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23/05/2011 14:40:00
Contos ao palco (1)



Por Flávio Viegas Amoreira



Não adentrei ainda". custa trirremes deslanchar num palco high-tech. trirremes, galeras resfolegantes, braçadas, fontes imberbes, quadragésimo ano. [poderíamos tornar-mo-nos ainda] saltamos da tela do alçapão. o teatro resiste intempéries. eu que certa feita me apaixonei por Joel MacCrea. advento. arqueologia digital é assim: pesquisar vintage intelectual, astros esquecidos, livros não mais cultuados. conheci Carlos Schumann nesse verão de 2005: era fevereiro de meu aniversário; longe os motéis cintilavam como rabos piscando ao orgasmo oco, mas fodemos além do coito. auto-estrada, ponte-pênsil, aquedutos, os terminais ferroviários acesos, uma aldeia de pescadores. nos filmes ordinários ainda se pergunta pós-amorosamente: “foi bom, queridinho?” , “gostas-te?” (ainda melado de espermas mútuos perdidos pelos nossos ventres exaustos). Ah! na ida tu ias contando viagens por Toronto e a guarda-montada, o Vale do Loire em França: gosto desse “em França” ... possível ser sacana decentemente: a recepcionista nos atende e entrega as chaves como quem hospeda jovens a um convescote: “três horas 40 reais direito a 3 latas de cerveja”, diz a matrona tricotando, senhora atenciosa já passada em primaveras para que algo espante. A velha poderia ser casta anunciando orgasmos múltiplos aos sodomitas insedentos. O quarto é 118, repete oferta com voz arrastada: “3 horas de estadia, direito três latinhas ou quatro coquetéis” parecendo Helen Hayes ou Shelley Winters nos disaster movies do anos 70. teu olhar de ternura, eu em transe pela candura parisiense de tuas pupilas dilatando-se, êxtase. gargalhar farfalhando o cetim depois do orgasmo: dentro de ti soberano enquanto ejaculava sobre mim dizendo não haver nenhum vácuo em nosso apetites, nenhuma brecha entre mastro e ancoradouro. o sexo coleciona mais clichês que o amor ... tuas coxas em meu colo era como se toda Germânia trepasse em meu peito sequioso tão somente por um rostinho da Baviera. zarpemos!

costeando flancos, ah! como a costa salgada da tua nuca derrete-se ao arco em ondas lascivas das nádegas em refrega. rochedos da ilha abaixo de nossa suíte são menos eternos que nosso laço canino! o litoral desse atlântico macilento devia ser tombado só pela putaria de nossos traçados.

pega a latinha doutro lado do espelho que reflete teu membro nulo nessa languidez de androginia lacustre que transforma-te em cisne. a ducha com janelão para o penhasco , anoitece e lavo-me sem esse intuito de tuas entranhas. acende a cigarrilha holandesa, deita e abraça e me conta e me rende, essa tua estória de ser tetraneto de Clara num caso bastardo da viúva de Schumann com Brahms. Carlos, branquinho de vergonhas: pousa o cotovelo no travesseiro amando como só rapazes frescos sabem cativar homens maduros em atraso com a maciez juvenil: aos 28 anos era um adolescente tardio. custa crer que poderei escrever um monólogo para um ator que comigo deitara biblicamente às avessas: tenho que pôr palavras em sua boca, isso me destitui de autoridade sobre meu amante por quem zelo calado. ou será a veracidade madrasta benevolente de toda dramaturgia? Carlos Schummann é meu anjo desfalecido que sobe ao palco com todos os meus mimos poéticos ...



                                                 * * *


Flávio Viegas Amoreira, escritor, jornalista e crítico literário, já lançou 8 livros entre poesia, contos e romance. Faz parte da denominada “Geração 00”, representantes da Novíssima Literatura Brasileira. Atua em movimentos de direitos GLS e em defesa de políticas públicas para Cultura. Email: flavioamoreira@uol.com.br

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