores, nu de rumores.

A única prova de minha existência ferrenha
é a dor que sinto e deveras invento
(Doo, portanto existo)
Minha nudez é um atentado violento.

Nu,
a dor sem esparadrapos, sem mercúrio-cromo, sem álcool, sem éter,
a dor etérea das horas, dos segundos, das rochas...
...nuas, completamente nuas.

De uma nudez sem braços, sem traços, disforme.
Não este não sou eu no espelho!
É outro! Só pode!

Sem pele, sem raça, sem chão, sem religião
sem história nem estórias pra contar
como um griot funéreo das semanas insepultas da África...

Sem pai, sem mãe, sem irmãos
(e todos vivos ali, logo ali, na sala).
Quase sem pão
que o trabalho me alimenta e me veste
de rendas e bordados de vaidades e de vontades,
e a vontade absurda de estar nu.

Nu,
como aquilo que pulsa ao querer começar,
como aquilo que vê mas não sabe enxergar
a folha branca, página que descansa.
Nudez muda que se entrega.
Mudez surda, cega.

Nu,
deserto entre as estrelas pelos charcos.
Nu,
como veredas, grande asfalto.

Nu até de palavras pra dizer que estou nu.
Da mais completa nudez em que se possa estar nu,
textura daquilo que dorme
textura daquilo que é morte,
despido de sonhos,
despido de pernas, despido de planos
como quem nasce na queda
(Ah! A simplicidade das nuvens nos desenhos infantis!)
Aqui,
a terra sonâmbula do nada.
Hoje,
era metamórfica de kafkas.
Queixei-me de baratas!
(e sorrisos
postiços
aos domingos)

Musa trôpega.
Escuridão anímica dos rios, estradas d’outrora.

Caímos no abismo! Só pode!
Tinham razão os antigos:
a terra era realmente quadrada.
Traíram-me todos os livros
Tornaram-se putas todas as fadas.




EU ESPELHO

Eu estou longe,
onde não consigo ver.
Longe de ser novo.
Longe de ser outro.

A imagem é a mesma,
no espelho,
eu vejo, eu ouço.

Repito gestos milenares
como quem não tem controle
do que sou ou do que faço,
como quem ainda nem existe,
como quem ainda não deu um passo.

Estou antes de existir, contudo.
Antes de antes de existir o mundo.

Pressinto a vergonha de minha mãe virgem
a brincar de boneca,
antes de sonhar que eu pudesse
algum dia, quem sabe, talvez, vir ter com ela aqui.

Eu sou longe, antes, muito antes...

Sou marca velha e apodrecida
de pegada antiga

Sinto um esmagamento de alma
Por viver entre o que fui e o que ainda serei.

Porque estou longe de ser novo.

Longe de ser outro.

E eu que sonho em destruir as estradas e construir pontes, Uirá,
caminho pelo caminho pisado,
tantas vezes,
que já nem existe mais,
é só um buraco.

Em mim, a existência arranhada
dos vinis engasgados.
Em mim, o gesto gago,
entalado na mesma sílaba.

Eu continuo tropeçando no mesmo passo
tantas vezes ensaiado.

Estou longe de ser outro.
Longe de ser novo.




MOLUSCO

sei o que estou fazendo aqui
e não sei o que estou fazendo aqui

saber é o meu não saber
saber ilumina o que eu não sei
e o que eu não sei
(que sei ser o mais importante),
ofuscado, se esconde.

Sei além, muito além de uma simples oposição lógica,
que o que eu não sei não é o que eu sei,
mas não sei disso, sinto isso
e só sinto o que eu não sei.

O que eu não sei lateja.
Sinto existir o que eu não sei
lamento existir o que eu sei

Quando o que eu sei se aproxima do que eu não sei
uma gota que arde em molusco se abre...

e eu me fecho.




XXXX

Sou parte da lembrança das pessoas, nunca fui de fato.
A criança em mim adormecida se esmera no colo do tempo - que se liquefaz na fria fuselagem das horas.

O tempo, esse fantasma cego que nos persegue e assombra - implacável e alheio a nossa vontade - extermina a pureza dos corpos, que se põem a exalar olor de desejo.
Oh! o Desejo!
O que seria de nós sem este deus nada melindroso?
Poderíamos envelhecer desapropriados da culpa de termos que ser essa alegoria perversa e cruel.

O avesso das coisas.
(eternos escravos destes olhos cegos que nada veem)

O poeta que em mim habita é apenas a triste alegoria de palhaço fantasiado de homem - esta arquitetura por terminar.

Edifico-me na incerteza do mundo
No mistério que as coisas têm.

Tenho andado por todos os cantos
Contemplando a lei natural dos encontros.
Sou este refém do inexplicável – que me amadurece e conforta.
Por isso tenho a coragem de jogar-me no mundo

A coragem de quem anda sempre com mais de uma verdade no bolso.




PÓLVORA

(para Tatiana R. Passos)

Ganhei dois pesos de chumbo essa semana
e ainda não sei pra que lado fica a fonte.
Estou certo mesmo quando reconheço o erro
e isso dói como prender o dedo à porta.

Como compreender o que não se encerra, o que não cessa?
Como entender o que só se encerra em si mesmo,
em silêncio, não se abriga, não se abre, não se apega, não se aninha?

Nem você nem eu sabemos da melhor escolha.
Trabalha-se com o que se tem
e às vezes, muitas vezes, quase sempre, aliás,
se quer mais,
e mais e mais...

Não sabemos do melhor caminho,
aprendemos e o fazemos como possível.
E isso dói como rasgar o dedo em cacos de vitrais.

Ainda é cedo, amor, já cantava Cartola.
Enquanto escuto essa música,
lembro de ti, em minha idade,
de mim na sua idade:

Você tem toda a razão, sim, toda a razão...
e tudo vai convergir para confirmar o que você diz
e todos vão coagir para reafirmar o que você pensa
não só porque pra você a vida começa agora
mas porque você tem a idade das certezas,
a idade das verdades,
a idade de ferro,
a idade das muralhas.
Há sempre sábios e loucos terceiros a concordar com o que quer que seja,
loucura ou epigrama,
a concordar com qualquer que seja a nossa escolha.

em verdade, ninguém sabe mesmo a idade que tem.

e não se esqueça: a verdade é sempre verde, sempre.
(Um conselho é sempre uma forma de cuidar)

Guias? Discípulos? Não se pode escolher ser um ou outro ou um e outro.
Não nos cabe o direito de escolher.
Já disse outra vez e não canso de repetir:

Dois deuses acima de nós
disputam o controle de nossos atos,
o destino e o acaso.

Aprende sempre quem ensina
e quem aprende sempre ensina a si mesmo.
Amar é um segredo.
Amar é o exercício constante de aprender os silêncios.

Mas do silêncio sozinho
só pode vir
o erro.
E ainda assim
ainda assim
não descobrimos a pólvora!




                                               * * *


Léo Mackellene é professor de Literatura Comparada e Teoria da Literatura na Universidade Estadual Vale do Acarau, em Sobral-CE. Tem seis livros publicados com outros autores, entre antologias e coletâneas e em 2006 publicou seu primeiro livro de poemas intitulado O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, pela Mangues&Letras.
E-mail: escambo@hotmail.com

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