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25/02/2012 14:35:00
O ceifeiro



Por Arthur Dantas Silva



O ceifeiro

, bem pequena. Mas era aconchegante. E existiam muitas plantações e eram nelas que ele trabalhava. Cada dia em uma diferente e eu ia sempre atrás dele, onde quer que fosse. Eu precisava dele mais do que precisava de mim ou de ar, comida ou televisão. Não era bem um vício, muitos achariam que fosse. Mas eu digo que não era. Não se pode viciar em alguém, pode se sentir necessitado dessa pessoa para sempre, isso é amor, não vício. Amor não é vício, é amor, ora. Muitos trabalhavam lá também, mas nenhum como ele e nem com tanta eficiência. Ele me disse uma vez que conseguia ceifar com a voz também, era simples, chegava perto da coisa, perto do chão onde a coisa tinha nascido, e começava a falar, baixinho, e com instantes a coisa já estava no chão, mole e murchando cada vez mais. Mas sempre no fim do dia ele estava com a garganta dolorida. Preferia ceifar com folhas brancas de papel, era mais rápido, tão eficiente quanto ceifar com a voz, e não machucava. Pelo menos ele achava que não, sabia que machucavam, porque perdeu uma das mãos em uma tentativa de ceifar uma coisa muito grande e grossa, a folha escapou e cortou a mão direita. Sorria sempre, até depois que perdeu alguns dedos dos pés e uma orelha. Mas sorria. E eu sempre tinha que procurá-lo, a cada dia, em uma plantação diferente. A cidade era pequena, mas tinha várias. Eu chegava e corria toda plantação para achá-lo. Ele nunca ficou perto dos outros trabalhadores. Acho que ele sentia vergonha da forma como ceifava. Mas era indiscutível que ele era o melhor ali. Ninguém trabalhava tão bem, tão rápido e sem ganhar nada. Ele dizia que me amar no meio da plantação era o pagamento dele. Dizia que adorava me ter com ele, ao lado das coisas moles e murchas que ele havia ceifado. Eu confesso que tinha medo. Isso tudo me dava medo, algumas pessoas diziam que eu era louco por me meter com ele, mas dele nunca tive medo. Tinha medo das folhas brancas, apesar de ele controlá-las muito bem, às vezes elas enlouqueciam, manchavam-se de sangue e bastava ter alguém próximo. Com o passar do tempo eu comecei a achar que ele não dormia mais. Passava o tempo todo lá ceifando, me dizia que o trabalho era muito e que gostava de fazê-lo. Sentia prazer no trabalho e em mim. Dizia. Agora já trabalhava tão rápido que ceifava duas plantações por dia. E nesse dia eu estava com ele pela manhã. E quando foi a tarde tive que procurá-lo. Não foi difícil, só existia mais uma plantação na cidade. Achei ele lá no meio das coisas, algumas já estavam caídas. Mas ele parecia ter feito uma pausa. Na mão que lhe restava ele segurou as duas folhas brancas de papel, pronto pra recomeçar, fez o movimento de corte, e a fo







Grave, intenso e louco

E eu tenho esse desejo doente de ser grave. Grave, intenso e louco. Carregando para casa gatos atropelados nas calçadas. Parando em pé nos cantos da sala e gritando com espíritos imaginários. Escrevendo gigantescos inventários de mortes que eu não tive.

Eu queria mesmo era plantar um doce de homem, que me segurasse pelos braços, com uma mão em volta do meu pescoço, a outra escorregando pela minha cintura e dissesse: você é doce, querido! E que isso fosse verdade. Que eu não sonhasse em me jogar em cada janela que eu passo. Que eu pudesse me livrar desse TOC de suicídio.

Que eu pudesse ser grave. Grave, intenso e louco. E que existisse alguém para me amar, mesmo assim, me matando sempre. 





                                               * * *


Arthur Dantas Silva é residente em Natal - RN, formado em Letras e mestrando em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: arthur_dantas@ymail.com

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