Café Literário Cronópios

[37] Sadomasochismo massificado? O que é isso, roommate?
por Glauco Mattoso






 

SHAKESPEARMEMORAÇÃO
por Augusto de Campos




Poemins
por Liliane Oraggio




Quadrinhos
por Omar Khouri




Desastres
por Bruno Moreira




É como quando temos que
por Julio Mendonça




Série Infância
por Pipol




Excertos de um Dicionário Poético da Loucura
por Jorge Elias Neto




Macacos me moldam
por Silas Corrêa Leite




A diferença do fogo
por Paulo Sposati Ortiz




Sólo una vez más / Só mais uma vez
por Uberto Stabile




Leia com Atenção!
por Luiz da Franca




O sonhador que colhe berinjelas na terra das flores murchas
por Junior Bellé







 
02/03/2012 11:07:00
Poemas de Fortaleza



Por José Carlos Mendes Brandão


Os Poemas de Fortaleza pertencem ao meu livro O sangue da terra (2010), publicado pela Sec. de Cultura do Ceará.



                                                                                                           Foto do autor


As falésias do Beberibe

A areia branca, azul, vermelha, verde
E dourada, laranja, gris, lilás.
A areia tem as cores de um arco-íris
Na falésia abrasiva à beira-mar.

O vento, a água, o calor, a terra móvel
Modelam formas várias de montanha
E vales, torres, línguas apontando
O céu, conchas, escarpas e crateras.

As grutas como ventres porejando
A água no chão, no teto, nas paredes.
A areia chora lágrimas de sal.

Os cactos e as palmeiras à distância
E algumas poucas árvores compõem
O fundo verde contra o azul do mar.





O mar em Fortaleza

Dia e noite ouço a música do mar.
Do décimo terceiro andar ouço as ondas
Voando como loucas no mesmo lugar.
Batem as asas, assopram, engolem.

Os navios no porto estão parados eternamente
Como uma garça sobre uma perna só.
As jangadas são verdes como o mar.
O tigre da manhã ruge feroz.

Ao meio-dia, à meia-noite o mar ruge.
Ouço o mar rugindo no outro mundo,
Ouço o grasnido de uma gaivota, ouço as pedras,

As árvores afogam-se no mar e gritam felizes.
Ouço o meu quarto navegando nas ondas do outro mundo.
Tenho todas as palavras na mão e desfolho o abismo.




O cárcere de Bárbara de Alencar

Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar.
No subsolo, a pequena cela de tortura:
Atrás das grades, pedras, paredes de pedras,
A cela onde um homem não cabe em pé.

Bárbara recebia uma só refeição por dia,
Mas era muito: alimentava-se de pedras
E de orgulho ferido e erguido como bandeira.
As pedras eram cabras mansas para Bárbara

Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.
“Quem me pedirá contas de meus atos?
Meu marido, meus filhos, o meu Ceará?

Quem combate o bom combate não sucumbe.
Eu colho na derrota toda a minha vitória.”
Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras.




                                                                                                              Foto do autor



O gari verde

O gari verde não madura nunca
Para que a sua dor não se perceba.
Empurra o seu carrinho com a cacunda,
Empurra a dor adunca da limpeza

Com a vassoura e o ancinho da desgraça.
Ninguém vê o gari verde sofrendo,
Gemendo como se fizesse graça.
O gari vai da Praia de Iracema

À Volta da Jurema se apagando.
A calça curta verde, as meias verdes
Com a camisa azul-e-verde vão

Compondo a imagem do gari doendo
Por onde passa, para a Fortaleza
Bela brilhar ao sol como as palmeiras.





                                                                                                            Foto do autor


Mucuripe


Entre os barcos e as casas dos pescadores
Há uma mesa com seus bancos fincados no chão,
Alguns copos, um ou dois pratos, talheres
E bocas famintas e olhos arregalados.

Cachorros andam de um lado para o outro
Perseguindo a própria sombra, um resto de comida, a vida
Preguiçosa como os gatos pardos, que se esparramam
Por ali, na modorra de donos absolutos do lugar.

As árvores projetam a sua sombra verde
Sobre esse chão pobre, cheirando a lixo e dor.
Uma criança chora: é sinal de vida.

Um velho ergue uma garrafa de pinga
Enquanto exibe o peito coberto de tatuagens.
Uma mulher oferece um peixe e grita como louca: Viva a vida!





Madrugada

As lágrimas da madrugada
Caem sobre a terra.
Do convés vemos as pétalas
De sangue no céu.

Os cavalos correm na praia
Com as crianças atrás.
O nadador dá longas braçadas
Na água fresca do mar.

Os telhados vermelhos
Enlouquecem.
O galo lança uma rede de luz

De uma a outra montanha.
A mulher deitada sobre as flores verdes
Amamenta o dia com leite azul.





Manhã em Itaguá

O barco descansa na praia,
A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol.
Urubus ao lado esperam inquietos,
Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar.

As ondas brancas quebram-se na areia,
O peito branco dos atobás eleva-se muito alto.
Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas
Para os urubus e depois para os atobás no mar.

Brilho de estrelas no escuro da areia monazítica
Onde o mar desenhou árvores delicadas
(procuro as flores e os frutos nos galhos).

O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar,
Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha.
Como um cachorro o universo lambe os meus pés.





                                                * * *

 

José Carlos Mendes Brandão é autor de sete livros de poesia: O emparedado, 1975; Exílio, 1983; Presença da Morte, 1991; Poemas de amor, 1999; O silêncio de Deus, 2009; Memória da terra, 2010, e O sangue da terra, 2010. É detentor de vários prêmios literários, como o “José Ermírio de Moraes”, por “Exílio” (1984); V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, por “Presença da Morte” (1991); Prêmio Brasília de Literatura, por “Sol no Umbigo”, inédito (1991); Prêmio Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”, por “Deus no Prego”, romance inédito (2000); Prêmio Nacional de Literatura “Gerardo Mello Mourão”, do Ideal Clube, Fortaleza, CE, por “O sangue da terra” (2010); Prêmio “Jorge de Lima” da U. B. E. – Rio – pelo “Livro dos bichos” (2011). Sites: http://poesiacronica.blogspot.com e http://gregoriovaz.blogspot.com/
E-mail:
jcmbrandao@gmail.com

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de José Carlos Mendes Brandão no Cronópios.