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10/08/2005 23:37:00
O pastor de bosques



Por Antonio Maura
(com tradução de Maria Helena Leitão)








      Este é um lugar no qual um homem, qualquer homem poderia perder-se. Não sei de onde você vem. Talvez de uma grande cidade. Não é mesmo? Faz muito tempo, eu também vivi por ali: torres de concreto e avenidas de asfalto, túneis e semáforos. Veja, para mim, aquela paisagem já não interessa. E como cheguei a um lugar como este? Isso foi como lhe disse, faz muito tempo. Parece até que me canso rebuscando na minha memória essa recordação. Qual é minha profissão? Se lhe dissesse que era lenhador, mentiria, isto é, não lhe diria toda a verdade. Carpinteiro? Tampouco seria fiel à verdade. E então...? Adivinho seu assombro, sua desconfiança... Não, não sou nenhum vagabundo. E também não sou nenhum louco. Não. Ainda que não me importasse ter qualquer dos ofícios que lhe mencionei. Veja, se tivesse que definir o que sou, o que sinto ser, verdadeiramente, diria, exatamente: um pastor de árvores. Isso mesmo: um pastor de bosques. Não sorria não, por favor, que não sou nenhum idiota. O fato de que eu viva isolado e distante desse Mundo do qual você procede não quer dizer que tenha perdido a razão. A comunidade dos homens não é sempre a mais saudável. Você não está de acordo? Aconteceu alguma coisa? Por que me olha desse modo? Isso que chamam civilização é algo raro e doentio. Por isso me converti em pastor de árvores: isso mesmo. O certo é que comecei sendo um simples carpinteiro. Fazia móveis: mesas para que nelas comesse toda uma família, cadeiras, camas para apaixonados... Faziam-me a encomenda e lá ia eu para dentro do bosque procurar a madeira para talhar os barrotes, a cabeceira, os pés... No princípio, aquilo era muito mais complicado do que se poderia imaginar e me assaltavam todo tipo de dúvidas. Que tipo de árvore devia cortar? Esse pinheiro que cresce na encosta ou aquele carvalho? Dizem que a madeira do carvalho é muito resistente... Mas, como escolher, como decidir? Ah! você não pode imaginar minhas angústias. Eu voltava muitas vezes para a minha cabana sem conseguir tomar nem uma única decisão. Ademais, e isto era o mais importante: como escolher o melhor para a pessoa que me tinha contratado? Imagine só: se era um pobre aleijado que necessitava de umas muletas, não lhe poderia valer qualquer tipo de madeira porque suas mãos tinham que sentir como seus pés que lhe faltavam e também não deviam deixar de ser mãos, suas mãos. A madeira teria que ser, portanto, flexível e suave ao tato e também firme porque teria que sustentá-lo como as nossas pernas fazem com você e comigo. Você me entende? Está seguro? Seu olhar às vezes é tão distante! E aquele casal de apaixonados? Eu sei que nenhum abeto é semelhante a outro, ainda que pertençam à mesma família do reino vegetal, como também nenhum amante é semelhante a outro. E digo isso porque lembro de uma mulher que durante muitos anos viveu uma vida bem monótona embora cheia de atividade, e mesmo assim não conseguia alcançar a plenitude: era escrava de si mesma, de seus filhos, de seu marido... E sua vida ia se perdendo em jorros sem ter sido capaz de vivê-la, de sofrê-la ou de gozá-la: de senti-la. Notava que um vazio semelhante a um abismo se abria sob seus pés -me contava ela- na hora em que terminava as tarefas do seu dia-a-dia e a casa voltava a ficar silenciosa. Então, então, ela não sabia como saltar por cima daquele obstáculo e reconciliar-se com esse rio que subjaz em cada um por toda sua existência: isso ao que vocês chamam de sonho. E aquela mulher, que ia contando tudo para mim, quase chorando, necessitava de uma cama, uma cama para dormir, uma cama que fosse como um pequeno ninho e também como um mundo em que ela pudesse ter habitado, e vivido, e sonhado. Como fazer uma cama assim! Você pode imaginar? Eu vinha para este lado do bosque e ficava olhando os galhos e as folhas. Talvez pudesse ser deste álamo branco tão delicado e, também, tão flexível. Não, não poderia ser esta a árvore da qual necessitava aquela mulher. Poderia então ser este choupo que se move à margem do riachuelo, que se derrama por ali... Pode vê-lo?... Logo depois daqueles freixos, lá na encosta. Mas nenhum dos dois parecia a mim que servisse. Finalmente, construí um grande leito de ramagens e folhas, sem cabeceira nem pés. As árvores emprestaram-me sua grande sabedoria indicando-me que tipo de ramagens e quais as partes do tronco eu deveria podar. E não foi só um, nem sequer uma única espécie ou única família, senão todos: de um eu tirava uma folha, de outro um ramo e de um outro seu fruto. Todos colaboraram para que aquele leito pudesse reunir todos os aromas e experiências do bosque... E aquela mulher conseguiu conciliar seu sono e sonhar.Você não me acredita? Vem de uma lonjura tão grande, tão distante, onde algo deve ter acontecido e pensa que encontrou aqui um louco. Talvez tenha razão. Faz muitos anos que ninguém mora nestas paragens. Aquela mulher de quem lhe falei já morreu. E morreu também aquele velho que me pediu que lhe fizesse uma cadeira para sentar-se à porta de sua casa para esperar a morte e saber então como recebê-la... Sim, morreram todos. Minha mulher também. Não lhe tinha dito? Estive casado e tive, inclusive, um filho. Vivíamos em uma cabana maior que esta que você vê. Quando tive que reconstruir a casa, fiz tudo à minha medida. Já não me faziam falta tantos quartos... Uma catástrofe? Não, o simples passar do tempo. Eu lhe contarei... Mas, de que lugar você vem e por que me olha assim? Por aqui não foi apenas você que se perdeu. Aqui todos se perdem. Não se preocupe por isso. Como lhe dizia, vivia dos móveis que fazia para as pessoas do povoado, do outro lado do bosque. Elas me pagavam com o que tinham: ovos, legumes, pão, leite... Mas um dia tudo se tornou diferente.

