Café Literário Cronópios

Cinepoema
por Ângela Castelo Branco






 

(Re)nascimento
por Cristina Judar




Tragédia à paulista
por Pedro Brum




Cristóvão
por Roberto Dutra Jr.




Duas
por Leila Krüger




Sobre ataques do cão negro
por Oscar Nestarez




Virando Xifópagos Digitais
por Patrícia Dantas




Depois do céu
por Tere Tavares




O amor irreverente
por Udo Antônio Baingo




Neo Mourisca
por Marcelo Novaes




Café dos Antônios
por Cláudio Feldman




Uma lembrança para Godot
por Larissa Marques




Faro
por Silvana Guimarães







 
30/05/2008 19:48:00
Ela e a mata densa



Por Fernando Rocha

 

           Você viu?

         Vi o quê?

         Que ela abriu a porta e saiu correndo?

         Não.

         Ela saiu correndo.

         Em que direção?

         Atravessou a rua.

         Como ela conseguiu atravessar a rua se não tem espaço nem pra um palito?

         Subiu no teto e foi por cima, você tava olhando pra onde?

         Pra trás.

         Pra trás?

         É, precisava ver se iriam conseguir parar.

         Você acha que era o momento pra esse tipo de preocupação?

         Como assim?

         Nós devíamos estar olhando pra ela.       

         Você estava olhando pra ela e eu estava cuidando do meio que nós usamos pra chegar até ela.

         Tudo isso e a perdemos de vista.

         Você a perdeu de vista.

         Nós a perdemos de vista, nós.

         E porque você não foi atrás?

         De que forma?

         Repetindo o que ela fez.

         E como eu posso abrir a porta?

         Sei lá, como ela abriu?

         Foi tudo muito rápido, pode olhar, se fosse agora ela não teria espaço.

         Tem certeza que ela não está lá dentro?

         Vem cá, qual foi a parte que você não entendeu?

         A parte que ela consegue sair, mas agora não conseguiria, e a que você não foi atrás.

         Você fala muita besteira.

         Me conta o que você viu.

         Você não consegue manobrar nem um pouco?

         Agora sou eu que te pergunto, que parte você não entendeu, que parte você não consegue ver?

         Você nem tentou.

         Tentei sim, enquanto você estava olhando eu estava tentando.

         E?

         E, que não dá pra andar pra frente nem pra trás.

         Vou abrir o vidro.

         Não faça isso.

         Porque não?

         Já percebeu a proximidade que o carro ao lado está de nós?

         Então abre a sua.

         É a mesma coisa.

         Então, vamos sufocar?

         Não, isso não, vou ligar o ar.

         Esse carro aqui do lado não tem ar.

         Como é que você sabe?

         O cara tá suando feito um porco.

         Você não me contou ainda o que viu.

         Não?

         Não, com detalhes não.

         Ela abriu a porta sem olhar pra trás, em nossa direção, e saiu correndo. Optou por permanecer em nossa pista, ou seja, ela correu para o lado dos carros que estavam no mesmo sentido. Quando percebeu que não teria problemas em atravessar a rua porque os carros no sentido contrário estavam em situação muito parecida com a nossa, quando o fluxo de lá estagnou, ela atravessou, correndo, passando por cima dos tetos e capôs. Tá detalhado assim?

         Como eu não vi isso?

         Pois é, como você não viu isso.

         Você a viu entrar na mata?

         Ela seguiu correndo pela mata, acompanhei por um bom tempo, até que desapareceu.

         Como assim? A mata é densa, uma vez dentro não dá mais pra ver nada daqui.

         É o seguinte, os que tentaram desviar foram para o acostamento e estão na mesma situação que a gente. Só que ao invés de carros dos dois lados, não podem abrir a porta porque estão muito próximos da mata de um lado e de carros do outro. Ela pulou e foi correndo sobre a mata, por cima mesmo, até que a perdi de vista.

         Como é que é o negócio?

         Exatamente como acabei de falar

         Então ela é muito melhor.

         Melhor ou pior, ela sumiu.

         Você tá com um bafo que eu vou te contar, hein?

         E você acha que exala o quê, chá de erva doce?

         Não, o seu tá brabo demais, comeu o quê, um urubu?

         Você almoçou comigo, lembra?

         Lembro, lembro, tem uma pastilha aí?

         Vou fumar um cigarro.

         Desliga esse isqueiro, tá maluco?

         Maluco por quê?

         Tá tudo fechado.

         E porque tá tudo fechado não posso fumar? Tenha a santa paciência.

         Prefiro seu bafo.

         Não tem negociação, eu vou fumar.

         Então fuma, se entope de fumaça, mas me dá um trago pelo menos.

         Como vamos fazer para pegá-la?

         Boa pergunta, boa pergunta, que cigarro é esse?

         O de sempre.

         Tá diferente.

         Tá ruim?

         Não, não, tá estranho.

         Normal.

         Deve ser o gosto do seu bafo.

         Para de falar besteira.

         Não sei como vamos fazer, tô pensando, mas sinceramente não sei.

         Olha ali.

         Olhar o quê?

         Ali, sobre a mata, agora tá recuando.

         Não tô vendo nada.

         Dá uma disfarçada. Olha sobre a mata do outro lado da rua, na direção daquele carro vermelho.

         Sei.

         Tá vendo?

         Vendo o quê?

         Tá de brincadeira?

         Não, não estou de brincadeira.

         Então, consegue ver?

         Se você me disser o que tem ali.

         Olha com calma, não vê um volume que se destaca um pouco.

         Ah, agora tô vendo, mas o que é que tem, é mato mais alto.

         Não, espera um pouco.

         Tá ventando?

         Não, tá se mexendo.

         É ela?

         Pode ser.

         E o que ela quer?

         Sei lá.

         Ela devia ter aproveitado pra fugir.

         Ela fugiu, só que voltou.

         Tá bem camuflada.

         É muita coragem.

         Prefiro achar que é burrice.

         Nem tanto.

         Porque nem tanto?

         Não sei, tô pensando e acho que ela quer reverter a situação.

         Não.

         Acho que sim.

         Ela tá rastejando sobre a mata densa.

         Cada vez menos preocupada em ser vista.

         Tá arriscando muito.

         Somos um alvo fácil agora.

         Ela já pulou sobre o capô do carro vermelho.

         E vem correndo.

         Tá com o material aí?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fernando Rocha é carioca e nasceu em 1976. Administrador de empresas. Publicou o livro Sopro (contos) 7Letras. E-mails: fsrtextil@uol.com.br e fsrio@uol.com.br

  Licença Creative Commons

Publicações de um autor no Cronópios
Outras publicações de Fernando Rocha no Cronópios.