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08/03/2012 01:11:00
Essas e outras mulheres



Por Luiz Vitor Martinello



       Imaginemos fechar os olhos por alguns segundos e, ao abri-los, constatar que não há no Universo qualquer vestígio da figura feminina, qual Adão no Paraíso, numa inconsolável solidão. O sol, as flores, o regato e, mais adiante, a areia da praia, as ondas e... uma inconsolável solidão.
       Que por lá deve ter sido assim: um mundo de encantos, paradoxalmente, desfeito numa tal melancolia, que o próprio Deus, entristecido, tivesse ficado ali num canto qualquer a matutar, a pensar em como fazer com que o homem, criatura feita a sua imagem e semelhança, pudesse se alegrar, e nesse contentamento reconhecer as maravilhas de sua criação.
       Foi então que, solidário à dor do primeiro homem, criou Eva. Viu, porém, o Criador que era preciso mais. Sentiu a necessidade de acrescentar um delicioso feitiço a essa mais recente criatura.
       Pensou assim quimicamente numa tal de maçã, uma vermelhinha maçã e, é claro, com um bichinho dentro, um bigatinho simpático, malemolente, sem-vergonha, Eva botando na maçã os olhos, o gosto, dividindo-a aos mordiscos com Adão – gestos iniciais de ternura.
       E então, o encantamento de tudo: o sol mais dourado, as flores multiplicando perfumes, o cristalino regato e, mais adiante, a macia areia da praia, o marulhar das ondas, um Paraíso estonteante, a chuva que se seguiu, Deus coroando tudo com um arco-íris enorme de bonito.
       Pois é assim também conosco ainda hoje. Sem a mulher, parece que tudo nos falta. Temos olhos, mas não temos paisagens, temos ouvidos, mas os cantos dos pássaros emudecem, temos tato, mas apenas para sentir frio, degustamos os frutos de nossos pomares e eles nos parecem amargos e nossa voz se cala.
       Ah! Mas se ela vem toda de branco, toda molhada, linda, despenteada, que maravilha, que coisa linda que é o meu amor! Seja ela Aurora, veja só que bom que era; seja Amélia, a mulher de verdade; ou Carolina com seus olhos tristes, qualquer uma; a Beatriz de Dante; Dinamene, a chinesinha de Camões; Carmem de Bizet; essas e outras mulheres; imagine esse mundo sem elas...
      
Sem a Monalisa, sem a Elis, sem a Leila Dinis, sem a Adélia Prado, sem a rainha louca de Espanha, cadê nós, pobres coitados?
      
Aquela vontade de morrer, sumir no mundo como minhoca, desejar mesmo sermos iscas e então os peixes nos engoliriam e tudo seria uma vasta escuridão. 
       Graças a Deus porque, nos tendo dado Eva e o bichinho da maçã, podemos exaltar a coragem de Joana D’Arc, nos encantar com o biquinho francês de Brigitte Bardot, reverenciar as asas de anjo de Teresa de Calcutá e mesmo nos entreter com as artimanhas de Afrodite.
      
Ah! Doralice, quem foi que te disse que amar é tolice? Ah! Dorinha, meu amor, por que me fazes chorar? E a Rita que levou meu sorriso no sorriso dela, e essa Nega Fulô, ai, que bela que ela é, vem me contar histórias, Nega Fulô, enquanto a Maria Bonita vai fazer o café, esses enredos todos, vamos todos enredar... que Irene ri, quero ver Irene dar sua risada...
      
Ah! que não dá pra imaginar o mundo sem essas e outras mulheres....
      
Rosa batendo roupa, a saia grudada pelas pernas, rogai por nós; Isabel, a nosso bel prazer, rogai por nós; Mariana, a desconsolada, rogai por nós; Ruth e sua Bíblia, rogai por nós; Madalena que não tem do que se arrepender, rogai por nós; Dolores, flor morena de Madri, rogai por nós; Rogai por nós, Iolanda que eternamente amo; Rogai por nós Iracema, a virgem dos lábios de mel; Rogai por nós, Gabriela, cravo e canela.
      
Quando hoje acordei, imaginei que não mais houvesse mulheres no planeta. Daí esse texto, de alívio, por poder ver que estão aí, essas e outras mulheres, botando flor nos cabelos, debatendo nas telas da tevê, nos jornais e palanques, assumindo riscos nas fábricas, ou discretas em suas cozinhas; são empresárias, pensadoras, mães, filhas, namoradas, faxineiras, executivas, algumas inspirando poetas, outras escrevendo seus próprios poemas; há as atrizes, as meretrizes, as amantes, as mestras, as freiras, (um dia ainda haverá a papisa pra fazer jus à gramática); estão por toda parte de modo que, fazendo coro com outros homens, a vós pedimos, mulheres, iluminai-nos, protegei-nos, amparai-nos, abençoai-nos e, principalmente, amai-nos, que para isto fomos feitos, para amar e ser amados, por todos os séculos dos séculos, assim seja.



                                                  * * *

Luiz Vitor Martinello é poeta e professor de Literatura em Bauru – SP. É autor dos livros de poesia “Mãos nos bolsos”, “Os anjos mascam chiclete”, “Lixeratura”, “Me apaixonei por mim mas não fui correspondido” e dos infanto-juvenis “O sapato que sabia andar” e “O penuginha”. E-mail: vitormartinello@uol.com.br

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