Na manhã daquele dia sai de minha casa e fui para o bosque. A luz tecia uma malha fina ao redor das folhas, como se fosse uma teia de aranha que pudesse prender em sua rede as idéias mais felizes. Recordo que me sentia como uma criança que descobre, pela primeira vez, a magia da natureza e quer gravar, naquela matéria luminosa, as autênticas imagens do seu sonho. Meus pés dançavam com uma alegria inocente e selvagem. Todo meu corpo cantava e minha voz quase não acompanhava aquele ritmo, aquela melodia que nenhum homem inventou e que deu origem a todas as músicas. Era a força da vida que me dominava, que eu bebia como licor naqueles raios luminosos.

Talvez eu tivesse penetrado na floresta mais do que devia, talvez a energia que desbordava em mim me levasse até alguma paragem insólita, mas o certo é que dei com uma clareira, onde dois indivíduos, sentados um em frente ao outro, jogavam dados. Junto a eles se erguia um jequitibá centenário. Ainda que, em um primeiro momento, o aspecto daqueles dois homens não me parecia estranho, não tardei em perceber que aquele jogo deveria ter sido iniciado há muito tempo já que vestiam suas roupas de forma atrapalhada depois de trocar inúmeras vezes suas vestimentas. Se um se cobria com dois gorros, o outro mostrava dois cinturões de fivelas brilhantes e as calças e camisas não correspondiam aos corpos que as vestiam.Devo ter posto uma cara de espanto porque um deles, ao ver que me aproximava, apontou-me uma vagem de jequitibá que estava no chão. Tomei-a e sem saber o porquê, levei-a à boca. Tinha um sabor amargo, mas surpreendeu-me a quantidade de sumo que se derramava, descendo por minha garganta. Logo, fiquei observando-os. Quando senti que já era tarde, fui buscar meu machado -tinha ficado apoiado no jequitibá- e descobri que seu cabo, de madeira, estava coberto de mofo. Fui andando para a minha casa achando tudo aquilo muito estranho e encontrei-a despejada e destruída, não por causa de incêndio ou de algum acidente natural ou provocado, e sim por causa da intempérie mesmo. Teria eu permanecido no bosque uma década, um século, um milênio? Como poderia saber! Voltei à clareira do bosque, mas já não pude encontrar os jogadores que brincavam com seus dados como se fossem anos. Fui até o povoado e tampouco encontrei alguém ali. Ninguém! Você está me ouvindo? Ninguém, não havia ninguém! O Mundo estava desabitado. Só ficara eu com o meu machado mofado e minha barba de cor indefinível. Senti a perda de minha família como se fosse uma dor que, de tão antiga, já não dói. Senti minha solidão como o incomensurável que deveria habitar a partir dali. E me senti, a mim mesmo, como um desses troncos que tendo alcançado uma altura satisfatória, crescem em espessura: dilataria-me muito mais além de todo o tempo e espaço, em círculos concêntricos feitos de experiências. Desde então cuido do bosque. Nada mais posso dizer-lhe. Nada mais devo acrescentar. Eu me dispunha a ir à floresta para nutrir-me novamente de sua magia e de sua sabedoria, quando me encontrei com o senhor. De que terras vêm? Há gente para lá das montanhas? Nada me responde. Será que o Mundo foi destruído e ficamos somente nós dois? Extraviou-se o senhor também e já não é capaz de contar os dias e os anos, as distintas jornadas do homem? Pelo que vejo não pode falar. Ou não quer. Acompanhe-me. A vida é como uma mancha e impregna tudo. Somente somos capazes de sobreviver. Minhas árvores e eu, seu pastor, sabemos disso... Por isso florescemos em todas as primaveras.






Antonio Maura é escritor e professor espanhol. Já morou e deu aulas em Fortaleza. É considerado o embaixador das letras brasileiras na Espanha. Faz parte do Conselho Editorial do Cronópios. E-mail: mauraba@yahoo.es

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